Gestão Responsável O holandês que quer trocar o TO BE pelo TO TREE

O holandês que quer trocar o TO BE pelo TO TREE

Exerceu várias funções na indústria química e do petróleo, trabalhou com a Enron, anteviu o seu desastre iminente e desencantou-se com a própria vida. Hoje é internacionalmente conhecido como um defensor da natureza – em particular das florestas – e está ligado a diversas iniciativas relacionadas com a sustentabilidade e com as energias limpas. Kees Hoogendijk esteve em Montalegre, para falar sobre “Ecologia Circular e Alterações Climáticas” e, em conversa com o VER promove, como base da salvação do planeta, uma tecnologia existente há pelo menos 500 milhões de anos: a plantação de árvores
O holandês que quer trocar o TO BE pelo TO TREE
Helena Oliveira - Portal VER 09 de Outubro de 2016 às 10:00

No âmbito do ENICOP 2016 (Encontro Internacional com o Património), que teve lugar nos passados dias 24 e 25 de Setembro, em Montalegre, realizou-se uma conferência internacional em torno do conceito da economia circular. Em representação da Face The Future, uma organização sem fins lucrativos que se dedica, em particular, a projectos que tenham como principal filosofia "fechar o ciclo de carbono", esteve Kees Hoogendijk, um engenheiro químico de formação que passou uma boa parte da sua vida a trabalhar no sector petrolífero, antes de sentir necessidade de encontrar "propósito" na sua vida. Em entrevista ao VER, o actual entusiasta e defensor da natureza, da sustentabilidade e das tecnologias limpas – e com participação em várias fundações, alianças e projectos globais relacionados com todas estas áreas – fala da sua visão, aparentemente simples, para salvar o planeta e que tem como base uma tecnologia existente há pelo menos 500 milhões de anos: plantar árvores.

Inquirido sobre o que o levou a trocar as salas dos conselhos de administração pelas "florestas", Hoogendijk conta que em 1998 "começou a sentir-se infeliz com a sua vida", ansiando por algo que lhe conferisse propósito, algo que "pudesse contribuir para fazer do mundo um lugar melhor". Uns anos antes, Hoogendijk havia trabalhado, durante um curto período, com a Enron, a famosa – por más razões – empresa de energia do Texas. E já em 1994 tinha tomado consciência de que esta sofria de uma total ausência de integridade e transparência, e que não divulgava, de forma honesta, os seus relatórios financeiros. Na altura, Hoogendijk alertou a equipa de gestão da empresa para um desastre iminente e abandonou-a pouco tempo depois. O resto da história é por demais conhecido. Em 2001, a Enron abriria falência e 65 mil pessoas perderiam o seu emprego, bem como as suas pensões. E esse constituiu um momento fundamental para Hoogendijk, quando se percebeu que a sua intuição estava certa. Assim, e a somar a motivos pessoais, o episódio da Enron contribuiu também para que o fundador da Face the Future visse alteradas as suas perspectivas de vida e também a forma como olhava para os negócios. Resolveu tirar algum tempo "para mergulhar a fundo em si próprio e se reconciliar com o seu verdadeiro eu", o que levou às iniciativas de sustentabilidade que compõem agora o seu currículo. Enquanto criança, Hoogendijk sempre se sentiu fascinado pelos números. E quando descobriu a "matemática subjacente à criação", sentiu-se muito empenhado e apaixonado para aplicar este conhecimento ao ambiente de negócios. E é o que tem vindo a fazer.

Levando em linha de conta que a economia linear tradicional, a qual obedece aos critérios de "extracção [de matéria-prima], produção, uso e descarte [de produtos]", ou a forma como os recursos do planeta são actualmente geridos, não tem "futuro" ou, que pelo menos ameaça o futuro da humanidade e da própria Terra, a economia circular tem vindo a ganhar uma atenção crescente. Todavia, e apesar dos vários movimentos e "coligações" no que respeita à sua implementação, em conjunto com algumas medidas de política económica já existentes, a mesma está ainda na sua infância. Na medida em que é um "insider" nesta tão necessária transição para uma sociedade de baixo carbono, como define o actual estado de arte da economia circular?

A ideia subjacente à economia circular é boa, mas irá demorar muito tempo a ser implementada. E, de acordo com o meu ponto de vista, não temos esse tempo, na medida em que existem (outras) questões mais urgentes para se abordar em simultâneo. Na conferência que teve lugar em Montalegre, falei sobre "Ecologia Circular", a qual está relacionada com os ciclos naturais, os quais, se em desequilíbrio, podem alterar o clima e ter outros efeitos desastrosos para a comunidade global. O Ciclo do Carbono, o Ciclo da Água e Ciclo Térmico estão todos em desequilíbrio. E tudo isto afecta a temperatura na atmosfera, a disponibilidade de água, a fertilização das terras, a cadeia alimentar e as subsequentes migrações relacionadas com o clima. Contudo, todos estes mesmos ciclos podem recuperar o seu equilíbrio. E a tecnologia para o fazer já existe há 500 milhões de anos: chama-se "plantar árvores". Na minha opinião, e sem a plantação de árvores, não existe futuro para a humanidade no nosso planeta. E temos entre 30 a 40 anos para invertermos o estado das coisas e para as "endireitar".

