Gestão Responsável Quem nunca pensou em dizer adeus ao chefe?

Quem nunca pensou em dizer adeus ao chefe?

A pergunta é quase retórica mas serve para introduzir uma recente pesquisa elaborada pelo McKinsey Global Institute de uma realidade para a qual não existem muitos dados: o trabalho independente, as suas variadas formas e os inúmeros benefícios e desafios que o mesmo pode representar não só para a satisfação dos trabalhadores, como para a própria economia. Adicionalmente e em particular devido ao crescimento das plataformas digitais e da disrupção dos modelos laborais tradicionais, este estudo obriga-nos também a reflectir nas mudanças que estamos já a testemunhar no mundo do trabalho, conferindo novas pistas para aquilo que não tardaremos a dar por adquirido e irreversível também
Quem nunca pensou em dizer adeus ao chefe?
Helena Oliveira - Portal VER 22 de Outubro de 2016 às 10:30

De acordo com a Digital Company Statistics, e contando já com o mês de Outubro, a Uber conta com cerca de 50 mil novos "agentes" por mês, os quais utilizam a sua plataforma digital, em 400 cidades de 70 países, para transportar passageiros, tendo já realizado mais de dois mil milhões de viagens. Controverso para uns, revolucionário para outros, a verdade é que este modelo de negócio que visa, através de uma plataforma electrónica, ligar pessoas que se querem deslocar nas cidades com outras tantas que estão dispostas a transportá-las, não tem um único trabalhador e não investiu em uma única viatura. Muito por alto, cerca de 1.5 milhões de pessoas "trabalham" para uma empresa que não tem paredes, nem chefes, nem salários e muito menos horários.

Há muito que sabemos que o trabalho para a vida, os horários "certos", o temor ou a submissão ao "patrão", entre outras características que definiam o mercado laboral até há relativamente pouco tempo, estão mais do que obsoletas, existindo uma panóplia quase infinita de informação sobre as principais mudanças que têm vindo a alterar, profundamente, a forma como se trabalha, para quem se trabalha e onde se trabalha. Mas talvez não tenhamos ainda a noção de que, nos Estados Unidos e na Europa, existem pelo menos 162 milhões de pessoas que, de alguma forma, trabalham de forma "independente" e não contribuindo, por motivos diversos, para as estatísticas laborais.

E foi para preencher esta lacuna, em conjunto com a tendência visível que, no presente e no futuro próximo, serão cada vez mais as pessoas a engrossarem estes números – por escolha ou necessidade – que o McKinsey Global Institute (MGI), o "braço" de investigação económica da McKinsey & Company, lançou um estudo no início deste mês exactamente dedicado a esta temática, a qual integra também a denominada "gig economý" que, ao contrário do sentido pejorativo que poderá ter em português – a economia dos biscates – é cada vez mais abraçada por diferentes segmentos da população.

Com base em dados governamentais, após consulta de outros estudos que estimam a dimensão deste segmento de trabalhadores independentes, e depois de um inquérito a oito mil pessoas residentes nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Suécia, França e Espanha (com resultados extrapolados para a Europa dos 15ou EU-15), o MGI teve como objectivo quantificar o mais correctamente possível o número de pessoas que fazem parte deste "subconjunto" de trabalhadores, em conjunto com as suas motivações e potencial de crescimento.

No total, o relatório estima que a força laboral independente é bem mais significativa do que se supunha e que cerca de 20% a 30% da força de trabalho em idade activa nos Estados Unidos e na EU-15 está envolvida, de alguma forma, no denominado trabalho independente. Com diferenças geográficas, estes trabalhadores independentes podem ser distribuídos em quatro grandes categorias: a dos trabalhadores por conta própria (em inglês, free agents, o que corresponde, neste caso específico, aos nossos "freelancers") ou seja, aqueles que escolhem activamente o trabalho independente como fonte do seu rendimento principal e que rondam os 49 milhões de pessoas; os trabalhadores casuais que, por escolha própria, optam também pelo trabalho independente para ganharem algum dinheiro extra (64 milhões), os relutantes (23 milhões), que são "obrigados" a fazer do trabalho independente a sua principal fonte de rendimento, mas que prefeririam ter um emprego tradicional e os financeiramente amarrados que, apesar de terem um trabalho "normal", têm de ter outroindependente por necessidade e que totalizam cerca de 26 milhões.

