BCP afunda mais de 7% para mínimo histórico abaixo de 9 cêntimos (act)
05 Junho 2012, 13:14 por Nuno Carregueiro | nc@negocios.pt
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Acções acentuaram as perdas uma vez que os analistas duvidam que o BCP consiga reembolsar o Estado nos cinco anos previstos. O BESI cortou o preço-alvo dos títulos para 10 cêntimos.
As acções do Banco Comercial Português estão a acentuar a tendência negativa, registando já uma queda de 7,29% para 0,089 euros, o que representa um novo mínimo histórico.

Os títulos negoceiam abaixo dos 9 cêntimos pela primeira vez, numa altura em que os analistas mostram dúvidas sobre a capacidade do banco em pagar ao Estado os 3 mil milhões de euros que vai receber em breve para reforçar os seus rácios de capitais.

Com a queda de hoje, o BCP está agora avaliado em bolsa em 641 milhões de euros. A tendência negativa já se verificou ontem, quando as acções caíram 4% depois de ser conhecido o plano de recapitalização do banco, que consiste na subscrição de obrigações de conversão contingente ("CoCos") por parte do Estado, no montante de 3 mil milhões de euros, mais um aumento de capital de 500 milhões de euros, que será garantido pelo Estado (a 0,04 euros por acção) na parte não subscrita pelos investidores privados.

Nas notas de "research" entretanto divulgadas, os analistas mostram-se surpreendidos com a dimensão da emissão de "CoCos" e preocupados com a capacidade do banco em reembolsar o Estado no prazo previsto de cinco anos.

"Aos actuais preços de mercado, preferimos o BES sobre o BCP", diz o BPI Equity Research, que considera "injustificada" a pior prestação das acções do BES face às do BCP este ano, uma tendência que o BPI acredita que irá "inverter-se ao longo das próximas semanas". O BPI estima que o BCP só conseguirá reembolsar o Estado em 2,1 mil milhões de euros nos próximos cinco anos, sem ver o seu rácio "core tier one" ficar abaixo dos 10%, ficando assim aquém dos 3 mil milhões de euros.

O elevado montante de "CoCos" vai "implicar uma diminuição dos resultados do banco nos próximos cinco anos, devido ao custo de financiamento destes instrumentos", alerta Pedro Lino, administrador da Dif Broker. Dado o elevado custo, alerta para o risco do banco não conseguir pagar. A taxa de juro a pagar ao Estado será de 8,5% no primeiro ano e acima nos anos seguintes. "Acho difícil o BCP conseguir pagar [a ajuda] até ao final do prazo. Teria que gerar, nos próximos anos, resultados líquidos de 350 a 400 milhões ao ano", diz um analista do sector.

Mais acções sob pressão

Além dos "CoCos", o BCP fará ainda um aumento de capital de 500 milhões de euros através da venda de novas acções aos investidores. Essa é a ideia, mas caso não consiga encontrar compradores, o banco terá o Estado pronto a adquiri-las, embora com um valor de apenas 4 cêntimos.

"O desconto também é bastante elevado se considerarmos que desde a operação de aumento de capital do BES, o BCP já caiu mais de 30%", diz Pedro Lino, sublinhando que o banco deverá tentar colocar os títulos entre 6 e 7 cêntimos.

"Ainda que estas operações recapitalizem o banco, dar-se-á uma diluição massiva já que o número de acções pode passar de cerca de 7 para 19 mil milhões", alerta o UBS, numa nota em que dá conta do mesmo efeito no BPI, que irá reforçar os seus rácios com 1,5 mil milhões de euros, sendo 200 milhões com a venda de novas acções.

"Ainda que esperemos que os accionistas de referência apoiem o aumento de capital, a acção deve continuar deprimida", diz o UBS. É neste sentido que, diz Duarte Caldas, da IG Markets, "ainda nos parece prematuro pensar em entrar na banca apesar destas operações parecerem estar parcialmente descontadas no preço".

"O principal factor que determina o desempenho das acções da banca é a crise da dívida soberana, a percepção de risco dos activos portugueses e a execução do programa da troika. Enquanto estas questões permanecerem em cima da mesa dificilmente a situação melhorará", explicou outro especialista, destacando que "será excessivamente optimista pensar que estes serão os últimos aumentos de capital" da banca nacional.

BESI corta "target" para 10 cêntimos

O Espírito Santo Investment Bank, unidade de "research" do BES, cortou hoje o preço-alvo do BCP de 18 cêntimos para 10 cêntimos, citando o elevado montante de ajuda do Estado, que coloca a questão "como o BCP vai ser capaz de reembolsar os 3 mil milhões de euros em 'CoCos' antes da maturidade?".

"Apesar de acreditarmos que o banco vai ser capaz de atingir esse objectivo, calculamos que o rácio 'core capital', de acordo com as regras Basileia 3, depois do reembolso, ficará em 9,3% em 2017, o que situa abaixo da média dos bancos europeus", salienta o BESI.

A recomendação para o BCP é de "neutral", num estudo onde o BESI também cortou o preço alvo do BPI, de 0,56 euros para 0,40 euros. As acções do BPI seguem em alta, subindo 3,47% para 0,417 euros. Já o BES avança 4,55% para 0,483 euros.

(notícia actualizada com mais informação)

Nota: A notícia não dispensa a consulta da nota de "research" emitida pela casa de investimento, que poderá ser pedida junto da mesma. O Negócios alerta para a possibilidade de existirem conflitos de interesse nalguns bancos de investimento em relação à cotada analisada, como participações no seu capital. Para tomar decisões de investimento deverá consultar a nota de "research" na íntegra e informar-se junto do seu intermediário financeiro.
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