Gestão Responsável Humanos não são máquinas que tomam decisões de forma racional

Humanos não são máquinas que tomam decisões de forma racional

Mais do que inesperada, a atribuição do Nobel das Ciências Económicas este ano ao economista comportamental Richard Thaler – e considerado o pai desta ainda “olhada de lado” ciência –, foi controversa. Afinal, a economia clássica sempre se sustentou na lógica crua e fria dos números, das estatísticas, dos modelos assentes em métodos rígidos e nunca deu espaço para que o comportamento humano – e as suas “anomalias – fizessem parte das análises que preconiza. Será desta que diminuem as hostilidades e a desconfiança face à importância da irracionalidade nas políticas económicas?
Humanos não são máquinas que tomam decisões de forma racional
Helena Oliveira - Portal VER 21 de outubro de 2017 às 17:00

De uma forma muito geral, a economia comportamental incorpora o estudo da psicologia na análise da tomada de decisão subjacente a um resultado económico, de que o exemplo mais simplista consiste nos factores que levam um consumidor a optar por um produto em vez de um outro. E, não sendo uma ciência nova, é com muita dificuldade e desconfiança que tem vindo a ser aceite no círculo restrito dos economistas tradicionais, que não lhe conferem a legitimidade necessária nem a importância que merece. É que, ao contrário da economia clássica, que se apoia na lógica da racionalidade, a comportamental recorda que os seres humanos primam mais pela irracionalidade, em particular no que às decisões e opções diz respeito.

Não sendo a primeira vez que um economista considerado "comportamental" é laureado com o galardão da Academia Sueca – o prémio já foi atribuído a George Akerlof, Robert Fogel, Daniel Kahneman, Elinor Ostrom e a Robert Schiller – o que perfaz seis por cento dos Nobel para as Ciências Económicas – reconhecer Richard Thaler como digno receptor do mesmo este ano poderá mudar, para bem, a economia tal como a conhecemos. A verdade é que Richard Thaler está a tentar fazê-lo há quase quatro décadas e, em locais como o Reino Unido ou os Estados Unidos (o agora laureado já foi conselheiro governamental), existem já "unidades de economia comportamental" que estão a contribuir para a geração de resultados em áreas tão distintas como a obesidade, as políticas de poupança, o pagamento de impostos, a educação, entre várias outras.

De acordo com os seus seguidores, o seu grande contributo para esta área finalmente crescente do pensamento económico prende-se com o facto de os humanos não serem seres perfeitamente racionais, mas antes pessoas com emoções, impulsos, problemas de autocontrolo, entre outras características puramente… humanas. E como são as pessoas que "fazem" a economia, Thaler sempre defendeu que deveria existir uma outra forma de a pensar também.


Numa entrevista que concedeu, em Junho de 2016, à Knowledge@Wharton a propósito do seu livro "Misbehaving: The Making of Behavioural Economics", uma espécie de biografia sobre a sua luta em prol do reconhecimento da importância da economia comportamental e que tem como tese principal o porquê de as pessoas nem sempre agirem em prol dos seus melhores interesses, afirma: "O livro é mesmo sobre o campo da economia comportamental e sobre as evidências que o sustentam. Utilizei os mesmos termos que em Nudge [o livro mais popular de Thaler, escrito em co-autoria com Cass R. Sunstein], os quais são ‘humanos’ e ‘econs’ e a ideia de que a economia comum tem esta criatura mítica, o ‘homo economicus’, ao qual conferi o diminutivo ‘econ’, criatura esta que nunca ninguém conheceu, sendo que nem os economistas são econs".

Existe a ideia de que a economia lida com uma criatura mítica: o ‘homo economicus’

E acrescenta: "sim, estes econs são super-espertos, não têm emoções, nem problemas de autocontrolo. Vão ao ginásio rigorosamente as vezes que forem precisas, nunca comem chocolate desalmadamente ou bebem em demasia e poupam exactamente o que deviam poupar para terem uma reforma adequada. E são completamente idiotas (…) Estas pessoas são criaturas ficcionais e o meu desejo sempre foi o de a economia ser feita para pessoas reais. E a lição para as empresas [e governos] é a de que se está a lidar com pessoas. Que são os clientes, os empregados, os chefes e que quanto melhor se perceber como os indivíduos funcionam, mais bem-sucedidos seremos a atingir os nossos objectivos", seja nas empresas ou no universo da política.