Como seria de esperar, aqueles que optam, livremente, por este caminho laboral sem vínculo a patrões, horários ou escritórios físicos (os freelancers e os casuais) reportam níveis elevados de satisfação com a sua vida profissional, comparativamente aos que o fazem por necessidade ou por não terem alternativa, e independentemente do país, idade ou níveis educacionais, o que indica que é cada vez maior o número de pessoas que valoriza os aspectos não monetários do trabalho "por conta própria". Mas não só.

Independentes por opção demonstram maiores níveis de satisfação com o trabalho

© DR


De acordo com o relatório publicado pelo MGI, esta força de trabalho independente é bastante diversificada, seja em termos de grupos etários, níveis de rendimento, competências académicas e género, sendo que esta "classificação" é comum a todos os países analisados, o mesmo acontecendo com o desejo de "ser patrão de si mesmo". Complementarmente, é também possível encontrar trabalhadores independentes num conjunto alargado de ocupações e sectores.

Por outro lado, a pesquisa efectuada deita igualmente por terra alguns mitos que rodeiam o trabalho independente no século XXI. E o primeiro diz respeito ao facto de serem osmillennials que dominam este segmento – aqui considerados como os menores de 25 anos -, que representam, no relatório em causa, menos de um quarto dos trabalhadores independentes. O mesmo acontece com os trabalhadores de baixos rendimentos que, de acordo com o senso comum, são aqueles que mais "biscates" fazem para fazer face às suas necessidades. Apesar de 40% a 55% dos agregados de baixos rendimentos contarem com algum tipo de trabalho "independente", em todos os países analisados – com excepção de Espanha – estes representam também menos de 25% dos que ganham dinheiro com este tipo de escolha laboral. Uma outra constatação, que também não gera surpresa é o facto de, e apesar de este tipo de trabalho ser muito comum nos sectores da construção, do trabalho doméstico, dos serviços personalizados e no dos transportes, também é o eleito por muitos profissionais, como médicos, terapeutas, advogados, contabilistas, designers de interiores e os "escritores", que englobam também os tradutores e os jornalistas.

A pesquisa realizada sugere também que muitas pessoas escolhem esta "independência" porque são particularmente atraídas pela sua autonomia e flexibilidade mas, e obviamente, existem outras tantas que o fazem devido a constrangimentos económicos ou a condições particulares do mercado de trabalho.

Todavia, o que é claro é que aqueles que escolhem, porque assim o desejam, a via do trabalho independente são os que níveis de contentamento mais elevados com a sua vida profissional demonstram. Aos inquiridos foi pedido que avaliassem a sua satisfação relativamente a 14 aspectos da sua vida laboral, com os "freelancers" ou independentes por opção reportaram níveis mais elevados de satisfação comparativamente aos que têm um "emprego tradicional" em 12 dos itens considerados, sendo que estes últimos apenas se manifestaram "contentes" nas duas dimensões remanescentes.

Os independentes por opção – e convicção – sentem-se muito mais envolvidos com o seu trabalho, saboreando a oportunidade de serem patrões de si próprios, em conjunto com o facto de poderem ser também donos do seu tempo. Adicionalmente, afirmam também sentir-se mais satisfeitos do que os trabalhadores tradicionais em outras dimensões menos "óbvias", como no que diz respeito a uma maior facilidade em expressarem a sua criatividade, até às oportunidades de aprenderem coisas novas ou sentirem um maior reconhecimento do seu trabalho por parte dos seus clientes. No geral, sentem-se igualmente felizes com os seus níveis gerais de rendimentos e tão satisfeitos quanto os trabalhadores tradicionais relativamente à segurança destes mesmos rendimentos e aos benefícios neles incluídos (o que em Portugal e como sabemos, ainda não acontece).

Já os "casuais"avaliam também a sua satisfação como superior à demonstrada pelos trabalhadores "tradicionais" em cinco das 14 dimensões analisadas, estando igualmente satisfeitos nas restantes, sendo que muitos decidiram transformaram os seus hobbies em tarefas pagas ou enveredaram por esta via complementar simplesmente porque retiram prazer em fazer um trabalho diferente daquele que constitui a sua actividade principal.



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