Sem a plantação de árvores, não existe futuro para a humanidade

Com a adopção, pela Comissão Europeia, do denominado "Pacote para a Economia Circular", como perspectiva a sua implementação? Está optimista ou acredita que, e mais uma vez, será apenas o "business as usual"?

Sim, acredito que seja, mais uma vez, o "business as usual". A mudança virá das pessoas e não dos governos. Os consumidores farão escolhas mais conscientes. Optarão por empresas e produtos que contribuam para a restauração e regeneração das florestas e dos solos e ajudarão a resolver os problemas que enfrentamos actualmente enquanto sociedade. A redução das emissões de gases de estufa, a economia de baixo carbono e a economia circular (embora positivas) não estão a abordar a mais premente das questões: a plantação de 2 triliões de árvores nos próximos 30 a 40 anos para equilibrar os ciclos naturais. O que poderá regenerar dois mil milhões de hectares de terras degradadas, restaurar os ciclos naturais, criar emprego, fornecer estilos de vida sustentáveis para os cerca de 500 milhões de famílias de agricultores que existem por esse mundo fora, ao mesmo tempo que contribuirá para uma maior segurança alimentar em toda a sociedade e para um mundo mais feliz e mais seguro.

A mudança virá das pessoas e não dos governos

A economia circular é considerada, de forma crescente, como uma solução crucial para se assumir o desafio dos 2o C e, ao fazê-lo, limitar o nosso impacto no clima. Tendo em conta o título da sua apresentação "Ecologia Circular e Alterações Climáticas", como define esta "ecologia circular" e quais são os seus principais fundamentos e desafios?

A Ecologia Circular descreve os ciclos naturais do nosso planeta, os quais, como sublinhei anteriormente, estão desequilibrados devido a causas antropogénicas. E o grande desafio é conseguirmos equilibrar novamente o Ciclo da Água, o Ciclo do Carbono e o Ciclo Térmico. O Ciclo do Carbono é bem conhecido. O Ciclo da Água também é conhecido, mas o papel das árvores no que respeita à manutenção do ciclo local e global da água ainda é pobremente compreendido pelos cientistas especializados em alterações climáticas. A maioria das civilizações que, de forma súbita, desapareceram no passado, sofreu de alterações climáticas locais causadas pela remoção de árvores. Ao que se seguiu a escassez de água, de alimentos, pragas e doenças variadas, migrações, conflitos e violências. O que é muito semelhante ao que se está a passar na actualidade. E o papel do desequilíbrio no Ciclo Térmico em termos de alterações climáticas é também, e ainda, pouco compreendido. Uma significativa percentagem da energia que é gerada no mundo termina em (resíduos) calor libertado para a atmosfera. Um cálculo recente demonstra que a soma de todo o calor libertado para a atmosfera nos últimos 100 anos corresponde a 0.8 graus Celsius, o nível actual de aquecimento global. E isto está no topo dos efeitos no aquecimento provocados pelos gases com efeito de estufa. Tendo em conta que as árvores arrefecem o clima através da evapotranspiração, ao cortarmos dois triliões de árvores estamos a reduzir a capacidade de arrefecimento do planeta em 45%. E, em conjunto, com a produção crescente de energia, estamos a queimar verdadeiramente a vela nas suas duas extremidades.

Estamos verdadeiramente a queimar a vela nas suas duas extremidades

Estamos agora conscientes (estaremos?) de que a economia circular traz benefícios para a sociedade, para o clima e para as empresas. Contudo e como já é habitual, persuadir o sector privado de que existe um verdadeiro business case na economia circular não é fácil. Na sua perspectiva, qual é a abordagem necessária para que as empresas se unam em torno desta transição urgente para a circularidade?

Do meu ponto de vista, considero que as empresas estão em busca de uma nova abordagem no que respeita aos seus clientes. E esta nova abordagem é mais inclusiva. As empresas precisam e desejam reinventarem-se. As empresas sabem que precisam de demonstrar que se preocupam com a natureza e com o bem-estar das gerações futuras. O respeito pelos ciclos naturais e o compromisso para os reequilibrar é a chave para o futuro da nossa humanidade. E as pessoas estão a sentir isso também e de uma forma crescente. E é por isso que estamos a criar o Movimento TREE TO BE. TO TREE é um novo verbo, e não um substantivo. TO TREE OR NOT TO TREE é o equivalente ao TO BE OR NOT TO BE. E este movimento irá criar programas e campanhas para as empresas que demonstram a sua preocupação no que respeita a estas questões, sendo que a melhor forma que têm para o fazer será plantar árvores em conjunto com os seus empregados e clientes. Em conjunto, poderemos fazê-lo. E, ao fazê-lo, estaremos a criar também um maior respeito pela natureza e a desenvolver o sentimento de que estamos verdadeiramente ligados a ela.

