Blockchain, a revolução que vai mudar hábitos e negócios

Não há dúvida que a implementação da blockchain vai mudar hábitos e modelos de negócio. Esta tecnologia revolucionária promete criar uma nova economia, disruptiva para o negócio dos bancos e onde a protecção de dados é crucial. Contudo, desafios regulatórios e tecnológicos limitam, para já, a aplicação total de soluções que têm por base a blockchain.
Patrícia Abreu 28 de setembro de 2017 às 12:05
Paolo Cederle, da Everis, antecipa mudanças profundas no sistema financeiro.

"Os bancos vão ter que reinventar-se"

A blockchain poderá ter um impacto mais profundo na economia do que a Internet, mas o processo de adopção desta nova tecnologia não será repentino e sim gradual. Esta é a expectativa de Paolo Cederle, executivo global para a inovação e serviços financeiros da Everis, que alerta que o sistema financeiro enfrenta sérios desafios. Os bancos terão que reinventar-se e encontrar o seu lugar nesta nova realidade, caso contrário podem desaparecer.

O sector financeiro é um dos mais activos na implementação de projectos para testar a aplicabilidade da blockchain. E, segundo Paolo Cederle, a banca será um dos sectores mais afectados por aquela que considera ser uma revolução maior que a Internet. Ainda que antecipe uma implementação gradual desta nova tecnologia, o responsável da Everis não tem dúvidas que a "blockchain vai mudar completamente o mundo dos serviços financeiros".

O executivo da Everis lembra que, na era blockchain, serviços como os pagamentos ou as transacções serão realizados sem intermediários. "Os bancos vão ter que reinventar-se. Se vão existir dentro de 20 anos? Não sei, mas não vão prestar os mesmos serviços". Assim, resta ao sector focar-se no valor que vai conseguir dar aos clientes. "A blockchain vai mudar o modo como os bancos operam", remata Paolo Cederle.

Mas não será apenas a banca a ser afectada pela blockchain. Segundo a Gartner, dentro de dez anos, um terço dos negócios vai usar a blockchain. Até lá ainda há muitos desafios a ultrapassar. 


Gonçalo Veiga de Macedo alerta para os riscos ao nível da regulação.

O desafio de legislar um algoritmo

As potencialidades da blockchain são imensas. Mas também o são os desafios. E um dos mais proeminentes é a regulação. Gonçalo Veiga de Macedo alerta para a incerteza sobre o enquadramento regulatório sobre esta nova tecnologia, acrescentando que persistem várias barreiras jurídicas.

"As criptomoedas estão fora da alçada da regulação", explica o advogado da Linklaters, adiantando que, no caso da blockchain, há também ainda várias questões para responder, de modo a evitar este vazio legal, como acontece com a bitcoin. Para o jurista, questões como saber sobre quem recai a responsabilidade pelo funcionamento do livro-razão, protecção de dados pessoais e a sua remoção do sistema, ou ter conhecimento de quem valida que a informação existente e produzida na blockchain é correcta, verdadeira e actualizada para efeitos legais são alguns dos grandes desafios, para os quais ainda não há resposta.

Mas as preocupações jurídicas não se ficam por aqui. O facto de a blockchain implicar uma partilha de informação entre os vários intervenientes do mercado pode também ter impacto ao nível da concorrência. Há "riscos na área da concorrência associados a múltiplos participantes de um sector a trabalhar em conjunto para desenvolver aplicações blockchain e 'standards' da indústria", alerta Gonçalo Veiga de Macedo.

Assim, "qualquer 'standard' adoptado por múltiplos bancos (por exemplo), deverá ser elaborado de forma justa e não impedir os concorrentes de se diferenciarem", conclui.


Isacc Arruebarrena antecipa grandes mudanças nas transferências.

Mandar dinheiro como um email

A área dos pagamentos e das transferências é um dos sectores onde a blockchain pode introduzir alterações significativas. Isacc Arruebarrena, da Everis UK, acredita que esta nova tecnologia vai facilitar estes processos, tornando as operações imediatas. Enviar dinheiro será tão rápido quanto mandar um email.

"À medida que os bancos e outras instituições financeiras adoptam padrões abertos como a Interledger para se ligarem entre si e com outras redes de blockchain vamos ver a Internet das Coisas emergir", explicou Isacc Arruebarrena, gestor de programas da blockchain na Everis UK. O especialista argumenta que esta tecnologia revolucionária vai permitir transferências de activos digitais, baixando o custo de transferir e aumentando transacções contínuas.

Segundo Isacc Arruebarrena, actualmente as transacções entre países são realizadas com base em tecnologias antiquadas, o que acaba por tornar estas operações caras, lentas e propensas a erros. Com a proliferação de plataformas de blockchain, estes erros vão ser eliminados, uma vez que as operações serão confirmadas na própria rede e concluídas de imediato.

