Mercados A entrevista integral de Hugo O’Neill

A entrevista integral de Hugo O’Neill

O Negócios foi ouvir a história da pessoa que há mais tempo exerce a profissão de consultor de investimento em Portugal. A experiência de Hugo O’Neill leva-o a afirmar com certeza que o colapso dos mercados está para breve. O “trader” contou as suas vitórias e falhanços e ainda teve tempo para deixar umas dicas de investimento.
A entrevista integral de Hugo O’Neill
Miguel Baltazar
Mariana Adam 19 de julho de 2017 às 11:00

Há 15 anos que está registado na CMVM como consultor para o investimento. É, aliás, a pessoa há mais tempo registada no exercício desta actividade. Lembra-se do dia em que se registou na CMVM? Porque o fez?

Lembro-me muito bem. Tratou-se apenas de oficializar uma actividade que exercia desde 1987 por contra de terceiros e que a partir de então passei a desenvolver por conta própria, por me parecer que era o melhor processo para aconselhar clientes em plena liberdade numa época de alto risco.

Consegue-me descrever melhor esse dia em concreto?

Organizei os meus ficheiros de clientes, iniciei o processo de abertura de uma conta de consultor num broker internacional, revi o perfil de risco de uma selecção de clientes potenciais, com quem marquei um encontro para dar conta da nova situação e combinar o sistema de trabalho. Actualizei a situação do modelo de risco do mercado e convidei um grupo de colegas para um almoço de confraternização.


Época de alto risco… Porquê? Como era exercer a profissão nessa altura?

Pelo enchimento da bolha especulativa nos EUA das dot.com, pela procura crescente do mercado imobiliário americano e aumento do respectivo endividamento - tanto no sector privado como no sector financeiro - aproveitando uma tendência de baixa nas taxas de juro. Era indispensável ter acesso a visões opostas, formar uma opinião sobre os factores críticos de risco e acompanhar em permanência a evolução da cotação de empresas escolhidas para ‘shortar’. Em paralelo, era necessário estar por dentro da oferta de produtos securitizados e da evolução das yield de dívida pública como alternativa para parquear liquidez, tudo sempre numa perspectiva de curto prazo.


Esta foi sempre a sua actividade principal? Qual a sua formação?

Não. Iniciei a minha vida profissional em 1958 como gestor comercial de um grupo de empresas no qual trabalhei até 1986. Frequentei o Instituto Superior Técnico e a Faculdade de Ciências, mas optei pela gestão de empresas tirando o 1º PADE Programa de Alta Direcção de Empresas do IESE – Instituto de Estudos Superiores da Empresa da Universidade de Navarra, mais tarde AESE. Para aperfeiçoar a formação na área financeira segui o curso de gestão de activos em Londres da UK Society of Investment Professionals, onde obtive o Invest Management Certificate e finalmente o Curso de Consultor Autónomo pela CMVM.


Trabalhou sempre de forma independente? Pode descrever-me o seu percurso profissional na área?

Comecei por trabalhar para uma corretora, que depois ajudei a passar a dealer e a internacionalizar a sua actividade. Essa sociedade foi adquirida pelo Grupo Espírito Santo para o qual montei a primeira empresa de análise financeira. Seguidamente representei em Portugal a Schroder Investment Management, um dos principais grupos britânicos de gestão de activos. Em 1998, montei uma sociedade que representou a sociedade de análise de fundos de investimento da Standard & Poors e em 2000 assumi a função de consultor autónomo, que ainda exerço.


Qual destes desafios mais o marcou? Porquê?

O primeiro contacto com o sector de serviços financeiros, pela diferença do modelo de funcionamento do sector da indústria de onde vinha, em especial a menor exigência analítica na avaliação do mercado e a necessidade de uma muito maior rapidez no processo de tomadas de decisão.

O contraste entre sistematização do trabalho e o alargamento da visão adoptada pela Schroders e os métodos de actuação adoptados no mercado Português.

A exuberância irracional como factor crítico das estratégias de investimento, tanto de particulares como de institucionais, a manipulação da informação sobre o mercado disponibilizada tanto pelos intermediários financeiros como pelas entidades públicas, em especial as dos EUA, e o erro em considerar que em geral a prudência se sobrepõe à ganância, mesmo nos casos em que o risco se torna evidente.


Estes 15 anos foram de mudanças disruptivas, essencialmente do ponto de vista tecnológico. Quais as grandes diferenças?

