Bitcliq: "Olho grande” das Caldas entra em águas tailandesas

A plataforma de gestão de frotas de pesca, chamada “Big Eye Smart Fishing”, surgiu numa expedição de Pedro Manuel no Gana e está a apostar na rastreabilidade digital, seguindo o peixe do mar ao supermercado.
Bitcliq: "Olho grande” das Caldas entra em águas tailandesas
Pedro Manuel, 43 anos, é o fundador e presidente executivo da Bitcliq.
Paulo Duarte
António Larguesa 05 de julho de 2017 às 10:52
Há mais de 30 anos, Pedro Manuel saía da escola e acompanhava o pai, técnico de telexes, na visita a clientes das fábricas de peixe em Peniche. A influência familiar levou-o a estudar electrónica, telecomunicações e informática, e a seguir carreira na área das tecnologias. Mas foi só em 2014, poucos meses após vender a quota na MakeWise, que fundara dez anos antes, que o engenheiro das Caldas da Rainha reencontrou nessa mesma indústria da pesca a "área de enfoque que permitia fazer projectos mais internacionais" com a Bitcliq.


A Bitcliq está a levar a "Indústria 4.0" até ao mar e quer subir na cadeia de valor até à grande distribuição.


Tudo começou a partir de um contacto antigo no sector das conservas, cujo fornecedor de atum estava em apuros e a precisar de auxílio por dificuldades de gestão operacional da sua frota de pesca. O empreendedor viajou então para o Gana para avaliar essa possível oportunidade, que, além de ser no estrangeiro, até estava "alinhada com o objectivo de explorar outros mercados". E no país africano apercebeu-se que "aquilo era uma área de negócio grande a nível global e com um défice de novas tecnologias, que iria precisar, com certeza, de se modernizar e aplicar soluções" que a equipa portuguesa, actualmente com oito colaboradores, tinha competência para desenvolver.

O principal produto da empresa, que teve o investimento recente de um "business angel", é o "Big Eye Smart Fishing", uma plataforma de gestão operacional, em tempo real, para frotas de pesca comercial, que usa tecnologias como a Internet das Coisas, a "cloud", o "big data" ou a inteligência artificial, levando a "Indústria 4.0" até ao mar. Mas é mais do que um sistema para gerir essas autênticas fábricas no oceano, já que toca vários intervenientes - pesca, indústria ou retalho - de uma cadeia que é global: o peixe pode ser pescado em África, transformado na Europa e consumido nos EUA.

Google da rastreabilidade

A rastreabilidade digital do produto "desde a primeira milha" é a funcionalidade mais recente, permitindo saber a origem do peixe, quando foi pescado, qual o barco usado e a tripulação, se cumpria todas as condições laborais ou se foi uma pesca sustentável. Pedro Manuel frisa que "tudo isso importa e é cada vez mais valorizado por quem está a comprar a mercadoria", seja o processador da matéria-prima ou depois a grande distribuição. A primeira versão do motor que organiza toda essa informação - a que internamente chamam "o Google da rastreabilidade" - foi desenvolvida no ano passado "em estreia cooperação" com uma empresa americana de conservas, sendo "um produto que pode vir a ser aplicado a qualquer cliente desta indústria".


2013
Criação da Bitcliq
Pedro Manuel fundou a empresa há quatro anos depois de vender a MakeWise a um sócio. Antes passara pela Janela Digital.

75%
Quota da Ásia
Três em cada quatro peixes consumidos em todo o mundo são provenientes da pesca realizada nos mares do continente asiático.


Com uma facturação acima dos 220 mil euros em 2016, mais de metade nos mercados externos, além de Portugal, Gana e EUA, a Bitcliq tem um cliente francês que gere marcas de produtos de origem marinha e está agora a "dar os primeiros passos" para a entrada na Tailândia. É a porta para outros países asiáticos, como Indonésia, China, Japão e Filipinas, numa região "prioritária" para a empresa, pois dali provém 75% do peixe que é consumido a nível mundial.

raio-x

Software dá dinheiro com margem futura

A Bitcliq foi das primeiras a entrar no negócio da rastreabilidade alimentar, em crescimento e disputado por muitas novas empresas.

Segmento de valor e mais concorrencial
 O negócio da rastreabilidade alimentar valerá cerca de 14 mil milhões de dólares até 2019, segundo um estudo recente.
 O potencial deste mercado tem aumentado a concorrência. Entre os principais estão a Marine-Intruments, Transparency-One, CLS, Trackwell, Satlink, Succorfish.

Software e inovação garantem receitas
 As licenças do software e o financiamento para projectos inovadores, como o feito nos EUA, são as maiores fontes de receita.
 A instalação do hardware nos barcos já é uma receita residual. No futuro até deverá ser gratuito, pagando o cliente só a utilização.

Estados a regular e start-ups a brotar
 Numa área muito regulada pelo Estado, estas tecnologias têm de passar por uma validação. E cada país tem regras diferentes.
 Outra ameaça, que o gestor vê também como uma oportunidade, é o aparecimento de start-ups na área da indústria agro-alimentar, pesca e aquacultura. "Se há mais gente é porque há negócio", frisa.



Perguntas a Pedro Manuel
Fundador e CEO da Bitcliq

"Isto é uma corrida. Temos de acelerar"

O líder da Bitcliq acredita que os EUA valorizam a informação sobre a matéria-prima.

Qual a vantagem de estarem nos Estados Unidos?
É captar uma dinâmica que nos pode projectar para uma escala global mais rapidamente do que estarmos apenas na Europa. Isto é uma corrida. Ainda há pouco começou, já estamos a correr há algum tempo, mas agora temos de acelerar para não ser ultrapassados. É uma questão agora de ganhar a projecção necessária porque temos bons parceiros, conhecimento técnico e pessoas para podermos alargar a equipa.

Tendo a ambição de nos tornarmos numa tecnológica de referência no sector, talvez tenhamos de, de alguma maneira, passar pelos EUA.

O que querem conseguir lá?
Há mercado para aplicação prática da nossa tecnologia, mas é também onde as grandes tecnológicas se destacam. E, tendo a ambição de nos tornarmos numa empresa tecnológica de referência neste sector, talvez tenhamos de passar por lá de alguma maneira.

E valoriza comercialmente a vossa solução?
É dos mais desenvolvidos para valorizar a informação sobre a matéria-prima, em termos da sustentabilidade e da responsabilidade social. Há frotas de todo o mundo a abastecer o mercado americano e temos de trabalhar muito bem junto dos industriais, do elo final da cadeia, que é onde está o maior valor acrescentado e quem pode fazer pressão sobre quem pesca. 





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