Obrigações Fitch: Portugal sair de "lixo"? Dívida e banca decidem

Fitch: Portugal sair de "lixo"? Dívida e banca decidem

Portugal sair de "lixo" depende fundamentalmente de a dívida pública entrar numa trajectória descendente e de não haver mais más surpresas no sistema financeiro. A Fitch considera que as perspectivas de evolução nestes dois domínios são positivas, mas continua a usar uma linguagem prudente que parece afastar a possibilidade de mexidas ainda neste ano.
Fitch: Portugal sair de "lixo"? Dívida e banca decidem
Miguel Baltazar
Eva Gaspar 04 de julho de 2017 às 15:47
Portugal poderá aspirar deixar de ser rotulado de "lixo" nos mercados financeiros caso a dívida pública entre numa rota consistente de redução e não se repitam, na banca, situações que exijam a injecção de mais dinheiro dos contribuintes, indica a Fitch.

Numa nota dirigida aos investidores, divulgada nesta terça-feira, 4 de Julho, a agência de notação financeira considera que as perspectivas de evolução nestes dois domínios são, neste momento, positivas. "A Fitch espera que a contenção do défice orçamental e a recuperação do crescimento nominal do PIB suportem uma tendência sustentada do rácio da dívida de 125% do PIB no final de 2018 para 111% até ao final de 2026", lê-se no relatório, onde ainda se refere que a solvência da banca ficou fortalecida após o aumento de capital em 2017 dos dois maiores bancos, CGD e BCP.

A Fitch espera que a economia cresça neste ano 2%, acima da previsão de 1,8% do governo, e antecipa uma subida do défice orçamental de 2% para 2,8% do PIB devido à recapitalização da Caixa, sem a qual o indicador desceria para 1,7%, um pouco acima da previsão de 1,5% do Executivo. 


Contudo, a agência norte-americana, que em 16 de Junho reviu o "outlook" de "estável" para "positivo", continua a usar uma linguagem prudente, do "ver para crer", que parece afastar a possibilidade de mexidas no rating ainda neste ano.

Como tem feito em relatórios anteriores, a Fitch sublinha que dívida pública é muito elevada (130,4% do PIB em 2016) e superior à média na Zona Euro (90%), referindo ainda que, embora sendo "baixo", tem de assumir como "não negligenciável" o risco de o país impor controlos de capitais, numa referência à possibilidade de uma renovada crise que ponha em dúvida a permanência de Portugal no euro. 

Na banca, a "principal fonte de risco" continua a ser elevado montante de crédito malparado (NPL, na sigla em inglês), que se elevava, no final de 2016, a 11,8% do total dos empréstimos concedidos. "Atrair mais capital privado para o mercado de NPL ajudaria a acelerar o processo de limpeza do balanço dos bancos. No entanto, tal poderá exigir um maior fortalecimento do quadro de insolvência, um processo que provavelmente levará tempo", nota a agência.

Após a decisão europeia de retirar Portugal do "procedimento dos défices excessivos", várias agências divulgaram análises mais positivas sobre o país, tendo a Fitch subido, ainda em Junho, o "outlook" associado ao rating. Em comunicado emitido pelo Ministério das Finanças, Mário Centeno reagiu de imediato, dizendo que "esta alteração abre caminho a uma actualização do rating da República para o grau de investimento de qualidade". "Tendo por base os desenvolvimentos orçamentais e a dinâmica de crescimento económico recentes, essa actualização deverá ocorrer mais rápido do que o anteriormente esperado pela maioria dos agentes de mercado", referia o comunicado enviado às redacções.

Também Marcelo Rebelo de Sousa manifestou confiança de que Portugal possa livrar-se do rótulo "lixo" e ainda neste ano.

O rating actualmente atribuído pela Fitch a Portugal é de BB+ (a um nível de sair de "lixo"), acompanhado de perspectiva (ou "outlook") positiva. A agência voltará a pronunciar-se sobre a classificação do país em 15 de Dezembro.  A Moody’s, que reavaliará a notação em 1 de Setembro, classifica a dívida soberana portuguesa em Ba1 (também a um nível de sair de "lixo"), mas com com perspectiva estável. Notação idêntica é dada pela Standard & Poor’s (BB+, estável) que reavalirá o rating do país em 15 de Setembro. Já a DBRS, a única das grandes agências que atribui a Portugal o "grau de investimento", divulgará o seu parecer em 20 de Outubro. 

(notícia actualizada às 16h40)



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mais votado Anónimo Há 3 semanas

Em países que se deixaram capturar por uma cultura desonesta, onde o mais desonesto vence, e provinciana, pouco atenta à realidade global e à modernidade tal como ela lhes chega do mundo mais desenvolvido, com leis atrasadas, estupidamente redigidas e permissivas a todos os abusos e abusadores, o sindicalismo e o capitalismo de compadrio são capazes de pôr o ofertante de factor trabalho, bens ou serviços com zero procura de mercado na economia, chamemos-lhe o vendedor de areia no deserto, a viver tão ou mais confortavelmente do que o ofertante de factor trabalho, bens ou serviços com muita procura de mercado nessa mesma economia, chamemos-lhe o vendedor de água no deserto. E é claro, uma economia assim cheia de distorções, frontalmente anti-mercado, atrasa-se e empobrece.

comentários mais recentes
pertinaz Há 3 semanas

ÓBVIO... NÃO BASTA MARTELAR AS CONTAS DO DÉFICE...!!!

O ALGODÃO NÃO ENGANA... REDUZIR A DÍVIDA É A PROVA DOS NOVE...

Anónimo Há 3 semanas

É preciso alertar a sociedade e educar os políticos portugueses mais distraídos para os perigos e falácias subjacentes ao pensamento único eleitoralista que não se apercebe que distribuir salários e benefícios a privados que não passem pelo crivo regulador e orientador das forças de mercado é tão mau para a sustentabilidade do Estado, incluindo o Estado de Bem-Estar Social, a competitividade da economia e o nível de equidade na sociedade, como distribuir subsídios e adjudicações a privados obedecendo à mesma lógica discricionária, e vice-versa. Sindicalismo selvagem de compadrio e capitalismo selvagem de compadrio são uma e a mesma coisa e encerram em si as sementes do mesmo mal.

Anónimo Há 3 semanas

A competitividade é desenvolver a economia através da criação de condições para que o mercado laboral seja o mais flexível possível e o mercado de capitais seja o mais forte e dinâmico que se conseguir, promovendo assim todas as condições para gerar, atrair e fixar o melhor e mais adequado talento e capital disponíveis nos mercados internos e externos de factores a cada momento. O lixo é tudo aquilo que se opõe a esta lógica e não reconhece a sua importância para que se possam atingir níveis de prosperidade, equidade e sustentabilidade elevados na economia.

IS Há 3 semanas

Bom artigo de Eva Gaspar.

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