Mercados Produtos complexos de Ronaldo têm adeptos em Portugal

Produtos complexos de Ronaldo têm adeptos em Portugal

Há uns anos, o jogador dava a cara por produtos de poupança. Agora associou-se a uma corretora que trabalha com produtos complexos. Uma parceria para vender instrumentos financeiros que são populares para os investidores nacionais.
Produtos complexos de Ronaldo têm adeptos em Portugal
Raquel Godinho 21 de setembro de 2017 às 22:00

Cristiano Ronaldo é o melhor jogador do mundo. Já foi o rosto de produtos de poupança em Portugal, os tradicionais depósitos a prazo, mas agora dá a cara por produtos complexos. Fez uma parceria com a Exness e está a "recomendar" o investimento em produtos complexos, os "contracts for difference" (CFD). Um produto que é popular em Portugal. Nos primeiros sete meses deste ano, o montante movimento superou aquele que foi aplicado em acções.

"Os CFD foram o instrumento financeiro mais negociado no mercado de derivados (73,2% do total)", revela o último relatório da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM). Este documento revela que, em Julho, a aposta em CFD atingiu os 3.622,6 milhões de euros. Um montante que eleva para 29.407,4 milhões de euros o investimento nestes produtos complexos altamente alavancados, revelam os dados do regulador. Este montante supera mesmo os 12.561,4 milhões de euros transaccionados em acções e até os 26.192,4 milhões de euros movimentados em dívida pública.

Os mais de 29 mil milhões de euros movimentados em CFD, nos primeiros sete meses do ano, foram distribuídos por 21,3 mil milhões de contratos. Ou seja 99,2% de todos os instrumentos financeiros derivados transaccionados em Portugal, neste período.

Considerando os dados recolhidos pela CMVM, o montante aplicado em CFD, em Julho, teve como subjacente contratos derivados, taxas de câmbio, índices, acções e matérias-primas. Mais de um terço do dinheiro (37,5%) está investido em contratos derivados que continuam a ser o activo subjacente preferido.

Apesar destes valores expressivos que consideram a alavancagem dos produtos, o montante aplicado em CFD registou uma queda de 11,6% face aos primeiros sete meses do ano passado. Pelo contrário, as tradicionais acções viram o seu investimento aumentar 3%. Já o dinheiro movimentado em dívida pública registou um crescimento mais significativo. Aumentou 46% face aos primeiros seis meses do ano passado.

Depois dos depósitos, os CFD

Cristiano Ronaldo foi, em tempos, a personalidade escolhida pelo Banco Espírito Santo (BES) para a "angariação" de dinheiro para os tradicionais depósitos a prazo. Em Agosto, assinou uma nova parceria com uma entidade financeira, a Exness, uma corretora cambial com um volume de negociação mensal de 314 mil milhões de dólares, segundo a Deloitte, citada pela imprensa internacional.

O valor do acordo entre a corretora e o jogador do Real Madrid não foi, contudo, tornado público. Mas tem sido noticiado pelos órgãos de comunicação social internacionais  que deverá rondar um valor próximo dos três milhões de euros por temporada. A Exness celebrou um acordo semelhante com o clube merengue.

A Exness é uma corretora cambial que trabalha com CFD. Estes instrumentos derivados proporcionam ao investidor uma forma alternativa de estar exposto ao mercado, tendo como principal característica o facto de a aplicação ser alavancada. Isso significa que o investidor ficará exposto numa proporção superior àquela que investiu. E pode apostar na queda ou na subida do activo subjacente. O investidor pode, assim, ganhar muito dinheiro, mas pode também perder muito mais do que aquilo que investiu.

Estes produtos têm sido acompanhados de perto pelos reguladores. Num relatório de Março deste ano, a Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA, na sigla inglesa) revelava que "a complexidade dos CFD e outros produtos especulativos significa que pode ser difícil para a maioria dos investidores de retalho entender os riscos envolvidos, embora eles sejam amplamente publicitado para o mercado de retalho".

Segundo a Bloomberg, Espanha tem implementado medidas de protecção dos investidores, porque o regulador do mercado considera que este tipo de investimento "não é apropriado" para investidores de retalho. Foram até impostas restrições à publicidade no futebol a este tipo de produtos.




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mais votado É triste,e... é triste... Há 3 semanas

É triste que um autêntico orgulho nacional, num País desesperadamente carente de arquétipos para servirem de exemplo à juventude - se preste, a troco de um prato de lentilhas monetárias, a recomendar produtos que até utilizados por profissionais altamente especializados, se evidenciam como vias sempre à beira do abismo da ruína. Mas, já que de tristezas se fala, também é triste que, num País que carece desesperadamente de estimular a poupança, em ordem a garantir o seu futuro - haja entidades ainda prestigiadas (e que se afirmam e querem ser Referências…), que, ao invés de um esforço prioritário de recuperação e melhoria da qualidade dos seus produtos ( em ordem a incrementarem o seu interesse intrínseco para os clientes), estejam a apoiar-se, a abusar e a hipotecar o patrimônio herdado da qualidade das suas redes de vendas, para a consecução de níveis de quota de mercado que hoje a qualidade relativa desses mesmos produtos infelizmente (pelo menos por ora) não justificam .

comentários mais recentes
tuga merdhoso Há 3 semanas

Toda a media é controlada pelo Estado ou por alguma alta autoridade. Toda a informação transmitida é um mix de propaganda com sensacionalismo para tourear o povo. Só usa alavancagem quem quer não é obrigatório. O problema da elite é o investidor não estar a perder dinheiro em acções ou obrigações.

nin Há 3 semanas

A maior parte dos "populares" CFDs não sabe o que são. Como é que sei disso? Porque se soubessem nem se metiam nisso, ainda por cima com alavancagens suicidas. Será que percebem que quando o ganho potencial é 1000 a perda potencial é 1000000? Os portugueses adoram Donas Brancas e não passam disso.

ANTONIO Há 3 semanas

E tem este tipo a lata de dizer na acariação da Autoridade Tributária Espanhola, que só tinha o 4º ou 6º ano (se não me falha a memória), mas faz publicidade a este tipo complexo de investimento, que está sugeito a regras especiais das entidades reguladoras. Oh CR7 tem vergonha na cara.

RE: É triste,e... é triste... Há 3 semanas

Camarada: referes-te à Caixa Geral de Depósitos e às ordens que deu aos seus trabalhadores para venderem mais fundos de investimento?
Se é o caso, faço meu o teu comentário.Antes de passar a bola do aumento de receitas a todo o vapor para a rede comercial, a administração da Caixa deveria esforçar-se por melhorar a qualidade dos produtos que oferece, não vendendo com pressão produtos aos clientes, mas fazendo com que estes gerem mais receitas sendo mais atraídos por uma melhor qualidade dos produtos.Seguindo um caminho de campanhas com espírito de cruzadas, põe-se em risco um patrimônio de confiança que os clientes têm na valiosa rede de vendas, patrimônio que, tendo levado muitos anos a construir, pode levar muito pouco tempo a destruir. A nova administração da Caixa, vinda do BCP, possivelmente ficará poucos anos na Caixa, mas os trabalhadores da Caixa em contacto com os clientes, esses terão desejavelmente à frente muitos e muitos anos em contacto com os clientes que neles confiam.

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