As principais mudanças sob o ponto de vista técnico consistiram no surgimento e desenvolvimento do mercado de derivativos e a globalização dos mercados financeiros, dando origem primeiro nos EUA e depois no resto do mundo a uma "economia financeira", aplicando no mercado de capitais o produto de dívida emitida pelo sector financeiro. Este movimento foi criando bolhas especulativas, tendo em 2000 rebentado a mais especulativa de todas a chamada bolha dos dot.com, cujo efeito devastador foi atenuado pelo surgimento da bolha do sector imobiliário cujo rebentamento deu finalmente origem à crise de 2008, resultante do endividamento excessivo do sector financeiro. As consequências desta crise global foram parcialmente sustidas por medidas de injecção de liquidez no sistema numa acção convergente dos principais governos e bancos centrais e deveria ter sido seguida - mas não foi - por um plano a longo prazo com o objectivo de eliminar o excesso de endividamento. Os excessos da dívida pública e privada são hoje bem mais críticos que os de 2008 e os instrumentos para controlar a situação bem mais escassos. Em consequência, aumenta o desvio entre o crescimento do mercado financeiro e o da economia real, devido ao excesso de investimento no primeiro e ao deficit no segundo.


Está a dizer que estamos pior que em 2008?

Sim. Se analisarmos um gráfico de crescimento da dívida americana a partir dos anos 80 parece os Alpes!

Tudo começou efectivamente nos anos 70. Na altura havia um tipo de bancos, os "saving and loans", cuja actividade consistia em captar poupanças pagando um juro ligeiramente superior ao dos bancos comerciais e aplicava esses valores em empréstimos para compra de habitação, carros, e outros bens de uso corrente, cobrando una taxa de juro também ligeiramente superior ao mercado. Mas esse juro tornou-se baixo quando a Reserva Federal resolveu primeiro em 1975 e depois em 1980 aumentar drasticamente as taxas de juro para combater a inflação galopante. Tal subida das taxas de juro tornou inviável o negócio tradicional destas instituições, levando-as a procurar um tipo mais sofisticado de operações que suportasse o acréscimo de taxas. Mal preparados tecnicamente e financeiramente para esse novo tipo de operações, começaram a entrar em quebra de tal modo que, em 1989, 1500 dos 4000 bancos tinham falido, levando o governo e a Reserva Federal a intervir de modo a garantir a solvência dos restantes bancos que mais tarde acabaram por ser absorvidos pelos grandes bancos comerciais.

Tratou-se da maior crise do sector bancário desde 1929 e a atitude do governo e Reserva Federal levou os gestores e investidores do sector financeiro a acreditar que os decisores políticos e os reguladores da actividade bancária adoptariam idêntica orientação em futuras situações, levando-os a reforçar a componente de risco, emitindo dívida cujo produto aplicavam em investimentos especulativos nos mercados de capitais. Esta orientação não mais parou, levando a um aumento exponencial do endividamento do sector financeiro, às sucessivas bolhas especulativas com as consequências que agora se conhecem.

Acresce que o peso dos depósitos nos balanços dos bancos dos EUA decresceu muito, o que aumenta consideravelmente o risco.


Está a falar de uma bolha gigantesca.

Sim! Não foram tomadas medidas estruturais visando a redução global do endividamento. Houve sempre uma visão de curto prazo, inerente da democracia que encurta o espaço de acção a quatro anos, os ciclos eleitorais. Basta pensar que a dívida total dos EUA - incluindo a dívida não titulada envolvendo compromissos do governo à segurança social - ascende a 120 a 130 triliões de dólares. É impossível de resolver! O PIB anual, mesmo sendo optimista, é de 16 a 17 triliões.


A bolha vai rebentar? Quando?

Não se sabe. Tanto pode ser amanhã ou em breve, há mil razões para isto estoirar, a crise no Qatar com o Médio Oriente, a volatilidade das relações externas de Trump, o descrédito em relação à política económica de Trump, por exemplo. É uma bolha gigante que envolve uma sobrevalorização do mercado de acções americano. O índice S&P500 apresenta neste momento um P/E (CAPE) de 30 vezes, ou seja, o valor do índice é cerca de 30 vezes o resultado médio por acção ajustado pela inflação, o que corresponde a um desvio de cerca de 80% acima da média. Quando rebentar, tanto para as empresas boas como para as más, só se safa quem esteja em activos que possa mobilizar de forma independente.  


Tais como?

As moedas virtuais que fogem de tal maneira aos governos e podem servir de refúgio, é arriscado, mas é um caminho. Mais seguro é fazer aplicações em ouro, em economia real: imobiliária, agricultura. África é uma oportunidade fantástica. Vai haver um ‘back to basics’.


Pode descrever-me o seu dia de trabalho como consultor actualmente? Que tipo de operações faz? O que consulta? E há 15 anos, como era? 

Actualmente sou consultor de um reduzido número de clientes particulares e de dois clientes institucionais estrangeiros. Tenho um modelo de avaliação dos factores críticos que influenciam os mercados, que actualizo diariamente com o objectivo de encontrar sinais de alerta para uma convulsão que me parece ser inevitável, mas cujo desfecho é difícil de prever. Para tal recorro a fontes como as estatísticas Z1 do Federal Reserve Bank, BIS para uma análise global do sector financeiro, FMI, BCE e Eurostat e gabinetes privados internacionais de análise financeira e de mercados.

