Análises Deco Investimento socialmente responsável: Preocupações que rendem

Investimento socialmente responsável: Preocupações que rendem

Pensar no bem comum além do retorno financeiro. Mas também ter retorno financeiro. Os fundos que investem em ações de empresas que acreditam na palavra sustentabilidade são uma opção virtuosa e rentável. Recomendamos dois.
Investimento socialmente responsável: Preocupações que rendem
Deco Proteste 10 de julho de 2018 às 10:22
Diz o velho ditado que a riqueza não traz felicidade, mas dizem os especialistas em investimento socialmente responsável que a felicidade pode trazer riqueza.

A valorização do índice mundial que mede o comportamento global das empresas que levam a sério a palavra "ética" - o MSCI World SRI (Socially Responsible Investing) - é prova de como a virtude pode ter um casamento feliz com a rentabilidade. O gráfico da página ao lado mostra como, desde 2016, o investimento em bolsa centrado em ações socialmente responsáveis gerou rentabilidades superiores à média do mercado. A nível global, estão sob gestão cerca de 19 biliões de euros em ativos deste tipo (26,3% do total mundial). A Europa lidera: o investimento responsável já representa mais de 50% do total de ativos sob gestão. Há razões e tendências sociais que explicam a maior atração por fundos de investimento assentes em padrões de sustentabilidade. Cada vez mais os pequenos investidores - gente informada e de convicções fortes - reclamam por mudanças sociais, dando sinais claros aos gestores de fundos de que é essencial conciliar a análise financeira com critérios de crescimento económico sustentável, preocupações ambientais e responsabilidade social. Empresas que não respeitem os direitos humanos ou que não tenham boas práticas ao nível dos direitos dos trabalhadores estão riscadas da lista destes investidores. Do mesmo modo, os grandes investidores institucionais (fundos de pensões soberanos, por exemplo), pressionados pelos seus detentores, que não aceitam financiar empresas com más condutas, veem-se obrigados a excluir do seu universo de investimento companhias e setores fortemente sujeitos a críticas, como a indústria do armamento, a produção de tabaco ou de armas nucleares, as empresas com historial de corrupção e outras que não passam no crivo da ética.

O que é o investimento socialmente responsável?

Não é uma novidade. Há muito que este conceito faz parte do mundo do investimento. Poderia resumir-se como a materialização de um movimento financeiro ético: para os investidores, o desempenho económico das empresas não mais é suficiente, há também que dar um contributo positivo à sociedade. As que aliarem melhor os seus ganhos a boas práticas, em matéria de preocupações sociais, ambientais e de sustentabilidade em geral, são as que ficam na mira deste tipo de investimento. Há uma recusa do lucro a qualquer custo e a tentativa de provocar uma mudança na sociedade.

E o investimento é a arma.

Conceito em evolução

A definição de ISR foi evoluindo com o tempo. A visão inicial era mais estrita e excluía deste campo apenas as empresas pertencentes a setores altamente polémicos, como o armamento, o tabaco e a pornografia. Com a ascensão das economias emergentes - países com milhares de milhões de vidas humanas - aumentaram as preocupações ambientais e a urgência de um desenvolvimento sustentável a nível global. O ISR alargou fronteiras e passou a exigir que as empresas tenham também boas práticas ao nível do impacto no meio ambiente, do combate à corrupção e dos direitos dos trabalhadores.


26,3%
Percentagem do investimento socialmente responsável, a nível mundial, no início de 2016.


E a lista está em crescendo. A diferença salarial entre homens e mulheres já está sob os holofotes dos gestores dos fundos de ISR e não tardará a ser um critério para que uma empresa possa ser considerada socialmente responsável. E, por isso, mais apetecível aos olhos (e aos bolsos) dos investidores que exigem maior responsabilidade social por parte das empresas.

