Casos práticos: Transformar para gerir melhor

A inteligência artificial já está a modificar negócios em Portugal. Galp, EDP e Worten têm projectos no terreno que podem representar poupanças de muitos milhões de euros.
Casos práticos: Transformar para gerir melhor
Nuno Miller da Worten, Jorge Simões da EDP e Gonçalo Oliveira da Galp (da direita para a esquerda) partilham experiências com Inteligência Artifical.
Inês Lourenço
Casa dos Bits 20 de junho de 2017 às 15:42
Chegou a hora de as empresas modernizarem as suas estruturas de negócio e entrarem na chamada transformação digital, mas para quem tem em cima da mesa uma panóplia de tecnologias, um orçamento que não é infinito e a pressão de não prejudicar o curso normal de um negócio que vale milhões, a responsabilidade das decisões é grande. Galp, EDP e Worten partilharam experiências no segundo Digital Lab e admitiram que estão a trabalhar em várias frentes. Os "bots", uma das grandes tendências do momento, estão na lista de projectos em curso. No caso da eléctrica a utilização destes programas autónomos está a ser considerado para fazer o tratamento dos pedidos mais simples que chegam ao centro de serviços, deixando mais tempo às equipas para endereçar outras questões, admitiu Jorge Simões, assessor do conselho de administração da EDP Inovação.

Na Galp há experiências em áreas semelhantes (resposta aos "tickets" do "helpdesk", por exemplo), mas os responsáveis concordam que é preciso uma abordagem mais global para tirar benefícios da tecnologia e admitem que um dos grandes desafios atuais está em perceber onde vale a pena investir. É preciso experimentar, testar a maturidade das tecnologias num espaço de tempo relativamente curto e não embarcar em modas, como sublinhou Gonçalo Oliveira, CIO da Galp.


Os "bots" são uma das grandes tendências do momento e há projectos em curso.


A quem lidera hoje os departamentos de TI das maiores organizações nacionais coloca-se ainda outra questão. São gestores que não cresceram com as tecnologias que estão a provocar disrupção. "Ainda temos uma noção dentro das empresas muito distante daquilo que se pode fazer", defendeu Nuno Miller, responsável de TI da Worten.

Na sua perspectiva, a solução passa por levar para as empresas, em grande número, pessoas com competências nativas em áreas com a inteligência artificial e outras com o mesmo potencial transformador, que ajudem a alterar mentalidades e reforçar "know-how".

"Estamos no início da viagem", admitiu Gonçalo Vieira e o caminho é longo. Integra várias dimensões, incluindo uma dimensão cultural relacionada com a alteração de processos, mas a mudança é inevitável porque o teor do negócio também mudou, como exemplificou Jorge Simões com o caso concreto da EDP.

"Durante 100 anos olhámos para a energia como uma rua de sentido único. Isso mudou quando cada consumidor se tornou também um potencial produtor de electricidade e essa energia passou a poder ser injectada na rede pública". As tecnologias preditivas tornaram-se indispensáveis para ajudar a empresa a perceber o que vai acontecer amanhã e a preparar-se para isso, uma capacidade que as três empresas estão a aproveitar em várias frentes.

IA: Galp poupa 200 milhões de dólares por cada furo certeiro

A Galp está a fazer da inteligência artificial (IA) um aliado para ganhar vantagem no mercado da exploração petrolífera, onde compete com empresas de dimensão superior. "A tecnologia na exploração de petróleo é uma das poucas ferramentas que nos pode dar oportunidade de equilibrar as coisas no terreno", admitiu Gonçalo Oliveira, CIO da empresa.

A tecnologia é usada para interpretar informação e guiar a companhia na escolha do local para fazer o próximo furo, à procura de petróleo. Tradicionalmente este é um trabalho do geólogo, que identifica padrões e com base nisso define as probabilidades. A empresa ainda mantém a análise humana, mas cruza esses dados com a análise feita pelas máquinas. Aumenta a probabilidade de fazer um furo certeiro e de rentabilizar investimento, já que cada furo representa um investimento de 200 milhões de dólares, revelou Gonçalo Oliveira.
Nas refinarias a acção humana também já se combina com a da tecnologia. A maior fatia do negócio de distribuição da petrolífera depende do aproveitamento do crude no processo de refinação. Centrais como Sines contam com sistemas inteligentes, a analisar informação e fornecer recomendações de decisão "embora o humano ainda não tenha tirado a mão do volante".



EDP deu inteligência à gestão de ativos  

A EDP é hoje o quarto maior produtor mundial de energia eólica, com um parque considerável de equipamentos espalhados pelo mundo. A inteligência artificial ("deep" e "machine learning") está a ser usada no apoio à gestão de activos. A tecnologia é usada para interpretar a informação de milhões de sensores instalados nas turbinas, que a cada hora geram mil milhões de "datapoints". Como explicou Jorge Simões, assessor do conselho de administração da EDP Inovação, nem toda a informação gerada é aproveitada, mas muita serve para "aferir a saúde do activo" e perceber "quanto da sua vida útil já foi gasta". É uma forma de poder planear intervenções antecipadamente, evitando paragens ou perdas, afinando as estimativas às condições de funcionamento e ao esforço concreto de cada turbina. É o mesmo tipo de política que o grupo está a aplicar para fazer a manutenção preditiva em centrais de ciclo combinado, calculando e monitorizando a cada momento bandas aceitáveis de variação. Registos fora dos padrões ajudam a detetar problemas com uma antecedência de três a seis meses, explicou Jorge Simões. Na área da cibersegurança a EDP recorre ao "machine learning", para ajudar a processar os 500GB de dados que passam pelo seu Security Information Officer a cada hora.



Worten aposta tudo em vender o produto certo na hora certa

Entregar o produto certo na hora certa é a intenção na base de qualquer investimento da Worten em tecnologia, admitiu Nuno Miller, responsável de TI da empresa do grupo Sonae. "O nosso foco é tentar garantir o produto correcto, com o preço correcto para o consumidor e conseguir espicaçá-lo para outras compras", descreve.

Nesta linha, ganhar eficácia no "cross-selling" é uma das áreas onde a empresa tem investido em força e onde reconhece que continua a ter muito para fazer, um domínio onde também cabe o esforço de promover uma integração cada vez melhor entre canais de vendas.

O marketing direccionado é outra área que tem absorvido os esforços de inovação da Worten. "Investimos há anos em "data mining" e Big Data para conseguir dar o cupão de desconto certo para cada consumidor", concretizou Nuno Miller, que elegeu ainda uma terceira área de intervenção: a gestão de gama e produtos.

Aqui as tecnologias preditivas estão a ajudar a empresa a obter informação cada vez mais apurada sobre os produtos certos para cada loja. "Em vez de criarmos regras determinísticas conseguimos ver, em função da procura, o que faz sentido", um domínio onde a empresa pretende continuar a investir.






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