Bolsa Vem aí um meltdown nos mercados? Há quem espere por um melt-up

Vem aí um meltdown nos mercados? Há quem espere por um melt-up

Os investidores continuam a empurrar os índices para máximos sucessivos, ignorando as más notícias e valorizando as boas. Se há quem tema um meltdown nos mercados, também há quem fale num melt-up.
Vem aí um meltdown nos mercados? Há quem espere por um melt-up
Reuters
Tiago Freire 18 de outubro de 2017 às 09:30
Tudo o que sobe tem de descer? O conceito, atribuído a Isaac Newton, parece estar a ser contestado em Wall Street, cujos índices não dão mostras de abrandar o seu ritmo de máximos sucessivos. As questões que têm vindo a entreter os observadores dos mercados são, basicamente, duas: há motivos económicos e financeiros para estas subidas? E o que vai acontecer quando as avaliações subirem tanto que acabem por perder o seu significado?

Nos EUA, o debate está aceso. Por cada analista que adverte para o perigo iminente de uma correcção severa, há pelo menos dois que tentam encontrar argumentos para que os ganhos prossigam. Se é certo que as avaliações estão elevadas e a descontar uma continuação do momento económico, também é verdade que há razões concretas para o bom momento. O problema é outro e tem a ver com a psicologia dos investidores: muitos só analisam os números olhando para o lado rosado das coisas, ignorando todos os riscos que existem.

A Bloomberg dá eco da análise de Mark Connors, Global Head of Risk Advisory do Credit Suisse, que se tem pronunciado sobre o fenómeno, dando como exemplo o silêncio. O silêncio dos clientes, que noutras alturas estariam a telefonar com dúvidas, receios, e vendendo parte do seu portfolio. Agora, nem os episódios de instabilidade política nos tweets de Trump nem ataques terroristas levantam qualquer receio relevante. Em Agosto, por exemplo, "dois mísseis sobrevoaram o território do Japão e nada aconteceu. Não tivemos absolutamente nenhuma chamada. Isto é uma loucura", afirma Connors.

E o especialista vai um pouco mais atrás para identificar quando a psicologia do mercado mudou: o Brexit. Quando a decisão dos britânicos foi conhecida, as acções mundiais perderam qualquer coisa como 2,6 biliões de dólares em apenas três dias. O resultado do referendo era visto como um evento que traria grande instabilidade e incerteza e, pior, vinha num momento em que muitos investidores já estavam com significativas mais-valias potenciais, e como tal, eventualmente mais disponíveis paara vender, encaixar ganhos e escapar à confusão. Isso inicialmente aconteceu, mas rapidamente o mercado corrigiu, e retomou a trajectória de ganhos. No momento da queda, a maior parte não viu o perigo, mas sim a oportunidade.

Outros indicadores que apontam para alguma complacência dos investidores são os volumes, que se têm mantido a um nível estável, e à volatilidade, que anda perto dos mínimos históricos.

A expressão "buy the dip", ou seja, aproveitar uma correcção em baixa para entrar novamente nos activos, revelou aí a sua força. Benjamin Dunn, presidente da Alpha Theory, explica: "Comprar na correcção, é o que fomos condicionados para fazer. Hoje em dia, é quase como se tivéssemos mesmo de o fazer. Seria irresponsável não o fazer". O que isto significa é que há sempre dinheiro disponível para entrar nas oportunidades criadas pelas quedas momentâneas do mercado, na prática limitando a dimensão destas quedas. 

Por outro lado, não é apenas uma questão de psicologia. Com cada vez mais fundos e outros instrumentos geridos de forma algorítimica, há uma menor sensibilidade dos mercados aos eventos políticos, às declarações de Trump ou de outros responsáveis. O que conta sobretudo são os números da economia - que têm estado bem, nos EUA e a nível mundial - e os padrões e a análise técnica nos activos, que não deram ainda um sinal relevante de quebra do momento.

E depois há a questão de quanto tempo mais pode este movimento durar e qual a amplitude dos ganhos que se podem ainda esperar. É aqui que entram os receios de um meltdown, um crash ou coisa parecida, ou a possibilidade de um melt-up.

