"A saúde pública é matéria política"

O painel sobre a saúde em Portugal alertou para o problema das infecções no sistema de saúde e de resistência aos antimicrobianos da diabetes, mas também dos prováveis efeitos que a crise pode ter no sistema público de saúde.
"A saúde pública é matéria política"
David Martins
Filipe S. Fernandes 04 de Outubro de 2016 às 10:53
"A saúde pública é matéria política e só com uma perspectiva forte de políticas públicas se podem abordar as ameaças e os desafios que neste conturbado século XXI se colocam à humanidade não só no plano nacional como internacional", disse Jorge Sampaio, ex-Presidente da República, na sua intervenção como "chairman" da Be Well Global Health Conference, que se realizou no Meo Arena em Lisboa no sábado, 1 de Outubro, e contou com a presença de mais de 3 mil assistentes relacionados com as actividades da saúde. Adiantou que "na saúde jogam-se também os direitos humanos enquanto campo de assinação e construção da dignidade humana e do desenvolvimento sustentável". Esta linha de pensamento foi reforçada pela comunicação de Vasco Vieira de Almeida, o advogado que falou de direito à saúde, que referiu que o direito à saúde e ao bem-estar não fazem parte dos direitos e garantias de liberdade da Constituição, mas constam dos direitos sociais e económicos. Há um dever de protecção na saúde e, portanto, de financiamento dos sistemas nacionais de saúde.

A realidade da saúde em Portugal fez parte deste fórum de reflexão. A prescrição de antibióticos aumentou em 2015 revelou Paulo André Fernandes, director do PPCIRA (Programa de Prevenção e Controlo de Infecções e de Resistência aos Antimicrobianos). Sem revelar números, por ainda estarem em consolidação, Paulo André Fernandes salientou que este aumento afecta um dos pilares na luta contra os microorganismos multirresistentes. A outra componente é a luta contra as infecções no sistema de saúde que implica novas formas de organização e de cumprimentos de normas no sistema de saúde o que inclui hospitais, centros de saúde, de cuidados continuados e lares. Mas não só. A bactéria MRSA, o "staphylococcus aureus" resistente à meticilina e outros antibióticos, foi encontrada em 33% dos autocarros de transporte público de Lisboa e em 26% nos do Porto como revelam dois estudos científicos.

Jorge Sampaio, ex-Presidente da República
Jorge Sampaio, ex-Presidente da República
David Martins

O director do PPCIRA referiu que estas infecções têm custos associados de 300 milhões de euros. A ONU decretou em 21 de Setembro a luta global contra a resistência antimicrobiana. Segundo um estudo recente, se nada fosse feito, estas infecções do sistema de saúde e a resistência provocariam, a partir de 2050, 10 milhões de mortos no mundo, 390 mil dos quais na Europa.

Diabetes e inovação

"A doença da diabetes tem custos directos de 1,54 mil milhões de euros, o que representa 0,9% do PIB e 10% das despesas de saúde", afirmou José Luís Medina, presidente da Sociedade Portuguesa de Diabetologia, na sua intervenção. Referindo-se a esta doença como uma pandemia, revelou que em 2013 morreram em todo o mundo cinco milhões de pessoas com a diabetes, mais do que com a tuberculose (1,5 milhões), VIH/Sida (1,5 milhões) e malária (0,6 milhões). Salientou que a sua incidência em Portugal é grande, cerca de 40% da população tem diabetes ou é pré-diabética.

José Luís Medina disse que há cada vez mais evidências sobre a relação da diabetes e as desigualdades sociais e de rendimento. O que mostrou a pertinência da conferência de Richard Wilkinson, que demonstrou que nos países com níveis de desigualdades de rendimento mais elevados tem maiores impactos negativos em áreas tão diversas como a mortalidade infantil, os níveis de encarceramento, a felicidade e a confiança da população, o sucesso escolar ou os níveis de literacia.

Joel Selanikio, CEO da Magpi
Joel Selanikio, CEO da Magpi
David Martins

Os impactos dos novos medicamentos, dispositivos, tratamentos e abordagens à doença estiveram também em destaque na conferência e foram referidos como novas esperanças no tratamento das doenças cerebrovasculares e oncológicas. "É cada vez mais complexo tratar um doente oncológico e implica articulação. Os cuidados são centrados no doente e isso tem impacto na forma de organização. A oncologia moderna é multidimensional e multidisciplinar", referiu Gabriela Sousa, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia.

Por sua vez, sobre as doenças cardiovasculares, João Morais, director do Serviço de Cardiologia do Centro Hospitalar de Leiria, mostrou como foi bem-sucedido o foco no enfarte de miocárdio, que era uma das principais causas de morte, que fez baixar o índice de mortalidade das doenças cardiovasculares. Salientou como desafios para o futuro a redução dos AVC, dos casos de morte súbita e das insuficiências cardíacas. João Morais refere que ainda está por saber qual foi o impacto da crise económica e financeira no sistema de saúde nas doenças.

Paulo André Fernandes, director do PPCIRA
Paulo André Fernandes, director do PPCIRA
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A inovação atravessou as várias intervenções até porque, como referiu Vítor Virgínia, director-geral da MSD, "se me pedissem para resumir numa única palavra as últimas décadas na área da saúde escolheria a palavra inovação", acrescentando que "as últimas décadas têm sido extraordinárias na evolução da ciência, da tecnologia e da medicina com o aumento significativo da esperança de vida, da capacidade de fazer frente à doença, da melhoria do bem-estar".

A conferência contou ainda com as intervenções de Jorge Soares, director do Gulbenkian Programme for Innovation in Health, e Raul Vaz, director do Negócios.





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