Banca Digital e Trading 2017 Um choque tecnológico chamado digitalização

Um choque tecnológico chamado digitalização

As “fintech” estão aí e trazem uma realidade de inovação sem precedentes que está a pressionar a evolução do sector financeiro. Mas têm de estar dentro da lei.
Um choque tecnológico chamado digitalização

O Banco de Portugal não tem dúvidas de que as "fintech" e a digitalização dos serviços bancários representam um "choque tecnológico" para o sector. O que é certo é que a agilidade, a transparência e a redução significativa de custos que este novo cenário de serviços financeiros encerra não deixam ninguém indiferente.

 

As start-ups tomaram conta da inovação e do sector, e o termo "fintech" é hoje uma palavra que coloca em alerta qualquer gestor bancário. Abrir uma conta em menos de 10 minutos, fazer transferências ou mobilizações em segundos e sem comissões são apenas algumas das operações que convencem até os utilizadores mais cépticos a experimentar os serviços.

 

A estrutura pesada e burocrática associada às instituições bancárias ganha um sentido depreciativo a partir das "fintech", que por sua vez trazem uma roupagem mais transparente e interactiva à economia financeira. Os seus modelos de negócio surgem sustentados por tecnologias de nova geração, que incluem a mobilidade, a "cloud" e as apps. Tudo está à distância de um smartphone.  

 

Desde 2010, foram investidos globalmente mais de 45 mil milhões de euros em mais de 2.500 empresas que preconizam os novos modelos de negócio da indústria financeira. No primeiro trimestre de 2016, o investimento global em "fintech" atingiu os 5,3 mil milhões de dólares, o que representou um crescimento de 67% em relação ao mesmo período de 2015.

 

Num estudo da PwC, em que foram entrevistados 176 presidentes executivos de instituições financeiras de todo mundo, 81% dos gestores acreditam que o crescimento das suas instituições poderá estar em risco se as mudanças tecnológicas continuarem a avançar no mercado e a conquistar os clientes pelo preço, eficiência e agilidade dos serviços que permitem disponibilizar. Chegou a altura de mudar!

 

A corrida da digitalização já começou e estes novos modelos de negócio estão a transformar não só o modo de se adquirir serviços financeiros, mas também a forma como os diferentes operadores da indústria se estão a posicionar nos mercados, criando um ecossistema financeiro que, além da inovação, traz consigo um ambiente menos burocrático, ágil e eficiente.

 

Quadro regulatório comum

Para já, a regulação ainda controla os avanços das "fintech", mas o amanhã está a um passo de distância e a capacidade de inovação destas empresas depressa as fará descolar a alta velocidade, rumo a uma banca desburocratizada e eficientemente ágil que esbarrará com a regulação instituída. Nesse ponto, Catarina Cardoso, directora do Centro de Assessoria Económica e Financeira da APB, diz que é importante que o sector perceba que é essencial encarar a competição entre bancos e não bancos como algo saudável para o mercado, e deve ser incentivada, mas que é relevante garantir que esta competitividade "assenta num quadro legal e regulatório comum, ou seja, ‘same business, same risks, same rules, same supervisions".

 

A Accenture por sua vez deixa claro que, para vencerem na era das "fintech", os bancos devem ter a capacidade de construir um conjunto de estratégias eficazes e fortes, de modo a permanecerem competitivos. Desta feita, devem começar a procurar formas concretas de melhorar os seus modelos de negócio, investindo em tecnologias que sejam facilmente adoptáveis por toda a indústria; devem procurar estar mais próximos da vida digital dos seus clientes, incorporando no núcleo da sua estratégia corporativa um pensamento centrado no cliente, juntamente com as competências certas em todos os níveis da organização; e terão de pensar como expandir a sua rede para desenvolver um ecossistema de serviços focado no cliente. Terão de desafiar os seus próprios modelos de negócio, tornar-se mais relevantes para os clientes e ter acesso a fontes de rendimento maiores e de longo prazo.

 

"Os clientes querem soluções simples, não têm tempo para estar à procura, não têm tempo para ver como as coisas funcionam. Os consumidores querem ter o controlo da informação. Querem ter informação transparente, não ser enganados e querem grande customização", deixou claro Maria Antónia Pires, a responsável pela unidade de meios de pagamento do Millennium BCP, durante a sua intervenção na última edição do Smartpayments Congress 2017.

 

Maria Antónia Pires acrescentou que os bancos também precisam de "interagir com as empresas pois elas têm consumidores que são digitais – temos de ter uma integração total".

A Accenture sublinha que "fintech" não estão a surgir como a principal ameaça competitiva para a banca, antes pelo contrário. A consultora garante que os "players" que conseguirem "avaliar, adaptar e adoptar essas novas tecnologias mais rapidamente estarão mais bem posicionados para alcançar a posição desejada na nova estrutura da indústria".

 

É preciso inovar

A Juniper Research acredita que há pontos de inovação que são obrigatórios para que a banca não perca terreno para as "fintech". Num estudo publicado, apresentou aquelas que considera serem as áreas principais de investimento em 2017 e 2018.

 

A consultora diz que é possível perceber que a legislação PSD2 conduzirá à criação de inúmeras empresas terceirizadas que, à partida, se poderia pensar viriam "prejudicar os players já estabelecidos". No entanto, diz a Juniper, "existe uma oportunidade para a cooperação entre bancos e empresas em fase de arranque". Na realidade, as instituições "podem alavancar as suas empresas já estabelecidas em parcerias com start-ups de tecnologia mais ágil, tirando assim partido das vantagens de serem as primeiras no mercado".

 

A Juniper acredita que as start-ups associadas ao conceito "regtech" estão prestes a assumir uma posição de destaque no mercado, já que permitem, entre outras coisas, uma assinalável economia de custos e eficiência de tempo, beneficiando claramente os consumidores.

Para as organizações bancárias e dos seguros, que enfrentam constantes mudanças regulatórias, a ajuda das "regtech" será fundamental, proporcionando maior segurança.

 

Na verdade, a Juniper Research acredita que as "regtech" vão ajudar este tipo organizações a redefinir a forma através da qual poderão lidar com os aspectos cada vez mais complexos associados à conformidade, regulação e a tudo o que são relatórios de negócio. Desta forma, assegura-se uma efectiva redução ao nível de restrições de tempo e melhora-se também a qualidade e a precisão do trabalho.

 

Os "chatbots", ou programas automatizados ("script" ou baseados em inteligência artificial), visam permitir o estabelecimento de uma conversão com os clientes da mesma forma que ocorre a interacção tradicional entre duas pessoas. No caso das "fintech", a Juniper considera que os "chatbots" vão permitir significativas reduções de custos, que podem chegar aos 4,4 mil milhões de dólares anuais em 2022.




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