Petróleo Aumento dos combustíveis vai depender da taxa de câmbio do euro

Aumento dos combustíveis vai depender da taxa de câmbio do euro

O reflexo do aumento do preço do petróleo na subida dos combustíveis vai depender das taxas de câmbio, consideram analistas ouvidos pela Lusa, que recordam que a valorização do euro e da libra face ao dólar tem mitigado os impactos.
Aumento dos combustíveis vai depender da taxa de câmbio do euro
Reuters
Lusa 29 de janeiro de 2018 às 07:46

Analistas contactados pela Lusa consideram que, apesar da subida do preço do barril de petróleo no início deste ano, a cotação deverá manter-se nos 70 dólares em 2018, um máximo desde Dezembro de 2014.

 

Questionados sobre as consequências da evolução do preço para os consumidores, os analistas afirmaram que estas dependem do câmbio da moeda.

 

"Teoricamente, qualquer subida do preço do crude poderá ter como consequência o aumento dos combustíveis, mas ter-se-á que incorporar também outra variável na equação, o câmbio", referiu à Lusa o director-adjunto da Caixa - Banco de Investimento, Carlos Jesus.

 

Por seu lado, o director da banca 'online' do Banco Carregosa, João Queiroz, apontou que, "para o consumidor que aufere rendimentos em dólares, [esta variação] pode representar menor rendimento disponível, mas para o europeu dependerá da relação do euro face ao dólar, que tem funcionado como factor de imunização".

 

"Ou seja, os incrementos do crude são mitigados pela apreciação do euro e da libra inglesa", reforçou o especialista, concluindo que "a balança de transacções tende a ser negativamente impactada pela via das importações, mas também dependente da variação do dólar".

 

Já na óptica do gestor da corretora XTB Eduardo Silva, "a consequência é total, principalmente em países como Portugal em que os impostos indirectos são esmagadores".

 

"O Governo introduziu o Imposto Sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos para compensar o petróleo a preços baixos, sendo que quando subisse seria revisto", lembrou.

 

Quanto aos impactos para as petrolíferas, Eduardo Silva disse que estas "beneficiam do aumento do preço, mesmo que o consumo possa cair ligeiramente".

 

Também João Queiroz observou que, "apesar de o modelo [destas empresas] ser integrado -- com a extracção, refinação, distribuição e 'marketing' -- e menos dependente das variações da cotação do crude", o aumento do preço do barril de petróleo "pende para algum efeito positivo na margem de receita".

 

Carlos Jesus ressalvou, contudo, que "as empresas com uma maior exposição ao negócio de exploração e produção de petróleo podem beneficiar mais de uma conjuntura de subida de preços do que as empresas integradas".

 

O euro acumulou uma valorização próxima de 2% na semana passada e chegou a negociar acima dos 1,25 dólares, um máximo desde Dezembro de 2014.

 

No dia 25 de Janeiro (últimos dados disponíveis), o preço médio de venda da gasolina 95 em Portugal foi de 1,549 euros por litro e o do gasóleo de 1,347 euros por litro, segundo dados da Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG).

 

Analistas estimam manutenção do preço do petróleo nos 70 dólares em 2018

João Queiroz, explicou que "a tendência de recuperação da cotação do Brent crude, que parece ter-se iniciado em Dezembro passado (próximo dos 61 dólares por barril), reflectiu as contínuas quedas dos 'stocks' semanais e os fenómenos atmosféricos que podem continuar a fomentar alguma procura, o que é sazonal".

 

João Queiroz estimou, assim, que a cotação se mantenha entre os 65 e os 70 dólares por barril, acrescentando que, acima destes valores, pode surgir "alguma dificuldade em registar maior progressão", já que "o potencial de instabilidade geopolítica no Médio Oriente poderá alimentar uma parte da incerteza no preço", tendo ainda em conta "o aumento da oferta por parte dos Estados Unidos".

 

Por seu lado, o director-adjunto da Caixa - Banco de Investimento, Carlos Jesus, observou que "o preço do crude tem vindo a ser suportado pela conjugação de níveis de procura robustos e pelo corte de produção da OPEP [Organização de Países Exportadores de Petróleo] e de outros produtores fora" desta estrutura.

 

"Pensamos que o preço poderá permanecer entre os 60 e os 70 dólares por barril no curto e médio prazo, suportado pelos cortes de produção que deverão permanecer em vigor durante 2018, sendo a subida potencialmente limitada pela possibilidade de aumento da produção em países que não se vincularam ao acordo de corte, nomeadamente os Estados Unidos", justificou o analista.

 

De acordo com Carlos Jesus, a evolução da cotação do barril de Brent (referência na Europa) está "dependente da gestão da actual política de cortes de produção por parte da OPEP e de outros países não OPEP, especialmente a Rússia".

 

"A OPEP, liderada pela Arábia Saudita, tem interesse em que o preço do petróleo não suba demasiado para não atrair mais produção 'shale' (petróleo de xisto) dos EUA e, assim, correr o risco de uma queda dos preços", notou, adiantando que um intervalo de preços entre os 60 e os 70 dólares por barril "poderá cumprir estes objectivos".

 

Já o gestor da corretora XTB Eduardo Silva assinalou que o preço do Brent "mais do que duplicou em dois anos", tendo já suscitado especulações sobre uma possível subida até aos 100 dólares por unidade.

 

Apesar de admitir esta possibilidade, o analista considerou ser "pouco provável, porque quanto mais o preço sobe, maior a produção de 'shale oil'".

 

"O mercado está balançado e mesmo que o petróleo fosse aos 100 dólares seria uma anomalia insustentável e um movimento de curto prazo", argumentou, realçando que "a dependência de petróleo é menor do que no passado e menor a cada ano que passa, [levando] muitos países produtores a assumir um grande compromisso com os cortes".

 

"Com o petróleo e a 100 dólares seria difícil não limitar as vendas", sustentou.

 

Em 2017, a procura mundial de petróleo aumentou 1,64% (o equivalente a 1,57 milhões de barris diários) para um total de 96,99 milhões de barris por dia, segundo a OPEP.

 

Para este ano, a OPEP mantém a estimativa de crescimento estável, designadamente um aumento de 1,57% (1,53 milhões de barris por dia) para 98,51 milhões de barris por dia. 

 

A organização também prevê que se registe uma significativa subida da produção de petróleo dos países não filiados na organização, como Estados Unidos, Rússia e Canadá, que produzirão um total de 58,94 milhões de barris por dia, mais 1,14 milhões de barris por dia do que em 2017.

 

O preço de referência do barril da OPEP foi de 62,06 dólares em Dezembro, mais 29% do que no ano anterior e contra uma média anual em 2017 de 52,42 dólares.

 

Em Janeiro, o preço do barril de petróleo Brent, para entrega em Março, ultrapassou os 70 dólares no fecho das transacções pela primeira vez desde Dezembro de 2014.

 




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