A malha da ética
Normalmente, os fundos de ações com políticas de investimento responsável incluem, na sua designação, expressões mais gerais como sustainable (sustentável), ou mais específicas como ecology (ecologia), clean (limpo) ou environment (ambiente). A avaliação e a escolha das empresas elegíveis ficam a cargo da entidade gestora do fundo, mas baseiam-se, muitas vezes, também em índices de referência nesta temática como o Dow Jones Sustainability e o MSCI World SRI, que selecionam as empresas mundiais que se destacam pelas suas boas práticas. Estes índices aplicam filtros de responsabilidade social às empresas.

As que passam na malha da ética e da sustentabilidade recebem o carimbo de empresa socialmente responsável. Mas que carimbo é esse?

Quem controla?

É a pergunta de um milhão de virtudes. A verdade é que nenhuma entidade oficial põe um selo branco num fundo de ISR. E se as políticas publicitadas forem uma gigantesca manobra de marketing? Não havendo certificação, a pergunta é absolutamente legítima.


Cada vez mais os gestores de fundos têm de conciliar a análise financeira com critérios de sustentabilidade.


Há passos que estão a ser dados. Investida da responsabilidade de estar ao leme da agenda da sustentabilidade, a Comissão Europeia apresentou, em março, um plano de ação para uma economia mais sustentável. É uma espécie de roteiro que abrange todos os intervenientes no sistema financeiro. As medidas apresentadas incluem, entre outras, o estabelecimento de uma linguagem comum para o financiamento sustentável, a criação de rótulos europeus para os produtos financeiros verdes e a "clarificação da obrigação de os gestores de ativos e os investidores institucionais terem em conta a sustentabilidade no processo de investimento, e de reforçarem os requisitos de divulgação", conforme se lê no documento.

Dois fundos de ações eleitos

A responsabilidade social não confere rentabilidade a priori. Um fundo é tanto mais rentável quanto melhor os seus gestores souberem selecionar as empresas nas quais investir e exercerem a arte de gerir a sua carteira.


A avaliação e a escolha das ações ficam a cargo da entidade gestora do fundo, mas baseiam-se, muitas vezes, em índices de referência.


Depois, porque pode haver receio de retornos inferiores, compare-se o que é comparável: resultados dos fundos de ISR com o mercado global de ações. À luz desse indicador de desempenho, os dois produtos que recomendamos - o fundo F&C Responsible Global Equity e o ETF UBS MSCI World Socially Responsible - estão ao mesmo nível dos melhores fundos de ações globais, com um score idêntico: três estrelas (em cinco). O F&C Responsible Global Equity está disponível para subscrição a partir de 500 euros. O ETF UBS MSCI World Socially Responsible implica negociar diretamente em bolsa. Para evitar o peso dos custos de transação, só é aconselhável para investimentos superiores a mil euros. Veja as empresas com maior peso nestes produtos e a distribuição setorial nas fichas ao lado. A rentabilidade superior a 10% nos últimos cinco anos pode - e faz - arregalar os olhos. Estamos a falar de ganhos obtidos em bolsa, tanto no caso do fundo, como do ETF. Mas é bom lembrar que este tipo de rentabilidade tem um irmão gémeo inseparável, o risco. Se as bolsas caírem, estes produtos vão atrás, independentemente de estarem rotulados como socialmente responsáveis.

Porque são ISR?

Novamente, uma pergunta legítima: porque é que estes produtos são considerados ISR? Porque afirmam e publicitam ter critérios de investimento responsável definidos por si próprios ou por entidades consideradas independentes. Por exemplo, a gestora do fundo F&C Responsible Global Equity diz que investe, predominantemente, nos mercados que contribuem de forma positiva para a sociedade. E que evita empresas que prejudicam o planeta, as pessoas, a natureza, ou que negoceiam, extensivamente, com regimes opressivos.

Não havendo (ainda) quem ponha uma assinatura oficial por baixo, há que ter, à falta de melhor, alguma fé.


Este artigo foi redigido ao abrigo do novo acordo ortográfico.