Enviesamentos nas decisões financeiras

À luz das finanças comportamentais, um dos enviesamentos cognitivos, identificados pela psicologia, que mais influencia as decisões de investimento é o excesso de confiança.
Enviesamentos nas decisões financeiras
Negócios 07 de dezembro de 2016 às 09:38
Num mundo perfeito, todas as decisões de investimento seriam tomadas segundo um processo decisório consciente, racional, sequencial com recurso a um elevado esforço e atenção no processamento de toda a informação disponível e relevante para esse efeito. Todos os participantes do Jogo da Bolsa teriam racionalmente constituído estratégias de investimento eficientes de forma a maximizar os seus ganhos atendendo ao seu perfil de aversão ao risco. No entanto, a tabela de resultados mostra que o mundo "real" nem sempre é assim tão racional e que os indivíduos incorporam nas suas decisões uma componente intuitiva e emocional.

A abordagem comportamental às finanças assume em definitivo que não são unicamente expectativas racionais que estão na base das decisões dos investidores, frequentemente os factores emocionais influenciam decisivamente a tomada de decisão. Com efeito, todos já ouvimos histórias de investidores, amigos ou familiares, que fizeram fortunas investindo nas chamadas "hot stocks". Alguns, poucos, batem o mercado; outros, muitos, não conseguem fazê-lo. Os primeiros ganham quase tudo o que os segundos perderam.

À luz das finanças comportamentais, um dos enviesamentos cognitivos, identificados pela psicologia, que mais influencia as decisões de investimento é o excesso de confiança ("overconfidence"). Um investidor "overconfident" está tão seguro de que as suas escolhas são as mais correctas que actua unicamente em função delas, descurando outros factores relevantes para a decisão. Em termos de investimento, o excesso de confiança pode ser prejudicial para a rendibilidade de uma carteira resultando num anormalmente elevado número de transacções decorrente de um excessivo rebalanceamento. Descontando os custos de transacção, frequentemente as acções vendidas proporcionam uma performance superior às compradas. Paralelamente o enviesamento resulta, frequentemente, em carteiras pouco diversificadas. Se temos a certeza de que estamos certos, porquê expulsar risco específico das carteiras? Por fim, o excesso de optimismo/confiança é comummente identificado como principal factor explicativo da explosão do volume de transacções online suportado pela falsa impressão de controlo dos acontecimentos. De facto, estudos empíricos têm confirmado que, após começarem a dar ordens de compra e venda online, os investidores transaccionam mais activamente, de forma puramente especulativa e menos lucrativa, obtendo rendibilidades abaixo da média do mercado.

Este tipo de comportamento, mais frequente do que imaginamos, contraria duas regras base que devem ser tidas em conta pelos investidores: estabilidade temporal, de modo a diluir os custos de transacção; e diversificação, não pondo todos os ovos no mesmo cesto.

As observações dos comportamentos dos investidores levam-nos a concluir que é irreal admitir que o indivíduo, profissional ou não, agirá sempre de forma puramente racional. E, surpreendentemente (ou não!), os estudos empíricos na área das finanças comportamentais têm demonstrado que existem diferenças de género significativas na actuação dos investidores: em média, tem-se comprovado que as investidoras cometem menos erros do que os investidores, devido a uma maior aversão ao risco. Pelo mesmo motivo, os mais jovens tendem a cometer mais erros do que os menos jovens. n


Luís Oliveira
Docente do Departamento de Finanças da ISCTE-IUL Business School

Inês Oliveira
Risk Manager Banco Bilbao Vizcaya


(A redacção deste texto está de acordo com a antiga ortografia)






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