E esta é uma área onde já estão a ser realizados alguns avanços. "50 bancos japoneses estão actualmente a integrar [uma solução] com a RippleNet, através da xCurrent, para realizar pagamentos em tempo real", refere o responsável, acrescentando que o teste inclui entidades credíveis como o Mizuho e o Bank of Tokyo Mitsubishi.

Neste sentido, a Everis e a NTT Data estão a desenvolver o Interledger Java, para facilitar transacções em tempo real entre bancos, sistemas de pagamentos e plataformas de mercado de capitais.


Álvaro Mier Trujillo diz que estamos a meio de uma revolução.

Uma economia onde os dados são tudo

Apesar dos muitos projectos de teste em desenvolvimento, a blockchain ainda está longe de estar implementada no mercado. Mas, para Álvaro Mier Trujillo, CCO da Riddle & Code, estamos "no meio de uma revolução", num processo onde "os modelos de negócio são baseados em dados". E a blockchain é um fenómeno que, apesar de ser aberto para todos os participantes, "caminha bem entre o anonimato e a privacidade".

Ainda que a blockchain seja, para já, uma promessa de revolução, Álvaro Trujillo lembra que eventos como a Internet das Coisas, as impressoras 3D, os carros eléctricos ou a distribuição de conteúdos a custo zero através da internet são fenómenos que já estão a provocar mudanças significativas na sociedade, no sentido de criar uma nova economia.

Mas como será a economia do futuro? Para o CCO da Riddle & Code, uma produtora de soluções com base na blockchain, as indústrias serão mais flexíveis e descentralizadas, os modelos de negócios baseados em dados e as pessoas terão que tornar-se responsáveis pelas suas acções. Contudo, "se a informação for comprometida, todo o sistema o é". E é este o principal desafio.

Segundo Álvaro Mier Trujillo, os grandes fundos estão a travar investimentos em criptomoedas devido à forma como as palavras-chave são guardadas, num sistema inseguro. A Riddle & Code garante que tem "a solução para tornar as senhas privadas seguras e convenientes, ao mesmo tempo", numa plataforma que junta o hardware e o software.


Marta Piekarska destaca os benefícios da interacção para criar soluções.

Usar a interacção para criar soluções

Uma das grandes vantagens da blockchain é permitir a partilha de informação. E é partindo deste princípio de partilha que a Hyperledger convida vários intervenientes para interagirem no sentido de encontrarem novas soluções que tenham como base esta tecnologia revolucionária.

"Nós fornecemos o ecossistema e convidamos os intervenientes a interagir", explica Marta Piekarska, directora de ecossistemas da Hyperledger, que funciona junto da Fundação Linux. É uma comunidade de software aberta e colaborativa, que tem como objectivo desenvolver tecnologias de blockchain para várias unidades de negócio.

Marta Piekarska lembra que a Hyperledger conta actualmente com 60 projectos abertos que estão a discutir soluções com base nesta tecnologia que está na origem da bitcoin, mas que, tal como lembra a responsável, "tem muito mais aplicações" que a criptomoeda. E são essas aplicações que os membros da Hyperledger procuram desenvolver.

A função da Hyperledger é precisamente garantir que todos os participantes da comunidade estão preparados para partilhar ideias e trabalhar em equipa, no sentido de promover a inovação. "Temos de ter a certeza que há uma interacção, para os membros estarem confortáveis para trabalharem juntos". E todos são bem-vindos no grupo de discussão.

O objectivo é encontrar soluções que se adaptem às várias indústrias, pois as soluções têm de ser ajustadas ao sector de actividade a que se destinam.




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Anónimo Há 3 semanas

Por exemplo, os 2200 excedentários que não têm as competências dos 100 que entrarão na CGD por ano até ao fim desta década, podiam oferecer o seu trabalho a outros empregadores e ir apanhar fruta ou servir onde há procura. Os que entrarem na CGD terão competências nas áreas emergentes e necessárias que vão da ciência de dados e análise de dados à programação informática, tecnologia blockchain e cibersegurança. Os excedentários protegidos pela lei laboral anacrónica e máfias sindicais têm competências inúteis ou desnecessárias para o empregador CGD nas áreas da contabilidade, jurisprudência, secretariado, relações públicas e operação de caixa. Chama-se a isto gestão de recursos humanos e é prática corrente nas economias mais desenvolvidas desde há pelo menos 20 anos. Em Portugal é preciso deixar as organizações falir, mendigar subsídios e resgates estatais, pilhar e extorquir o concidadão e depois ser obrigado pela União Europeia a cair na realidade e tomar medidas sob pressão externa.

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