Negócios Em Rede André Vieira de Castro: "Produtos são mais vendáveis com mais funcionalidades"

André Vieira de Castro: "Produtos são mais vendáveis com mais funcionalidades"

O presidente do BICMINHO admite que a região é mais forte na engenharia industrial, mas alerta que o design e a inovação são "mais do que uma mera combinação de palavras da moda".
André Vieira de Castro: "Produtos são mais vendáveis com mais funcionalidades"
Perto de 300 congressistas de todo o mundo vieram ao 25.º Congresso Mundial de Empreendedorismo e Inovação, em Guimarães. Em entrevista ao Negócios em Rede, o presidente do BICMINHO, que organizou este evento anual da European Business Network (EBN) com um orçamento de 250 mil euros, frisou que "o design em cima da inovação e das indústrias tradicionais é o 'crème de la crème'. André Vieira de Castro apela às instituições de ensino para que "produzam pessoas e competências" que tragam mais funcionalidade e inovação aos produtos, ao processo de fabrico, na embalagem, na rotulagem e na distribuição.

Como é que o design pode entrar na indústria e assumir um papel relevante na inovação?
Acreditamos que é mais do que uma mera combinação de palavras da moda. Quando fizemos a candidatura à EBN, escolhemos este tema e não apresentamos Guimarães só pelas condições logísticas que tornam este espaço [Centro Cultural Vila Flor] único. O Minho é uma região cuja notoriedade vem sobretudo da indústria dita tradicional - por ser ancestral -, que é também aquela que está internacionalizada há mais tempo. O que podíamos vender como assinatura deste congresso e que pudesse ser atractivo para toda a gente, que veio de diferentes origens e, simultaneamente, também jogasse com o território e o valorizasse? Aliado também à forma de actuar do BICMINHO, claramente concluímos que o design e a inovação - e, sobretudo, o design em cima da inovação e das indústrias tradicionais - era o "crème de la crème". O que durante estes dias pudemos conversar, estudar e trabalhar é aquilo que precisamos de melhorar e de acrescentar ao valor das nossas iniciativas económicas nas mais diversas áreas. Portugal, e em particular a região do Minho, tem um manancial muito forte ao nível da indústria transformadora - no têxtil, calçado, agro-alimentar, metalomecânica, etc. - e em todas estas áreas temos muito mais a aportar ao nível do design do produto, de marca, de processo, de serviço. Para estas indústrias crescerem e para outras ao lado, em "cluster", poderem aparecer.

Onde é que está o maior desafio para as indústrias incorporarem o design, até para fazerem o chamado "design thinking"?
O "design thinking", no final do dia, tem a ver com o modo como as coisas funcionam e não como elas se parecem. Portanto, num mundo hoje pragmático e de informação transparente, quanto mais funcionalidades tiverem os produtos, mais eles serão vendáveis no mundo. Um desafio que temos neste momento é a formação. Em Guimarães temos o Instituto do Design e na região, através da Universidade do Minho, não estruturadamente, vamos tendo uma oferta relativamente forte (mas diria não suficientemente forte) no design industrial. Temos uma componente mais forte ao nível da engenharia industrial do que no design, seja ele de produto, processo ou outro. E aí há que intervir. Com este congresso queremos também criar uma opinião pública favorável e um lóbi para que as instituições do saber, e nomeadamente a rede de conhecimento da região, possam cada vez mais deixar de associar tanto o design às indústrias criativas, no sentido em que o design é visto como um fim, mas que percebam que o design como um meio é altamente catalisador de todas as áreas industriais que temos.

E como é que as indústrias podem mostrar essas necessidades às universidades?
Esse é um processo de comunicação que ainda não está garantido que exista e que esteja aberto. Ainda que tenha melhorado bastante e hoje tenhamos instituições modernas na região e que têm vindo a mudar a sua forma de actuar com as empresas: a Universidade do Minho, o Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA), a Lusíada em Famalicão, a Católica em Braga, o Politécnico de Viana do Castelo. Ainda assim, há algum preconceito que torna difícil essa relação ser, pelo menos, muito alargada. Queremos que consigam produzir um conjunto de pessoas e de competências - quer nos jovens empreendedores, quer para quem vai empreender nas empresas já existentes -, que possam trazer mais funcionalidades e inovações no produto, na embalagem, na rotulagem e em todo o processo de distribuição. Trazer este conceito do design, via inovação, fazendo crescer o valor acrescentado do produto e com isso vender mais e criar mais emprego.
cotacao Vemos o design como a tecnologia: não como um fim em si, mas como um meio que deve ser colocado em camadas, em cima das indústrias em que já somos competentes.

Nas start-ups que estão a surgir nestas áreas na região, nota algum movimento colaborativo com as empresas já existentes?
Diria que há e até que é algo que tem caracterizado a evolução da indústria da nossa região nos últimos cinco anos. Quando desenvolvemos tecnologias de ponta em qualquer área do saber, há um efeito "spillover" para outros. Até nos projectos feitos em consórcio, uns resultam, outros ficam a meio, mas no final há sempre qualquer coisa que fica e vai permitir depois uma derivação para a empresa produzir e criar novos produtos, soluções, ofertas para os clientes, encontrar formas de chegar a novos clientes. Vemos o design como a tecnologia: não como um fim em si, mas como um meio que deve ser colocado em camadas, em cima da indústria em que já somos competentes. Não apostamos muito em pegar numa folha em branco e em criar novas tecnologias, até porque isso tem uma taxa de sucesso muito mais baixa. Naquilo em que endogenamente somos bons e em que há quem compita connosco, o que podemos acrescentar que nos distinga? Nos sapatos, por exemplo, através do design aplicado, da funcionalidade já testada e da confiança de saber que estamos a falar de gente que já manufactura isto há muitos anos, conseguimos fazer crescer o valor médio desse produto e ter actualmente o segundo calçado mais caro do mundo.

Então, mas em que tipo de empreendedorismo é o BICMINHO aposta e se revê?
Já incubámos nas nossas instalações físicas mais de 100 empresas, já apoiámos a criação de mais de 200 empresas e temos uma taxa de sucesso de 92%, medida ao fim do terceiro ano, o chamado "vale da morte", o que significa que somos muito exigentes no processo de entrada. No empreendedorismo de sobrevivência e sem valor acrescentado, com todo o respeito, encaminhamos, ajudamos alguma coisa, mas essa não é a nossa praia nem o que queremos fazer. Temos a missão de melhorar a região. O empreendedorismo que vem só canibalizar o parceiro do lado não encaixa na nossa missão.





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