Esta última expressão, que tem vindo a ser bastante focada nos últimos meses nos EUA, descreve uma subida forte e rápida no seguimento de um bull-market longo, quando há uma enxurrada de investidores a quererem entrar e aproveitar ainda este movimento, sem atenção aos fundamentais. O problema é que depois de um melt-up, há sérias possibilidades de surgir um meltdown. Ou seja, depende tudo, como sempre, do momento de entrada e de saída. Quem quiser ganhar com um esticão do melt-up tem de estar preparado para um risco acrescido. A questão é que, hoje em dia, o risco já não parece assustar como dantes.

Jeff deGraaf, presidente da Renaissance Macro Research, acha que o melt-up está mesmo ao virar da esquina, segundo explicou à MarketWatch. "Defendemos que, apesar das intenções da Fed, estamos à beira de uma fase de melt-up, alimentada por excesso de crédito e pela timidez da Reserva Federal", que não estará a ser absolutamente decidida no arrefecimento do mercado. Mas também é verdade que a equipa do Bank Of America já em Janeiro falava deste fenómeno, esperando uma subida acelerada de 10% seguida por uma forte queda. Desde essa altura, o S&P 500 ganhou perto de 15% e continua a bater máximos.

Ed Yardeni, antigo economista-chefe do Deutsche Bank e que tem actualmente uma consultora para investimento, lembra uma recente viagem a Houston, na sequência do furacão Harvey, em que "toda a gente me veio perguntar sobre a possibilidade de um melt-up", cenário no qual ele, já este mês, disse acreditar.

A questão do melt-up e de um momento certo de saída nesse caso é o mais complicado. Um estudo do Bank of America, de 2016, mostrou que um investidor ficar fora do mercado no final de um longo bull-market pode significar muitas vezes abdicar de um quarto dos ganhos totais. É uma tentação difícil de resistir.
  
Enquanto se fala deste perigo, a volatilidade continua sem mexer, sinal de que este debate está a ser mais académico do que consequente em termos de efeito sobre a psicologia dos investidores. E há analistas que, nas últimas semanas, até reforçam a ideia de que o mercado está certo e que não há um sobreaquecimento irracional. 

Fran Kinniry, da firma de investimento Vaguard - que se especializou na gestão e comercialização de fundos diversificados relativamente passivos - é um deles, aplaudindo a tranquilidade dos investidores face ao ruído à volta das polémicas retóricas de Trump. "Ver a pessoas a não negociar de forma descontrolada por causa de notícias políticas é uma coisa optimista", afirmou. "Os investidores estão a agir de uma forma muito positiva, como um profissional deveria estar a investir. Ter uma boa alocação de activos, rebalancear a sua carteira e tentar diferenciar o barulho da realidade", acrescentou. 

Outros especialistas salientam que vários investidores estão a adoptar uma estratégia saudável neste ambiente: não saem do mercado, mas vão mudando de sector. Quando um começa a fraquejar, o dinheiro vai para outro que não acompanhou o movimento na totalidade. Ou seja, o dinheiro não tem saído, está é a ser redistribuído, segundo esta tese.

E até o maior investidor do mundo, Warren Buffett, se mantém positivo e discorda da visão do mais recente Nobel da Economia, que diz não ver motivos para tantas subidas. "As avaliações fazem sentido com as taxas de juro onde estão. No final, mede-se o dinheiro que se investe num activo face ao que se conseguiria, e o comparativo é a dívida americana. E quando se consegue 2,3% a dez anos, acho que as acções vão comportar-se consideravalmente melhor do que isso", afirmou à NBC o "Oráculo de Omaha". A sua opinião pode mudar quando as taxas forem diferentes: "Por outro lado, se as taxas de juro estiverem nos 5 ou nos 6%, aí teríamos um padrão de avaliação completamente diferente para as acções", concluiu.

Para já, nem o Brexit, nem a tensão nuclear com a Coreia do Norte nem a interferência russa nos EUA conseguiram fazer os investidores pestanejar. As duas variáveis que se seguem são a política da Reserva Federal e até que ponto os cortes de impostos para as empresas e algumas famílias, nos EUA, vão fazer ainda a diferença. Ou nada disto importará, pelo menos enquanto tanta gente estiver a ganhar tanto dinheiro.




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