Na mesma entrevista, o Nobel da Economia de 2017 confessa ainda não considerar conseguir mudar as ideias que continuam a vigorar na economia dita tradicional, sendo que a sua estratégia tem sido a de "corromper os mais jovens", em tom humorístico, é claro, no sentido de que estes não têm ainda "interesses constituídos" no que respeita à forma como as coisas foram sempre feitas. "Existe uma razão para que as start-ups, especialmente as mais disruptivas, estejam cheias de pessoas jovens", diz ainda, acrescentando que, de alguma forma, tem vindo a ser bem-sucedido não por tentar mudar a mentalidade das pessoas, mas através do recrutamento de outras que o ajudem a construir um corpo de evidências [sobre a importância da economia comportamental].

Mas também confessa que, e no final, a única coisa que realmente convence as pessoas são os números, o que explica as muitas desculpas dadas pelos seus colegas economistas para continuarem a praticar a economia como sempre foi praticada. Recordando que estamos ainda a emergir de uma crise que foi essencialmente causada por inúmeros erros feitos por inúmeras pessoas e que "as grandes apostas não fazem ninguém esperto", Thaler defende que se há uma lição a retirar da economia comportamental, é exactamente esta: as pessoas têm comportamentos ainda mais irracionais quando as apostas são de risco elevado.


A impulsividade humana não obedece a uma calculadora

Ao explorar as consequências da "racionalidade limitada", das "preferências sociais" e da "ausência de autocontrolo", Richard H. Thaler "demonstrou como estas características humanas afectam sistematicamente as decisões individuais, assim como os resultados do mercado", pode ler-se na nota de imprensa publicada pela Real Academia das Ciências Sueca aquando da divulgação do Nobel. Mas afinal, quais têm sido as principais ideias difundidas por Thaler e que lhe valeram um dos galardões mais ambicionados do mundo?

Regressando aos anos de 1980, Thaler assinou, em co-autoria com Hersh Shefrin (um especialista na área da finança comportamental), um paper intitulado "An Economic Theory of Self-Control", o qual poderá ser considerado como o "mote" para o seu futuro trabalho. Como escreve no The Guardian o seu colega, amigo e também ele laureado com um Nobel da Economia em 2013, Robert Shiller, esta nova teoria descrevia "o fenómeno económico em termos da incapacidade das pessoas controlarem os seus próprios impulsos". Ou, e como afirma, "as pessoas não têm problema algum em se motivar a apanhar uma nota que encontraram no chão, não existindo aqui nenhuma questão de autocontrolo. Mas terão decerto problemas, a resistir ao impulso de a gastar. Como resultado, a maioria das pessoas tem um nível de poupança muito reduzido para o período das suas vidas em que irão precisar de uma adequada reforma".

Os humanos não são seres perfeitamente racionais, mas antes pessoas com emoções, impulsos, problemas de autocontrolo, entre outras características puramente… humanas

Ou, e por outras palavras, os humanos não são máquinas que tomam as suas decisões de forma racional, cometendo, ao invés, erros, não controlando os seus impulsos, gozando de preferências sociais, preocupando-se com o que acontece aos outros em vez de serem inteiramente egoístas (ou seja, agindo no seu próprio interesse como ditam muitas teorias económicas) e todos estes traços têm um enorme impacto na forma como tomam decisões económicas e financeiras.

E, para os economistas comportamentais, a ideia é que os seus colegas "ortodoxos" levem em linha de conta estes erros ou impulsos que as pessoas cometem repetidamente. Um dos maiores contributos dados por Thaler ao longo da sua carreira – e que tem sido aproveitado por alguns governos no que respeita ao estímulo para se poupar, por exemplo – está relacionado com a denominada "arquitectura da escolha", a qual é parte central do seu mais famoso livro "Nudge: Improving Decisions About Health, Wealth, and Happiness".

Em 2008, o livro Nudge foi um bestseller e colocou finalmente a economia comportamental no mapa dos governos e empresas. Com base nas decisões que tomamos todos os dias, desde os nossos investimentos pessoais, às escolas que escolhemos para os nossos filhos, ao tipo de alimentação que fazemos, às nossas poupanças, empréstimos, ao que gastamos em cartões de crédito e até em relação ao planeta, a verdade é que, muitas vezes as escolhas que fazemos são más e pobres. E, ao se ter consciência que, enquanto humanos, fazemos este tipo de escolhas, os decisores públicos têm, assim, a oportunidade de utilizar o conhecimento e a percepção que têm sobre estes mesmos erros para, de forma eficaz, melhorarem a sua tomada de decisão e, por consequência, a dos próprios cidadãos. Na verdade, a novidade introduzida por Thaler e Sunstein ´foi a de convidar os economistas, bem como os decisores políticos, a ter uma visão alternativa do mundo, assente na "humanidade" que nos caracteriza.

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