Há quinze anos fazia a mesma coisa para mais clientes conquanto que usando fontes de informação e instrumentos diferentes.


Pode contar-me a sua principal vitória e a principal derrota profissional?

A principal derrota foi a de ter avaliado mal os recentes riscos do sector financeiro em Portugal; a principal vitória a previsão dos excessos de 2008 na economia global.


Qual o seu dia mais longo (o que mais o marcou), da carreira profissional?

O dia 11 de Novembro de 2013, em que vieram a público as divergências e críticas internas no GES trazidas por um membro do seu Conselho Superior.


Trabalhava no grupo na altura, como foi?

Tinha um contrato de consultoria para gestão de activos. Embora não estivesse totalmente por dentro da situação do Grupo sabia que havia problemas cuja solução implicaria o reforço da estrutura financeira do grupo. São situações que sucedem quando crises externas à instituição a afectam negativamente e que, em casos como o GES, controlado por uma família, se complicam quando a família não dispõe na altura dos recursos necessários.

Para manter a solidez financeira seria necessário procurar o investimento de entidades externas à família implicando a perda pela família do nível de controlo do grupo.

Há vários casos em que idêntica situação se colocou, um que me lembro, por ter sido um ‘case study’ da época foi a decisão tomada no final dos anos 60 por Marc Wallenberg, o responsável pela administração do Grupo Wallenberg, que para contrariar a entropia provocada pelo banco da família no restante negócio do grupo, resolveu promover a sua fusão, com o Skandinavska Bank, criando o Skandinavska Eniskilda Bank cujo controle deixou de lhe pertencer mas que beneficiou significativamente a família pelo acréscimo de valor do seu activo total assim proporcionado.


Mas não foi este o caminho…

Uma solução desse género implicaria como ponto de partida um entendimento interno da família que permitisse a procura privada de uma solução. O que de facto aconteceu é infelizmente bem conhecido!


Houve certamente outros dias, períodos marcantes.

Claro, vários. Um completamente diferente. Em Junho de 1974 eu era o CEO  do Grupo Previdente e o MFA decidiu subir para o dobro os salários mínimos nacionais. Se acatássemos a medida com reflexos a todos os níveis da estrutura da empresa esta ficaria inviável, não era possível! Após discussões inúteis com Comissões de Trabalhadores e Sindicatos, decidi explicar isso aos trabalhadores, eram cerca de 1.500 funcionários, juntámo-nos no refeitório e expliquei-lhes que íamos aumentar os que recebiam o salário mínimo, mas que isso não se poderia repercutir para cima. Expliquei-lhe as consequências e à medida que ia falando via mulheres, essencialmente mulheres, a aproximarem-se de mim, depois os trabalhadores votaram de braços no ar e eles aprovaram a minha proposta. Foram as mulheres, elas perceberam o risco e decidiram salvar a empresa.


Voltando ao seu mundo… Como foi exercer esta profissão ao longo da vida?

Nunca foi fácil, até porque a maior parte das vezes se concorre com os bancos que têm uma capacidade de intervenção e poder muito mais competitiva do que alguém sozinho.


As pessoas percebiam qual era a sua profissão?

Não… Acho que muitos ainda hoje não sabem. Mas até há pouco tempo havia uma grande incultura.


O que diferencia um bom consultor dos outros?

Os consultores são pessoas que aprendem uma profissão. Os melhores são os que fazem aos seus clientes o que querem para si próprios. Cada um é juiz de si próprio e age de acordo com isso mesmo, nunca nos podemos afastar dessa base.


Que conselhos deixa aos mais novos?

Que sejam críticos do que se passa, formem a sua consciência e ajam em conformidade. 


Como pensa que vai estar a profissão daqui a 5 ou 10 anos? As máquinas são uma ameaça?

Terá, entretanto, provavelmente havido um colapso dos mercados e a profissão passará por um período verdadeiramente crítico que põe em evidência a importância dos conselhos que deixei aos mais novos. As máquinas são um instrumento que se tem de saber usar e não uma ameaça.


Se tivesse agora uma carteira de 5 mil euros para gerir onde apostava? Porquê?

Numa obra de arte de que gostasse. Porque dá tanto trabalho gerir uma carteira de 500.000 Euros como uma de 5.000 Euros e o resultado que se possa tirar da de 5.000 não compensa o esforço.


E uma carteira de 500 mil euros?

Cobrir o risco cambial; aplicar 25.000 em ouro e 5.000 para shortar bancos dos EUA e manter o resto em liquidez na expectativa de tirar partido de um colapso dos mercados mais líquidos, em especial dos EUA. 




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comentários mais recentes
TUDO APONTA PARA UMA BOLHA GIGANTESCA 19.07.2017

Digam-mem qual e a Empreaa do Ps-20 que nao esta endividade, temos o ex, da EDP, mais de 17.000 milhoes de divida, Bncos, e tudo falacias, nada conrresponde a realidade, os Paises esrao altamente endividados,

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