Energias Renováveis 2018 Portugal está no bom caminho, mas ainda há muito para percorrer

Portugal está no bom caminho, mas ainda há muito para percorrer

País tem boa penetração de produção renovável no seu sistema eléctrico. Falha nos transportes e no cumprimento de metas.
Portugal está no bom caminho, mas ainda há muito para percorrer

Portugal é um dos Estados-membros da União Europeia (UE) com maior quota de energias renováveis no consumo energético. Um estudo da Agência Europeia do Ambiente, sobre a utilização de energias alternativas na Europa, põe o nosso país em sétimo lugar na tabela dos 28 Estados-membros da UE. Apresentado em Dezembro, o relatório, que entre outras conclusões explica que o carvão foi o combustível mais substituído por fontes energéticas renováveis na Europa, refere que Portugal é dos únicos quatro países europeus onde a quota de electricidade obtida de fontes renováveis representou em 2015 mais de metade do consumo total de renováveis. Na UE, cerca de 29% da electricidade consumida em 2015 proveio de fontes renováveis.

 

Outro relatório, o REA 2017, conclui que Portugal apresentou, em 2016, uma taxa de 62% de produção de energia eléctrica a partir de fontes renováveis – para efeitos da Diretiva FER foi de 54,1%. Este documento do Estado do Ambiente informa que em 2015, o ano mais recente disponível no Eurostat, Portugal teve uma incorporação de renováveis no consumo final bruto de energia de 52,6%, o que representou a terceira taxa mais alta da UE.

 

Portugal tem apostado fortemente no desenvolvimento das energias renováveis, dizem os seus responsáveis políticos. E o Governo vê o lítio como uma energia renovável de acumulação de electricidade, pretendendo atrair investidores estrangeiros para "potenciar a produção de baterias", avançou à agência Lusa fonte do Governo.

 

Jorge Seguro Sanches, secretário de Estado da Energia, participou, no Canadá, na Cimeira de Ministros Internacionais de Minas, que reuniu mais de 3.800 investidores presentes em 130 países. Tentou atrair "investidores para o concurso público internacional, que será lançado brevemente", abrangendo áreas identificadas com reservas de lítio.

 

"O nosso país não tem [exploração de] petróleo ou de gás natural. É mais fácil optarmos pelos recursos das energias renováveis. Isto é muito coerente. Energias renováveis, electricidade, lítio, a possibilidade de existência de baterias. É a melhor forma de acumular energia e electricidade, através das barragens ou das baterias de lítio", explicou.

 

O bom e o mau

 

Políticas, projectos, programas… as energias renováveis estão enraizadas em Portugal. Contudo, nem tudo é eficiente. Cristina Camus, coordenadora da pós-graduação em Engenharia e Gestão de Energias Renováveis (EGER) do Instituto Superior de Engenharia de Lisboa (ISEL), refere sobre estas energias que "Portugal é dos países europeus com maior penetração de produção renovável no seu sistema eléctrico tendo estado no quinto ou sexto lugar nos últimos anos (57% em 2016)", afirma.

 

Já nos transportes não estaremos assim tão "renováveis", pois o nosso parque automóvel é "dominado pelo diesel e pela gasolina" e mesmo nas vendas dos últimos anos continua a ser o veículo a diesel o mais adquirido em Portugal. O papel dos biocombustíveis, prossegue, "assume um destaque fulcral na direcção renovável, assim como o aumento da penetração de veículos com propulsão eléctrica". "Como sabemos, o sector dos transportes, a par com o da produção de electricidade, continua a ser o responsável pela maioria das emissões de gases de efeito de estufa nos países da OCDE".

 

António Sá da Costa, presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis (APREN), diz que, no que toca à electricidade renovável, Portugal está no "bom caminho, mas ainda há muito para percorrer". "Podíamos estar melhor e mais perto de cumprir as metas que nos foram definidas", recorda.

 

As renováveis mais utilizadas

 

Cristina Camus explica que em Portugal a energia eólica tem "grande expressão", com uma penetração considerável (cerca de 23%) apenas superada pela Dinamarca. Já na energia solar, "a penetração tem sido relativamente baixa, um pouco superior a 1%". No entanto, com o "baixo preço dos módulos fotovoltaicos e o elevado preço da electricidade paga pelo consumidor, o autoconsumo fotovoltaico tornou-se economicamente bastante favorável, o que tem levado a um aumento significativo destes sistemas por parte de empresas e particulares". Recentemente, prossegue, também já existem projectos de centrais fotovoltaicas para licitar em mercado, isto é, sem recurso a apoio do Estado.

 

As fontes renováveis com maior peso na produção da electricidade são a "hídrica com um peso médio da ordem de 28% e a eólica que se aproxima dos 25%", avança António Sá da Costa e continua: a seguir com cerca de 6% está a biomassa, limitando-se a solar a um pouco menos de 2%, sendo esta a que tem maior margem de crescimento, pois tem tido reduções de custo muito nítidas nos últimos anos, o que a torna muito competitiva no mix energético nacional. "Pelo facto de Portugal ter um índice de irradiação solar muito favorável nas zonas sul do país e porque a representatividade do solar é ainda muito baixa, acredito que existe um forte potencial para o seu crescimento", prevê.

 

Sensibilidade nacional

 

Os portugueses – empresas e privados – estão mais sensíveis à importância do uso de energias renováveis? "Penso que são todos sensíveis ao factor preço. Só investem em renováveis se isso for economicamente viável para eles", explica Cristina Camus. O crescimento das energias eólica, mini-hídrica e solar em Portugal ficou a dever-se "às políticas de incentivos por parte dos governos que fixavam uma tarifa bonificada para todos os MWh (megawatt hora) injectados na rede e lhes permitiam compensar os avultados investimentos efectuados". Hoje, o aumento das UPAC (unidade de produção de autoconsumo), deve-se ao baixo preço dos módulos, conta. "Há dez anos pagava-se 650€/MWh à microgeração fotovoltaica e hoje já se produz a menos de 100€/MWh (inferior à tarifa de energia nas horas de ponta e cheia) sem ser necessário qualquer incentivo do Estado para que uma empresa ou particular invista em painéis fotovoltaicos".

 

António Sá da Costa confirma que os portugueses já perceberam a importância que estas fontes têm, os benefícios que trazem e a necessidade de ser eficiente no uso da energia. Contudo, ressalva, nem sempre há sintonia entre todos os sectores envolvidos nesta missão, "caso do planeamento urbanístico, dos projectistas e dos próprios cidadãos que preferem as soluções de menor custo imediato e esquecem os aspectos de sustentabilidade e rentabilidade a longo prazo". O presidente da APREN dá como exemplo o pouco uso em Portugal de painéis solares para aquecimento das águas sanitárias. "Temos uma utilização que é cerca de dez vezes menos do que tem a Grécia, para falar dum país da mesma dimensão que o nosso e com uma exposição solar semelhante."