Gestão Responsável “Cérebro, esse órgão soberano”

“Cérebro, esse órgão soberano”

Da “estranha ordem das coisas” de António Damásio, à conversa protagonizada por dois robots na Web Summit, passando pela possibilidade de virmos a ser superhumanos, propomos-lhe uma viagem ao interior do nosso cérebro, tendo como guias vários grandes cérebros que o estudam e o tentam compreender. O que nos faz ser humanos, como vamos conviver com máquinas dotadas de inteligência artificial ou como poderemos aumentar a nossa capacidade cognitiva são alguns dos temas em análise, num artigo 2-em-1
“Cérebro, esse órgão soberano”
Helena Oliveira - Portal VER 11 de novembro de 2017 às 17:00

O título deste artigo é "roubado" a João Lobo Antunes, neurocirurgião, humanista e, até à sua morte em 2016, presidente da Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) e responsável pelo Conselho de Ética da Fundação Champalimaud. O tributo ao homem que afirmou, na sua Lição de Jubilação na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa em Junho de 2014 "enquanto as mãos me obedecerem e o cérebro souber mandar, vou continuar", deu o mote ao XX Seminário Nacional do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, este ano dedicado aos novos e complexos desafios do "cérebro e da ética" no primado de mais uma revolução tecnológica e onde a Inteligência Artificial (IA) se assume como estrela principal, entre tantas promessas quanto receios.

Em simultâneo, e na semana em que todos os GPS estão sintonizados para as muitas artérias da Web Summit, e entre as centenas de talks que a mesma acolhe, a inteligência – humana e artificial – está também no centro do debate, obrigando-nos a questionar o que significa ser humano neste tão automatizado século XXI e, mais importante que tudo, que caminhos serão trilhados no futuro, com a ajuda – ou com a ameaça -, de mais uma potente revolução tecnológica que divide as hostes face ao seus potenciais benefícios ou malefícios para a humanidade.

O VER esteve presente na conferência do CNEV, e também na Web Summit, e entre bactérias que apresentam "estratégias de cultura humana como a cooperação e a competição", como explicou António Damásio, até ao discurso da robot Sophia que afirma que não serão as máquinas a decidir que humanos serão substituídos, mas os próprios presidentes das empresas, passando pela ideia que o maior perigo para a humanidade é mesmo a espécie humana ou que temos de nos questionar se desejamos ser donos da tecnologia ou, ao invés, deixarmos que seja esta a ser a nossa "dona", muito "alimento para o cérebro" foi produzido ao longo dos últimos dias.

Apesar de ser impossível reproduzir, de forma abrangente, tudo o que esteve em discussão por parte de vários cérebros nacionais e internacionais que por Lisboa passaram, a história deste artigo tem exactamente o "cérebro" ou a "inteligência" como protagonista. E a ideia, avançada por vários oradores em ambas as conferências, de que o futuro continua a estar nas nossas mãos. Saibamos nós estabelecer e perseguir os objectivos adequados para o mesmo.

© DR

Do passado da espécie humana ao futuro da humanidade

Ao longo de um dia inteiro, e tendo como palco a Fundação Calouste Gulbenkian, vários foram os oradores que, na conferência do CNEV e de formas distintas, concordaram em pelo menos duas questões: que não é possível dotar os robots com sentimentos – não sendo, por isso, possível que a IA venha a conseguir reproduzir o cérebro humano – e que é urgente debater-se a questão da responsabilidade e da ética inerentes aos progressos da tecnologia no geral, e da IA em particular.

No discurso de abertura feito por Marcelo Rebelo de Sousa e sublinhando, ainda a propósito de João Lobo Antunes, que "se pode ser humanista, sem ser humano" – algo que não definia, de todo, o neurocirurgião que "teve uma vida a servir a Humanidade", também o Presidente da República alertou para o facto de existir "uma inevitável tensão entre a velocidade científica e tecnológica e o ritmo a que evoluem os valores sociais e culturais. Os fins não justificam os meios. Só nos regimes totalitários", declarou.

A conferência que juntou diferentes oradores – António e Hannah Damásio – que sobre a relação íntima existente entre biologia e ética explanaram -, o neurocientista português Rui Costa, com uma interessante apresentação sobre o "cérebro na acção", Berndt Stahl, do europeu Human Brain Project e ainda a investigadora em ciência cognitiva e professora em Harvard, Margaret Boden, que falou essencialmente sobre o futuro da IA e de alguns dos seus desafios éticos mais prementes – presenteou a audiência com um conjunto impressionante de progressos no estudo do que realmente nos faz ser humanos e distintos de qualquer outra espécie – mesmo que não da forma que damos como garantida –, com a inevitabilidade do progresso tecnológico a passos que poderão ser maiores que as nossas pernas e com a urgência de, em conjunto com os governos e a sociedade civil, se debaterem as múltiplas questões éticas e morais que o mesmo encerra.

E, apesar de os contextos serem completamente diferentes, um discurso similar – apesar de mais progressista – pautou também a Web Summit: a relação existente entre humanos e robots dependerá exclusivamente da forma como os primeiros usarão a sua inteligência para criar a sociedade do futuro. "A ideia de que os robots vão destruir a humanidade é apenas o medo que os humanos têm de si próprios", avançou a robot Sophia, criada pela Hanson Robotics e uma das maiores atracções da Web Summit este ano ou, como também referiu Bryan Johnson, fundador da Kernel, e que acredita que o futuro da humanidade será definido por uma combinação – benéfica – de ambas as inteligências, a humana e a artificial.

Da viagem iniciada há milhões de anos e que culminou na denominada "inteligência criativa" da espécie humana até aos avanços prodigiosos da inteligência artificial, ela mesma originária dessa criatividade do nosso intelecto, o que nos distingue das máquinas, por mais capacidade de processamento que tenham, por mais dotadas de algoritmos e de IA que sejam, são exactamente os sentimentos, os motivadores das culturas humanas e o que impossibilita que as máquinas partilhem a "condição humana" de que somos afortunados contemplados. Tentemos então iniciar este roteiro.

Da "estranha ordem das coisas" à estranha desordem do mundo



"A Estranha Ordem das Coisas" é a mais recente incursão na escrita de António Damásio e foi feita com o inestimável contributo da pesquisa de longos anos realizada pela sua mulher, a cientista Hannah que, entre outras coisas, estuda os complexos meandros do cérebro humano. Mas e em traços muito gerais, o que ambos tentaram explicar na conferência organizada pelo CNEV foi a evolução biológica dos sentimentos e emoções responsáveis por impulsionar a "cultura humana", mesmo que a sua origem remonte aos organismos unicelulares, "que nem sequer têm núcleo, um sistema nervoso ou uma mente". Para Damásio, "o que é estranho, mas é a realidade" é o facto destes organismos – ou as simples bactérias – terem estratégias de comportamento em relação a outros seres vivos, que já contêm uma "prefiguração" daquilo que virão a ser também estratégias da cultura humana – e de muitas outras espécies – como a cooperação ou a competição. Daí o título do livro, na medida em que acaba por ser uma espécie de ironia espectacular descobrir que as "coisas" não começaram propriamente connosco e que a "ordem do início dessas capacidades extraordinárias que temos" começaram muito mais cedo – há milhares de milhões de anos -, o que nos remete para "um aspecto de humildade em relação àquilo que somos".

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