Smart-cities, a vez dos sistemas preditivos

Tem de se passar de um sistema de mobilidade inter-operável para modelos preditivos, que permitam fazer um gestão dinâmica da mobilidade, de geometria variável, e que sejam adequadas à transformação diária das cidades.
Smart-cities, a vez dos sistemas preditivos
Robert Stussi moderou a sessão que contou com Miguel Castro Neto, Sara Fernandes, Rodrigo Sampayo e Vladimiro Feliz.
Inês Gomes Lourenço
Filipe S. Fernandes 30 de julho de 2018 às 16:05
"O Mobi-me é um sistema de gestão de mobilidade sustentável que foi reconhecido pelas Nações Unidas como uma tecnologia de referência para o cumprimento do objectivo 12 da sustentabilidade das cidades e do território, entre seis mil tecnologias", referiu Vladimiro Feliz, Smart Cities Programme and Chief Information Officer do CEiiA.

É o sistema que corporiza a visão de Cascais, que passa pela criação de eco-sistemas integrados de mobilidade, "que deixem de olhar para a mobilidade numa lógica da oferta ou de um único meio de mobilidade, mas que tenham uma orientação clara e gradual ao mix de mobilidade disponível, mais adequado, mais fácil, mais económico, mais sustentável, para uma deslocação", concluiu Vladimiro Feliz.

Tem ainda a particularidade de tornar a sustentabilidade "transaccionável, isto é, posso impactar as taxas do operador e a factura do utilizador em função do seu comportamento de mobilidade, das emissões CO2 que produz no seu processo de mobilidade. Permite calcular o impacto ambiental entre deslocações com energias verdes ou fósseis".

A transformação digital afecta toda a sociedade. Miguel Castro Neto
Professor auxiliar e subdirector da NOVA IMS

O CEiiA é um centro de engenharia e desenvolvimento orientado para as indústrias de mobilidade e está a pensar em devices inteligentes, ligados à cidade, à infra-estrutura da cidade e conectados entre si e os sistemas, "que permitam não só a recolha de informação histórica e tempo real, mas modelos preditivos, que criem modelos de gestão de mobilidade dinâmicos, de geometria variável, que se adeqúem à transformação diária das cidades".

Existe para as pessoas

"A transformação digital afecta toda a sociedade", disse Miguel Castro Neto, professor auxiliar e subdirector da NOVA IMS. Defendeu que tem de se passar de um sistema interoperável, que partilha dados, junta os vários elos da cadeia de mobilidade para oferecer uma experiência de conveniência para o utilizador, como se fez em Cascais, para um novo limiar. "Há que passar para uma fase mais preditiva e construir uma verdadeira inteligência territorial, em que a mobilidade está interligada com outras dimensões da vida nas áreas urbanas".

Salientou que hoje com a tecnologia disponível se podem fazer verdadeiras radiografias do território e compreender o metabolismo da cidade. "Com os dados disponíveis é possível perceber como é que as pessoas se deslocam e, com esses dados, dispor de um novo modelo de planeamento e de gestão da mobilidade", referiu Miguel Castro Neto.

Quando estamos a falar de smart-cities, falamos de pessoas, pois tudo existe por causa das pessoas. Sara Fernandes
professora e investigadora na Universidade das Nações Unidas

"Quando estamos a falar de smart-cities, falamos de pessoas, pois tudo existe por causa das pessoas", sublinhou Sara Fernandes, professora e investigadora na Universidade das Nações Unidas. Explica que o seu trabalho passa por desenhar, com os governos nacionais de países em vias de desenvolvimento, "estratégias como uma visão holística para implementar planos de acção em termos de smart-cities, mas também de governo e administração pública, com uma forte componente de ensino e formação para preparar as pessoas".

Acrescentou que um dos seus focos é recolher as melhores práticas e os principais erros cometidos nas estratégias de inovação nos países mais desenvolvidos no que se refere às smart-cities. Mas há a preocupação de evitar a replicação, porque, como sugeriu com uma imagem forte: "não é possível replicar Cascais em Bissau, porque Cascais tem estradas e Bissau buracos".

Participantes

A sessão "Smart Cities, Mobilidade e Desenvolvimento Sustentável" foi moderada por Robert Stussi, vice-presidente da APVE, e contou com a presença de Miguel Castro Neto, professor auxiliar e subdirector da NOVA IMS, Sara Fernandes, professora e investigadora da Universidade das Nações Unidas e autora do livro Smart Cities, Rodrigo Sampayo, arquitecto e partner Openbook Architecture, e Vladimiro Feliz, Smart Cities Programme and Chief Information Officer da CEIIA.


A estratégia do smart-office

"As empresas têm uma grande dificuldade em contratar, o mercado não produz quadros técnicos suficientes em relação às necessidades das empresas, portanto têm de criar factores distintivos para a atracção de talentos, o que passa pelo smart-office", disse Rodrigo Sampayo, que é arquitecto, partner e fundador da Openbook Architecture, com 12 anos, cerca de 40 pessoas, escritórios em Portugal (Lisboa) e Brasil (São Paulo), e actividade em cerca de 12 países. "Somos a principal empresa em Portugal a fazer arquitectura corporate com a Deloitte, KPMG, Vieira de Almeida & Associados, embora trabalhemos na área da saúde e do residencial e do turismo", referiu Rodrigo Sampayo.

O smart-office é um escritório que funciona no conceito de road desk, em que a relação do posto de trabalho é de mobilidade, para todos os níveis hierárquicos. "Privilegia-se o espaço público em vez do espaço privado, as pessoas não têm gabinete, os que existem são muito pequenos e partilhados, com áreas comuns bastante grandes", explicou Rodrigo Sampayo.

O tempo médio de um millennial numa empresa é de sete meses, por isso, se assiste "à criação de novos valores, de factores distintivos, como os work-cafés. Hoje os espaços de trabalho têm funções consoante as necessidades do colaborador e isto passa-se de uma forma transversal". É uma tentativa de as empresas conseguirem cativar quadros e mantê-los depois de os formar.