Recursos Humanos e Coaching 2017 Em sintonia com a Europa, mas com cultura própria

Em sintonia com a Europa, mas com cultura própria

Responsáveis empresariais e trabalhadores portugueses têm determinadas especificidades, pelo que mesmo com modelos de gestão universais, os resultados são diferentes.
Em sintonia com a Europa, mas com cultura própria

Portugal tem acompanhado a tendência europeia nos recursos humanos. Não obstante, há que ter em conta que existem culturas diferentes e que, naturalmente, os resultados não podem ser os mesmos. Miguel Pereira Lopes, professor associado e coordenador da Unidade de Gestão de Recursos Humanos do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP)/Universidade de Lisboa, acredita que Portugal "está ao nível da maioria dos demais países europeus" na gestão de recursos humanos. Mas há algo que "está a falhar", salienta e prossegue: "Caso contrário os nossos indicadores de produtividade não seriam tão baixos em comparação com os melhores. E parte do que está a falhar tem de facto a ver com a pouca investigação que é feita sobre a realidade das empresas e dos trabalhadores portugueses."

 

O representante português no board da European Academy of Management (EURAM) diz que Portugal acompanha a tendência europeia, mas com as especificidades da realidade nacional. "Este ponto é importante porque existem escolas que baseiam o seu ensino em ‘case studies’ internacionais de realidades que nada têm a ver com a nossa realidade e a nossa cultura." Miguel Pereira Lopes dá como exemplo o foco nos incentivos extra de tipo individual, importado dos países anglo-saxónicos, que na cultura portuguesa colectivista é improdutivo. "Depois dizem que o trabalhador português distorce as coisas e subverte os objectivos destas práticas, mas a verdade é que elas nos são estranhas. Porque é que não investigamos melhor o efeito dos incentivos de nível colectivo e de equipa e retiramos uma mais-valia desta nossa cultura de pequenos clãs?", questiona.

 

País actualizado

 

Mário Ceitil e Maria Isabel Duarte, directores do curso de licenciatura em Gestão de Recursos Humanos da Universidade Lusófona de Humanidades, referem que, "tal como acontece noutros domínios", Portugal é hoje um país muito "actualizado" ao nível dos modelos e práticas de gestão, como se percebe pelo cada vez maior número de executivos que ficam "muito bem classificados em prémios internacionais".

 

Em relação à questão das culturas, os modelos de gestão, os paradigmas e as práticas delas decorrentes prosseguem uma "inequívoca tendência de universalização", o que é "uma coisa positiva". "O que acontece é que é necessário que os responsáveis empresariais, em particular os de recursos humanos, tenham o suficiente discernimento e a sensibilidade às questões culturais, de maneira a fazer adaptações criativas dos modelos às particularidades de cada cultura, não só às culturas nacionais como às culturas organizacionais, que também têm a sua especificidade própria. É, no fundo, o efeito que está contido na conhecida expressão de ‘glocalização’".