Taxas de juro Juros a dez anos começaram o ano nos 6%, caíram hoje aos 3,85%

Juros a dez anos começaram o ano nos 6%, caíram hoje aos 3,85%

É preciso recuar até ao final de 2009 para encontrar taxas de juro associadas à dívida portuguesa a dez anos como as que estão a ser hoje exigidas pelos investidores. Uma tendência que diminui o risco português. Investidores continuam a apostar em dívida dos países que, há dois anos, estavam no centro da crise da dívida.
Juros a dez anos começaram o ano nos 6%, caíram hoje aos 3,85%
Bloomberg
Diogo Cavaleiro 04 de abril de 2014 às 17:50

Nos quatro meses de 2014, as taxas de juro associadas à dívida soberana portuguesa conheceram, essencialmente, um sentido: o descendente. A acompanhar a evolução europeia, os investidores foram pedindo taxas de retorno cada vez menos elevadas, mostrando que as obrigações portuguesas estão a ficar mais caras, ou seja, a tornarem-se mais seguras para quem as compra.

 

A taxa de juro implícita à dívida nacional a dez anos recuou esta sexta-feira 12,1 pontos base para se fixar nos 3,85%. É a rendibilidade mais baixa desde Dezembro de 2009. Um mínimo a que chegou porque, nas últimas 16 sessões, 15 foram de queda. Antes deste ciclo, a taxa negociava nos 4,6%.

 

Aliás, alargando o espectro de análise, é visível que a quebra foi intensa desde o início do ano. A taxa a dez anos seguia acima dos 6% na primeira sessão de 2014. Perdeu, portanto, mais de 200 pontos base ou 2 pontos percentuais. Afastou-se da fasquia de 7%, enunciada pelo ministro das Finanças em 2011, Fernando Teixeira dos Santos, indicativa de insustentabilidade antes do resgate. Também se encontra abaixo da taxa de 4,5% referida pelo actual ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete.

 

É neste prazo a dez anos que se costumam fazer comparações com a taxa de juro implícita à dívida alemã, a economia mais forte da Zona Euro e, portanto, a referência. É a diferença entre essas duas taxas que indica o risco da dívida portuguesa porque dá a ideia de que taxa extraordinária os investidores pedem para comprar títulos nacionais em vez dos mais seguros títulos germânicos. Neste caso, apesar da descida dos juros que hoje se verificou no mercado alemão, o risco caiu para 227 pontos base, ou seja, 2,27 pontos percentuais, estreando-se assim um novo mínimo desde Junho de 2010, há quatro anos. Em meados de Março, a taxa seguia acima de 300 pontos base. No início do ano, estava perto dos 400 pontos base.

 

Quedas em todos os prazos, tendência para continuar

 

As reduções das “yields” portuguesas têm sido uma realidade em todos os prazos e ao longo de vários dias. A taxa de juro a cinco anos fechou a ceder 16,9 pontos base para 2,64%. É um mínimo do último trimestre de 2009. No início de 2014, os investidores pediam uma rendibilidade de 5%.

 

Já a dois anos, o recuo foi mais ligeiro (como aconteceu durante toda a sessão), de 0,35 pontos base, fixando-se em 1,23%, próximo dos mínimos desde o início do euro.

 

Os analistas que falaram com o Negócios, nesta altura em que se comemoram três anos desde o pedido de ajuda externa, indicam que ainda há margem para quedas mais intensas nestas taxas de rendibilidade exigidas pelos investidores quando querem negociar dívida nacional. Estas quebras das “yields” representam valorizações dos preços das obrigações, ou seja, elas tornam-se mais caras e, ao serem consideradas ligeiramente mais seguras, os investidores tendem a exigir, logo à partida, retornos menos elevados.

 

Este movimento positivo no mercado secundário poderá ser um bom indicador para o mercado primário, aquele que, efectivamente, representa os custos de financiamento de um Estado (venda directa de dívida aos investidores). Aliás, a agência que gere a dívida pública portuguesa – IGCP – assinalou ontem que pretende realizar, até Junho, dois leilões de obrigações do Tesouro (cujos prazos de vencimento são superiores a 18 meses).

 

Há, contudo, um senão, como constata hoje o Negócios: a queda dos juros da dívida afasta novos investidores para além daqueles que, actualmente, já têm títulos portugueses nas suas mãos. Isto porque, por agora, são investidores de carácter mais especulativo que vão possuindo dívida portuguesa, já que as três principais agências de classificação de risco (“rating”) classificam-na ainda como um investimento especulativo (o chamado “lixo”), o que impede o investimento por parte de investidores mais institucionais. Ou seja, estas descidas são boas para a economia portuguesa (no que diz respeito a capacidade de financiamento) mas que poderá ser negativa se não houver uma inversão das notações financeiras atribuídas pelas grandes agências de “rating”.

 

Mario Draghi dá grande ajuda

 

Apesar da trajectória descendente dos juros nacionais ter ocorrido nos últimos meses, à medida que Portugal ia passando os exames da troika com elogios à execução dos compromissos e aproximando-se do final do programa de ajustamento económico e financeiro (solicitado porque o país não se conseguia financiar nos mercados – os investidores pediam, no mercado primário, juros muito elevados e insustentáveis no longo prazo), a conjuntura europeia foi dando uma ajuda. E grande. 

 

A economia comunitária tem dado sinais de recuperação e os investidores parecem já não estar concentrados na dimensão da dívida pública dos países chamados periféricos da Zona Euro.

 

Nesse sentido, têm sido várias as quebras das taxas de juro associadas à dívida dos mercados nacionais anteriormente afectados pela crise da dívida, como Irlanda, Itália, Espanha e também a Grécia.

 

Irlanda, Espanha e Itália estiveram hoje a verificar mínimos desde a entrada no euro. Aliás, a taxa de juro a cinco anos da dívida espanhola desceu, pela primeira vez, abaixo da taxa pedida no mesmo prazo na dívida norte-americana.

 

O movimento de hoje segue-se ao desempenho já ontem apresentado, na sequência de declarações do presidente do Banco Central Europeu (BCE). Mario Draghi admitiu, depois de manter a taxa de juro de referência em 0,25%, que tinha sido discutida a opção de comprar dívida pública e privada. Estas aquisições, designadas de “quantitative easing” (programa de expansão monetária), estão entre as medidas não convencionais que o BCE se mostrou disponível para utilizar - e que podem sustentar o recuo das "yields" destes países, e respectiva subida do preço, dada a maior procura.  O BCE estará a estudar o impacto deste programa fixando-se na compra de activos avaliados em 1 bilião de euros.




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