Gabriela Sousa: O desafio da imuno-oncologia

Os próximos anos vão ser marcados por esta terapêutica que implica uma nova organização e relação com o doente.
Gabriela Sousa: O desafio da imuno-oncologia
David Martins / CM
Filipe S. Fernandes 18 de Outubro de 2016 às 17:05
"O cancro é a segunda causa de morte em Portugal, contudo é a primeira causa de morte prematura abaixo dos 75 anos. Isto tem um enorme impacto económico e social a esta doença, que muitas vezes é acusada de beneficiar de um estatuto especial, que vem em conformidade com o impacto que o cancro tem na vida das pessoas e das famílias", afirmou Gabriela Sousa, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia.

"Nos últimos anos temos assistido de uma forma transversal a toda a medicina a uma evolução biotecnológica que nos tem permitido evoluir no diagnóstico ao nível molecular, pelo que conseguimos ter ganhos significativos ao nível do tratamento. Hoje em dia são poucos os casos de cancro de determinada localização que se tratem todos da mesma maneira. Com esta mutação molecular conseguimos evoluir e desenhar para cada alvo molecular as terapêuticas dirigidas. Isto traz um enorme impacto em termos de sobrevivência dos doentes, mas sobretudo conseguimos melhorar significativamente a qualidade de vida. Deixamos em muitas situações de fazer a quimioterapia, de que todos conhecem os efeitos nefastos que traz aos doentes e às suas famílias, para nos dirigirmos mais em termos terapêuticos e ser mais assertivos", sublinhou Gabriela Sousa. Adiantou que "com esta inovação terapêutica dirigida temos conseguido diminuir a mortalidade do cancro e hoje em dia nos países da OCDE quando estudamos qual foi o impacto registado na mortalidade é atribuído à inovação terapêutica 73% desse impacto".

A situação mais complicada é que de facto o custo que temos associado aos medicamentos não acompanha em proporção directa o impacto que temos na sobrevivência, o que seria desejável. "Estes medicamentos entram em de-senvolvimento pela fase mais tardia da doença porque a oportunidade para trazer esses fármacos para fases mais precoces da doença aumenta muitas vezes significativamente a probabilidade de cura. Se não conseguirmos pagar ou trazer ao doente o fármaco em fase mais avançada nos limitamos o seu uso em fases de doença mais precoce", referiu Gabriela Sousa.
cotacao A inovação na oncologia vai para além da inovação no tratamento. Os cuidados passam a estar centrados no doente. 
Hoje em dia para duplicarmos a sobrevivência pagamos 125 vezes mais. Este é o grande desafio para a oncologia salientou Gabriela Sousa. Mas o impacto da sobrevivência não pode ser a única medida para estes fármacos. Há outras métricas como o perfil de efeitos secundários, a qualidade de vida, o controlo e eficácia, o impacto social com o regresso à actividade laboral, o contributo familiar. São tudo métricas e medição de valor que podem ser hoje reportadas pelos próprios doentes e que temos apelado para que o nosso sistema comece a incluir avaliações de desempenho do medicamento transmitidas pelo próprio doente que são já incluídas pela Agência Europeia do Medicamento e a FDA.

A inovação na oncologia vai para além da inovação no tratamento. "Os cuidados passam a estar centrados no doente. Temos de mudar algumas questões organizativas, de adaptar as nossas estruturas de saúde para termos os cuidados mais centrados no doente, melhorando alguma interligação processual entre as várias especialidades. Saliento a importância que é para a oncologia a multidisciplinaridade e a multiprofissionalidade", referiu. Na sua opinião "hoje tratar o doente oncológico é cada vez mais complexo, exige elevado nível técnico e científico, portanto, é muito importante a articulação nestas novas formas de fazer oncologia".






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