As empresas sabem que precisam de demonstrar que se preocupam com a natureza e com o bem-estar das gerações futuras

Um estudo da McKinsey em parceria com a Ellen MacArthur Foundation estima que esta transição possa adicionar um trilião de dólares à economia global até 2050 e criar cerca de 100 mil novos postos de trabalho num período de cinco ano. E a verdade é que um business case mais convincente que este parece ser impossível. Mas e mais uma vez, que verdadeiros passos estão a ser dados para que estas estimativas se transformem em realidade?

Os verdadeiros passos são sempre o problema. Eu acredito que nós, enquanto humanidade, precisamos de verdadeiros desastres transformacionais antes de mergulharmos verdadeiramente numa acção urgente. Os políticos são reactivos por natureza e não preventivos ou visionários.

TO TREE é um novo verbo, e não um substantivo

Mas como também sabemos, a economia circular não irá "acontecer" por um passe de magia. Medidas políticas, em conjunto com investimentos específicos, serão necessários. Mais uma vez, como avalia o investimento nestas medidas políticas, em particular a nível europeu?

Não acredito que serão as medidas políticas que irão assegurar o crescimento da economia circular. Os políticos são extremamente ineficazes no que respeita a se preocuparem com o bem-estar da natureza e das gerações futuras. Penso que a resposta residirá no papel da comunicação de massas e na inspiração dos cidadãos, que tomarão acções decisivas para se comprometerem com a economia reparadora e regenerativa na qual o capital natural é tido em consideração. O valor anual dos serviços de ecossistema do planeta para a humanidade é cerca do dobro do PIB global. Mas e como sabemos, este capital natural não aparece nas folhas de balanço nem das nações nem das empresas.

Depois de deixar a indústria química e do petróleo, iniciou a sua própria firma de venture capital, a Kegado. O seu portefólio actual inclui participações no Climate Neutral Group, uma empresa que "comercializa certificados de CO2" através de conceitos "verdes" inovadores. Poderá dar exemplos de alguns desses conceitos inovadores?

São vários. Por exemplo, o do "assento verde" (GreenSeat), que permite aos passageiros aéreos neutralizar as emissões de gases com efeito de estufa dos seus voos. Este conceito é igualmente aplicado aos carros de aluguer através de acordos realizados com algumas das maiores empresas do sector. Existe também o conceito da gasolina verde, cujas emissões são neutralizadas através dos créditos de carbono. Os créditos de carbono mais populares são aqueles que têm origem na implementação de fogões nas regiões mais pobres do mundo. Existem ainda os créditos de carbono com origem na restauração da floresta, e nos projectos de florestação e reflorestação [estes últimos directamente relacionados com a organização Face the Future, da qual o entrevistado é fundador]

Acredito que, enquanto humanidade, precisamos de verdadeiros desastres transformacionais antes de mergulharmos verdadeiramente numa acção urgente

A Face the Future trabalha essencialmente nos mercados de carbono do sector florestal e conta já com 25 anos de experiência. Olhando para trás, como avalia esta jornada particularmente longa e que passos considera essenciais para implementar políticas climáticas inteligentes relacionadas com a área florestal?

A verdade é que isto não funcionará com "políticas climáticas inteligentes". A tarefa é simplesmente gigantesca para ser levada a cabo pelos governos. Ao longo dos últimos séculos, queimámos e cortámos 2,5 triliões de árvores, o que corresponde a 45% do stock de floresta que cresceu ao longo dos últimos 500 milhões de anos. É como o petróleo. Queimámos, em 100 anos, o petróleo que levou à natureza muitos milhões de anos a criar a partir dos seus depósitos orgânicos. E é por isso que temos de resgatar a nossa relação com a natureza e perceber que essa mesma natureza leva muito mais tempo a criar seja o que for comparativamente ao tempo que os humanos levam para o consumir. O que é claramente insustentável. E é por isso que o Movimento TREE TO BE tem como objectivo informar, de forma alargada e positiva, os cidadãos sobre a tarefa que terão em mãos: plantar 2 triliões de árvores nos próximos 30 anos. Algumas previsões indicam que existirão cerca de 700 milhões de refugiados climáticos em 2050. Se cada pessoa assumir a responsabilidade de plantar (ou financiar a sua plantação) de 10 árvores por ano, todos os anos, será fácil alcançar o número que precisamos em 2030. E, se assim for, as alterações climáticas deixarão de ser um problema, pois as árvores irão sequestrar todo o carbono que emitimos, restaurar o ciclo da água para a agricultura/estilos de vida sustentáveis e recuperar o equilíbrio no ciclo térmico. Como resultados de níveis mais elevados de CO2 no ar, de estações de "crescimento" mais longas e de temperaturas mais elevadas, as árvores irão crescer muito mais rapidamente do que há 20 anos. Temos vindo a fazer estas avaliações nos nossos projectos de florestação. E, mais uma vez, sublinho que plantar árvores é um circuito de retorno construtivo na mitigação das alterações climáticas e nos seus desafios associados.


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