Obrigações Draghi de Sintra será o mesmo em Frankfurt?

Draghi de Sintra será o mesmo em Frankfurt?

O mercado não antecipa alterações nas principais medidas do BCE. Mas no foco estará o tom de Mario Draghi. O foco do mercado é se o presidente do BCE mantém o tom mais restritivo adoptado em Sintra ou se tentará refrear a ansiedade do mercado.
Draghi de Sintra será o mesmo em Frankfurt?
Bruno Simão
Rui Barroso 20 de julho de 2017 às 07:00

Será que Draghi quis mesmo passar uma mensagem de maior restritividade no discurso em Sintra ou, uma vez mais, as palavras do presidente do BCE tiveram um efeito diferente do pretendido? A resposta deverá ser dada na conferência de imprensa desta quinta-feira, em Frankfurt, em que Mario Draghi explicará as decisões da reunião de política monetária.

As palavras de Draghi em Sintra, quando mencionou que "as forças deflacionistas foram substituídas por forças reflacionistas" e que os factores a pressionar a inflação são "principalmente temporários", levaram alguns analistas a defender que marcaria o princípio do fim do programa de compras. A reacção do mercado demonstrou essa percepção com a subida dos juros da dívida e da moeda única.

Os economistas prevêem que Draghi tente agora controlar a ansiedade demonstrada pelo mercado em relação às perspectivas de uma política monetária mais restritiva. "O ênfase será  na tentativa de retrair algumas das reacções ao discurso de Draghi em Sintra", refere o RBC Capital Markets, numa nota a que o Negócios teve acesso.

Já o Morgan Stanley tem uma perspectiva um pouco diferente. Num relatório, o banco refere que Draghi não "irá contrariar a interpretação do mercado de que mudou para uma abordagem ligeiramente mais restritiva". Mas, em simultâneo, não quererá reforçar muito essa mensagem. Isto para evitar "provocar pressões adicionais nas taxas de juro ou levar o euro a subir mais, já que isso apertaria as condições financeiras num curto prazo de tempo".

Já o Commerzbank fala num "número de equilibrismo" a que o banco central está obrigado. "A conferência de imprensa desta quinta-feira servirá para mostrar o número de equilibrismo que o banco central enfrenta", refere o banco alemão numa nota. Por um lado, o BCE tem de começar a preparar o mercado para o princípio do fim dos estímulos. Mas, por outro,  o programa não levou a inflação a cumprir os critérios definidos pelo BCE. E os mercados já mostraram ser bastante sensíveis à possibilidade de retirada de estímulos.

Decisões só em Setembro

Draghi tentará gerir as expectativas do mercado apenas com a retórica nesta reunião. E deverá adiar para Setembro o anúncio de como irá ser a estratégia de saída dos estímulos, já que segundo a indicação actual o prazo do programa termina em Dezembro.

Após os sinais de maior restritividade das últimas semanas, o Morgan Stanley tem como cenário base que "o BCE irá provavelmente fazer o anúncio da redução gradual do programa da compra de activos em Setembro para iniciar esse processo em Janeiro e para durar seis meses". Só após o fim das compras é que o banco central deverá começar a normalizar as taxas de juro, começando por subidas das taxas de depósito no final de 2018.

Também o RBC Capital Markets aponta a reunião de 7 de Setembro. "Nessa fase, estarão disponíveis dados de inflação de mais dois meses além da estimativa oficial do PIB da Zona Euro no segundo trimestre. A somar a isso ficarão disponibilizadas as novas projecções macro-económicas do ‘staff’", refere o RBC Capital Markets.

Draghi deverá participar no simpósio de Jackson Hole, que reunirá nos EUA responsáveis de bancos centrais mundiais, no final de Agosto. E segundo informações do Wall Street Journal, Draghi deverá aproveitar essa ocasião para preparar o mercado para a estratégia de saída que deverá ser comunicada na reunião de Setembro.

A conferência de imprensa servirá para mostrar o número de equilibrismo que o BCE enfrenta". Jörg Krämer
Economista-chefe do Commerzbank



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mais votado Anónimo 20.07.2017

Hoje em dia a UE já faz transferências e concede ajudas e financiamentos aos Estados-Membros menos ricos e desenvolvidos. No futuro, com uma UE federal com um orçamento maior e mais competências políticas a nível federal, mais direitos (como mais transferências para os Estados e economias que têm menos, e mais e melhor cidadania europeia) implicarão ainda mais deveres (como reformas adequadas feitas na íntegra e de forma atempada) para cada Estado-Membro. Esses deveres, tantas vezes referidos por instituições como a Comissão Europeia, o FMI e a OCDE de forma quase informal e geralmente inconsequente, hoje em dia não são cumpridos. Com uma UE federal existirão meios e ferramentas para que as reformas, os deveres, avancem no seu tempo e Estados-Membros como Portugal e a Grécia não se desleixem e atrasem tanto por força dos seus políticos eleitoralistas mais irresponsáveis, dos seus sindicalistas chantagistas mais fundamentalistas e dos seus banqueiros criminosos mais extorsionários.

comentários mais recentes
Anónimo 20.07.2017

Sou obrigado a pagar através de comissões, contribuições e impostos o nível de vida passado, actual e futuro de 2200 assalariados da CGD que não são lá precisos para nada. O sindicato deles, o Sindicato Bancário do Sul e Ilhas (SBSI), já analisou os termos oferecidos pela Caixa Geral de Depósitos (CGD) no programa de “Revogações por Mútuo Acordo”, divulgado na última semana de Junho aos trabalhadores do grupo público. E a sentença é negativa: “As condições propostas aos trabalhadores ficam aquém das expectativas.” E agora pergunto eu, quem regula e supervisiona estas criaturas? As do escândalo CGD e de outros escândalos semelhantes. Há muitos casos destes nas organizações portuguesas.

surpreso 20.07.2017

Draghi só pensa nos problemas dos seus amigos italianos.Politicos irresponsáveis, pequenos bancos falidos e economia anémica

Anónimo 20.07.2017

Quando é preciso que instituições internacionais obriguem as organizações do nosso país a fazer uma correcta gestão de recursos humanos que leve a reestruturações com adequado e natural recurso aos despedimentos que estavam por fazer há uma série de anos, percebemos as causas da crise portuguesa. Vejam-se os casos da administração pública e da CGD por exemplo.

Anónimo 20.07.2017

O Jornal de Negócios devia elaborar sobre as transformações que economias mais desenvolvidas estão a viver há muito, criando assim as condições para se distanciarem ainda mais de economias capturadas pelos oligopólios, o sindicalismo e o neoludismo como a portuguesa e grega. Economias suicidas com mentalidades anti-mercado e anti-capital primárias, básicas mesmo, para não dizer lerdas.

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