Bolsa Como era a Bolsa de Lisboa há 20 anos?

Como era a Bolsa de Lisboa há 20 anos?

Privatizações. Capitalismo popular. Euforia. De tudo isto era feita a negociação na bolsa nacional em 1997, ano que ficou marcado pela estreia da EDP e pela maior subida de sempre do PSI-20.
Como era a Bolsa de Lisboa há 20 anos?
Raquel Godinho 23 de novembro de 2017 às 07:00
1997 foi o melhor ano de sempre para a bolsa nacional. O PSI-20, índice criado quatro anos antes, acumulou a maior valorização de sempre. E o mercado accionista português acolheu acções de algumas das suas principais protagonistas nos anos seguintes. É que foi há 20 anos que a EDP se estreou em bolsa e que a Portugal Telecom (PT) realizou a terceira fase de privatização.

"Vivia-se uma grande euforia na bolsa. Havia um frenesim muito grande. Havia um movimento de compra e venda impressionante", conta Dimas Gomes. O pequeno investidor que investe na bolsa nacional desde os anos 70 lembra ainda que "era tudo muito fácil, era só carregar no botão, mas hoje há mais informação". 

Em 1997, estavam cotadas nos diferentes mercados  (mercado sem cotações, mercado de cotações oficiais e segundo mercado) 155 empresas na bolsa nacional, de acordo com a informação disponibilizada pela Euronext Lisbon. Actualmente, são apenas 45 as cotadas.

Há 20 anos, a praça portuguesa era "maior – o PSI-20 andava pelos 10.000 pontos – e mais animada do que hoje. As privatizações tinham gerado um conjunto importante de títulos cotados, com disputa pelo respectivo controle à medida que as posições da República iam diminuindo", recorda Rui Alpalhão, professor da ISCTE Business School.

1997 foi, de facto, um ano intenso para a bolsa nacional. Foi o ano em que o capitalismo popular atingiu o seu auge com a primeira fase de privatização da EDP. Esta operação ocorreu em Junho. Foram vendidas quase 180 milhões de acções da eléctrica, representativas de 29,99% do capital. Os títulos foram vendidos a 2,16 euros (preços ajustados ao aumento de capital e "stock split").

Mas a eléctrica não esteve sozinha. 1997 foi o ano de estreia em bolsa de outras cotadas: Brisa, Sonae Imobiliária, Ibersol, Inparsa e Semapa. E a PT realizou, em Outubro, a sua terceira fase de privatização. Foram vendidas acções representativas de cerca de 26% do capital da operadora.

E este também foi o ano em que  Portugal entrou nos índices da Morgan Stanley. "A consolidação da era moderna da bolsa portuguesa tem um marco principal, precisamente ocorrido há vinte anos: a atribuição ao mercado português do estatuto de Mercado Desenvolvido, em 1997", recorda Abel Sequeira Ferreira. Como explica o director executivo da AEM (Associação de Empresas Emitentes de Valores Cotados em Mercado), em 1985, o então Ministro das Finanças, Miguel Cadilhe implementou um programa de incentivos fiscais para seduzir as empresas a dispersar o seu capital em bolsa, ao mesmo tempo que se vivia a febre das privatizações.

Com isso, "o mercado português foi relançado e contribuiu de facto para o financiamento das empresas, permitindo que um importante número de grupos portugueses assentasse o seu crescimento no mercado de capitais, igualmente com proveito para uma base alargada de investidores particulares e institucionais", defende Abel Sequeira Ferreira.

Contudo, e em claro contraste com esta euforia dos finais dos anos 90, nos últimos anos, a bolsa portuguesa tem sido marcada por um conjunto de episódios negativos que teve um impacto muito forte. "Nas últimas décadas, e em particular no passado mais recente, o mercado português registou quebras significativas, designadamente, nos volumes de transacções, na liquidez do mercado secundário, e na capitalização bolsista doméstica global", sublinha Abel Sequeira Ferreira.

A bolsa portuguesa negoceia actualmente, em média, "menos de um décimo dos volumes médios mensais que negociava em 2007 (a média mensal do volume de transacções era de 22.370,60 milhões de euros, em 2007, e foi de 1.881,60 milhões de euro, em 2015)", acrescenta o director-executivo da AEM. Ao mesmo tempo, o índice de referência, o PSI-20 é hoje composto por 18 empresas, situação que se arrasta há alguns anos. Este índice "tem permanecido numa situação de grande instabilidade por impossibilidade de se proceder à sua recomposição face à inexistência de empresas que cumpram os critérios de dimensão, dispersão de capital e liquidez estabelecidos para o efeito", acrescenta.

"O catalizador das privatizações esgotou-se, e com esse esgotamento quase deixou de haver ofertas públicas iniciais", considera Rui Alpalhão. A última estreia foi a dos CTT em Dezembro de 2013. "A bolsa ficou menor, e menos animada", acredita o professor. "Hoje não há OPV’s, nem OPA’s. O mercado não está frenético nem atractivo e está resumido aos profissionais, porque temos uma bolsa muito pequena e com poucas empresas que têm pouca liquidez. Além disso, a complexidade dos produtos não se adequa aos poucos conhecimentos dos pequenos investidores", conclui Dimas Gomes.