Mercados Bolsas afundam. Onde procurar refúgio?

Bolsas afundam. Onde procurar refúgio?

A China está de novo a desestabilizar as bolsas mundiais. Saiba onde os investidores estão a encontrar um porto de abrigo.
Bolsas afundam. Onde procurar refúgio?
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André Veríssimo 07 de janeiro de 2016 às 15:23

A queda acentuada das acções chinesas, acelerada pela desvalorização do yuan e receios crescentes sobre a desaceleração da economia, está a provocar um tumulto nas bolsas mundiais. Mas nem tudo está a perder valor. O dinheiro que está a sair das acções e de algumas matérias-primas está a entrar no dólar e no iene, nas obrigações dos países mais seguros e no ouro.

 

Ouro com mais fulgor

A procura por ouro tende a aumentar quando as expectativas de inflação são elevadas. Estando esta ausente em grande parte do mundo desenvolvido, a cotação do metal precioso tem vindo a recuar desde 2011. Tendência exacerbada pela perspectiva, entretanto materializada, de subida das taxas de juro nos EUA, com o objectivo justamente de conter eventuais pressões inflacionistas.

Mas o ouro ganhou vida nova nos últimos dias. É que o metal é também um dos activos financeiros preferidos quando as águas nos mercados accionistas se tornam demasiado agitadas, como tem vindo a acontecer desde o início do ano. O ouro valoriza 3,9% desde o início do ano, registando a maior série de ganhos desde Outubro. É também a matéria-prima que mais sobe em 2016. Esta quinta-feira soma 0,9% para 1.103 dólares por onça.


Há bancos de investimentos convencidos de que a corrida ao ouro não ficará por aqui. É o caso do UBS, que esta semana divulgou um relatório com o enfático título: "É simples: Vender acções, comprar ouro". Os analistas, que anteciparam o regresso da volatilidade na segunda metade de 2015, escrevem agora que as acções americanas vão atingir um pico no segundo trimestre, caindo daí em diante, numa desvalorização que pode chegar aos 30%. Já o ouro poderá entrar num novo ciclo de valorização, instigado pela procura por refúgio e um eventual regresso da Reserva Federal a uma política monetária mais expansionista, provavelmente em 2017.


O aumento do risco geopolítico no Médio Oriente também poderá impulsionar o metal precioso. O conhecido investidor Marc Faber, que na quarta-feira afirmou que existe uma "bolha colossal no crédito na China", também está optimista para o ouro e para as empresas que produzem esta matéria-prima.

Ouro em alta desde o início do ano

 

A segurança da dívida pública  

As obrigações de dívida pública são outro "local" de refúgio habitual. E os últimos dias têm confirmado esse estatuto. Mas não todas. O dinheiro vai habitualmente para os títulos dos países com menos risco, isto é, com um "rating" mais elevado nas agências de notação financeira.

 

É o caso da dívida pública do Japão, a que mais valoriza desde o início do ano: 3,3%. Seguem-se as obrigações de longo prazo americanas, que avançam 2,3% e as alemãs, que somam perto de 2%. Os títulos dos EUA sobem pela sexta sessão consecutiva, naquela que é a maior série de ganhos em 12 meses.

Esta tendência poderá manter-se enquanto subsistir a forte volatilidade nas bolsas. "Com as notícias da China e do Médio Oriente a continuarem a suscitar preocupação, uma continuação do ciclo de valorização [das obrigações] parece o cenário mais provável", afirmam os analistas do Société Générale numa nota divulgada esta quinta-feira, a que o Negócios teve acesso. O banco francês levanta também dúvidas sobre a capacidade da Reserva Federal para manter o rumo planeado para a subida das taxas de juro, perante um agravamento do cenário macroeconómico global.

Uma opinião partilhada por Nick Stamenkovic, estratego de taxas de juro da RIA Capital Markets. "Se a turbulência global persistir, a pressão para a Fed travar a subida dos juros irá aumentar", afirmou em declarações à Bloomberg. "A aversão ao risco está claramente a suportar o estatuto das obrigações soberanas, com a procura de activos refúgio a aumentar perante os crescentes receios em relação à economia chinesa, aos efeitos da queda na cotação do petróleo e um cenário global incerto".


Obrigações de dívida japonesa a 10 anos em rota ascendente

 

Dólar e Iene em alta

As moedas das maiores economias desenvolvidas estão também a funcionar como refúgio para os investidores. Em particular o iene. A moeda japonesa alcançou na quinta-feira o valor mais elevado desde Abril de 2015 contra o euro e um máximo de quatro anos e meio em relação ao dólar. Valoriza 2,2% contra a moeda americana desde o início do ano.

"O risco da China acrescenta suporte ao yen, que já vinha a subir devido a um crescimento da balança corrente acima do esperado", afirmou Junichi Ishikawa, analista da IG Securities, em declarações ao The Guardian. "A valorização do iene não surpreende e esse movimento poderá continuar se os mercados accionistas se mantiverem em queda", disse Jeremy Stretch, responsável pela estratégia cambial no CIBC World Markets, citado pela Reuters.

Além do iene, também o dólar está a valorizar com a turbulência nas bolsas. O Bloomberg Dollar Index, que mede o desempenho contra um cabaz de outras divisas de referência, soma 0,6% desde o início do ano. 


Iene ganha terreno ao dólar 




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