Beesweet: Primas de Estarreja “picam” herança do mel aromatizado

Carla Pereira e Ana Pais retomaram as experiências de aromatização com plantas do avô Augusto, apicultor nas horas livres, depois de ficarem sem emprego. A subida do preço da matéria-prima é a maior ameaça.
Beesweet: Primas de Estarreja “picam” herança do mel aromatizado
Carla Pereira, 31 anos, e Ana Pais, 34 anos, fundaram a Beesweet no Verão de 2015, depois de testarem e amadurecerem a ideia de negócio em vários concursos de empreendedorismo.
Bruno Simão
António Larguesa 21 de junho de 2017 às 10:04
Desde pequeninas, Ana Pais e Carla Pereira "sempre [viveram] muito esta coisa das abelhas e do mel" com o avô Augusto, apicultor nas horas vagas que fazia umas experiências com plantas aromáticas, depois oferecidas a amigos e vendidas na lojinha da avó Hermínia. Mas as primas nascidas e criadas em Pardilhó, no concelho de Estarreja, só começaram a deixar de pensar naquilo como "a coisa mais natural do mundo" quando, quase ao mesmo tempo naquele tempo de entrada da troika no país, ficaram desempregadas.

A ex-recepcionista de um hotel algarvio e a prima, três anos mais nova, que perdera o ofício de técnica de qualidade numa empresa ligada ao automóvel, começaram a rondar a ideia de negócio da Beesweet durante as longas caminhadas em conjunto. E picaram-na em definitivo quando o pai da actual CEO, regressado da Alemanha, resolveu mexer na garagem onde estavam esquecidas as antigas ferramentas, uma centrifugadora cheia de ferrugem, algumas colmeias, as máscaras e um fato de apicultura que pertenciam ao avô. "Aquilo começou a mexer connosco", recua Ana Pais.


Macau e Suíça são os melhores destinos externos para a Beesweet, que esteve para ser um apiário pedagógico.


Começava aí a aventura empresarial que começou vitoriosa em concursos de empreendedorismo, onde testaram a ideia, os preços, a imagem ou a forma de chegar ao mercado. O que só viria a acontecer em Agosto de 2015 com um mel natural, 100% português, aromatizado com ervas frescas, que actualmente conta com uma linha de seis sabores - além de outros produtos que foram adicionando ao portefólio, como o chocolate negro belga com recheio de mel aromatizado.

A ideia embrionária até era a de construírem um apiário pedagógico, aberto ao público. Porém, logo perceberam que era algo inviável pelos custos iniciais enormes, que incluam terrenos, maquinaria e instalações próprias. O projecto inicial "não está completamente de parte", mas assumem que, por agora, têm de se focar no produto, que posicionaram num segmento "premium", e em colocá-lo no mercado. "Foi tudo com muito sacrifício. Não temos familiares ricos nem nada disso. Começámos tudo do zero. Comprámos 50 frascos, vendemo-los e ganhámos dinheiro para comprar os cem seguintes - agora já os compramos às paletes e o mel à tonelada", sustenta a gestora nortenha.


3
Fornecedores
Um apicultor da região de Oliveira de Azeméis e duas cooperativas, em Vila Real e Castelo Branco, fornecem o mel à Beesweet.

20%
Exportação
No ano passado, o primeiro completo no mercado, a jovem empresa facturou um em cada cinco euros no estrangeiro.


Com sede em Oliveira de Azeméis, a Beesweet tem os produtos disponíveis em lojas "gourmet" de Norte a Sul do país e também no estrangeiro, em localizações como França, Suíça, Luxemburgo, Holanda e Macau, além de vender em várias plataformas online. No ano passado, as exportações representaram 20% do volume de negócios, que ultrapassou os 30 mil euros.

O fornecimento do mel, comprado directamente a duas cooperativas, em Vila Real e em Castelo Branco, e a um apicultor da região, é, desde o início, um dos segredos do negócio. E agora também "a maior ameaça" devido à "subida exagerada dos preços" da matéria-prima, que é uma tendência global. É que, em vez dos habituais quatro euros por quilo, em compra a granel, as propostas recebidas começam a ascender agora aos seis euros.

raio-x

"Chefs, mas muitos" e bem posicionados 

A Beesweet colocou-se no mercado "premium" com um produto que se quer diferenciar da concorrência e que está a ser estudado.

Clientes "gourmet" e da restauração
 O público-alvo é de classe alta e média-alta. "Alguém que vai a uma mercearia gourmet comprar um produto específico para dar a conhecer a amigos", exemplificou.
 A empresa criou também uma embalagem específica para os clientes da restauração e fez parcerias com vários chefs, como a Filipa Gomes do "24Kitchen".

Oportunidades na cozinha e na farmácia
 A incorporação de mel em pratos gastronómicos continua a ser uma das maiores oportunidades.
 O valor medicinal do mel, com o "valor acrescentado" das plantas, está a ser estudado em laboratório com a Universidade de Aveiro, para entrarem nas para-farmácias.

Concorrentes no país e nas bisnagas
 Aquae Flaviae e Casa da Prisca estão na lista da concorrência, com a diferença de lá deixarem as coisas que metem no mel.
 A "maior concorrente", eleita por Ana Pais, é a Meia Dúzia, que faz compotas em bisnaga e lançou um mel aromatizado já depois de a Beesweet entrar no mercado.



Perguntas a Ana Pais
CEO da Beesweet

Americanos adoram produtos orgânicos

A Beesweet quer atacar um nicho nos EUA e não se assusta com a dimensão. Afinal, já exporta para a China.

Como se vão posicionar para vender nos EUA?
Queremos um representante ou importador que ajude a alavancar o produto num mercado que lhe irá dar valor. Eles adoram produtos orgânicos, naturais. Mas sempre em nicho de mercado, no valor acrescentado, não em quantidade. É óbvio que temos de crescer, optimizar a produção, mas é impossível estar no mundo todo se não for com este conceito.

Capacidade de produção? Todo o ciclo de negócio está criado.
A questão não é a falta de produto. Vendemos mel em frascos de 40 gr.

Mas um nicho ali é gigante.
Já exportamos para a China e isso não nos está a parar, a limitar ou a fazer perder prazos na entrega. Que venha a oportunidade de trabalhar com os EUA. Capacidade de produção? Todo o ciclo de negócio está criado. A questão não é a falta de produto. Vendemos mel em frasquinhos de 40gr, não ao kg. E temos uma força de vontade muito grande para trabalhar.

E que barreiras antecipam?
Logo à partida, as rotulagens. Por exemplo, uma coisa muito simples: temos isto em gramas e vamos ter de colocar em oz. temos de estudar tudo. Já abordei países em que simplesmente é impossível comercializar lá porque legalmente só podem consumir mel daquela zona. Nos EUA não, mas no que toca a produtos orgânicos tem legislações restritivas. 





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