Jogo da Bolsa: Custos de transacção para o pequeno aforro: pesadelo ou realidade?

Artigo de Luís Oliveira, Professor da ISCTE-IUL Business School
Jogo da Bolsa: Custos de transacção para o pequeno aforro: pesadelo ou realidade?
Negócios 15 de novembro de 2017 às 11:23
A estória é simples e conta-se rapidamente. O Sr. Marcos Vitz, reformado da profissão de professor, procura rendibilizar uma poupança disponível durante os próximos 2 a 4 anos. Dada a muito reduzida oferta de oportunidades no mercado dos depósitos a prazo com rendibilidades aceitáveis (no passado mês de Outubro a Euribor oscilou, em média, entre -0.372% e -0.18% nos prazos de 1M e 12 meses, respectivamente) o Sr. Vitz dispôs-se a correr algum risco acrescido na expectativa de obter uma melhor remuneração, é dos livros. Na sua pesquisa, identificou uma emissão de obrigações de dívida privada, cuja subscrição estava a decorrer, no montante global de 65 milhões de euros corrrespondentes a 130,000 obrigações, prazo de 3 anos e taxa fixa de 4.25% (TANB) pagos ao semestre. Dado que o nível de risco de crédito percebido pelo mercado para esta emissão era similar ao da república, o Sr. Vitz avançou decididamente para esta oportunidade que, no seu entender, oferecia uma taxa de rendibilidade efectiva anual (chamemos-lhe simplesmente, yield) de cerca de 4.291%.

Na manhã seguinte dirigiu-se ao seu banco para dar uma ordem de subscrição de 2,000 obrigações e, dessa forma, aplicar uma parte substancial do seu aforro. No decorrer da conversa com o gestor, Dr. Faria Farinha, percebeu que as suas contas estavam um pouco enviezadas dado que o juro a receber em cada período estaria sujeito a retenção de 28% de IRS (o Sr. Marcos é extremamente averso a englobamentos). Tendo em conta este custo não antecipado a yield da aplicação sofria uma redução de cerca de 1.21 pontos percentuais, fixando-se em 3.081%. Ainda assim não estava mal. Outro dos encargos que o Sr. Vitz não incluiu nos seus cálculos foram as comissões a suportar pela guarda de valores mobiliários correspondente à abertura e manutenção de uma conta-títulos que corresponderia a um valor fixo de 37.28 euros/ano acrescido de IVA de 23%. A yield do investimento financeiro sofreu mais um valente rombo ao reduzir-se para 2.639%. A subscrição e o reembolso estavam sujeitos a comissões cobradas pelo banco de 0.22% e de 0.35%, respectivamente, que, depois de IS na 1ª e IVA na 2ª, delapidavam mais uma fatia da rendibilidade do investimento. A yield estava agora nuns singelos 2.418% e não ficaria por aqui. "Atenção Sr. Vitz considere nas suas contas a comissão sobre liquidação de juros. É que, sabe, alguém tem de debitar a conta da emitente e creditar a sua aquando da cobrança periódica do valor do cupão", avisou prudentemente o Dr. Farinha. Com efeito, o banco cobrava um valor fixo de 5.31 euros, acrescido de IVA, por essa operação. O Sr Vitz voltou a puxar da sua calculadora, BMI Scientific Calc 3.2, e rapidamente verificou que a rendibilidade do seu investimento estava a esvaír-se a um ritmo alucinante, agora já só contava com uma yield de 2.286%. Ainda assim… "Bem, Dr. Farinha, presumo que para creditar os juros na conta à ordem tenha que abrir uma aqui na instituição?» perguntou o Sr Vitz. "De facto, ainda bem que fala nisso" aproveitou de imediato o Dr. Farinha, esclarecendo que, o processo era simples e que a comissão cobrada era uma das mais baixas do mercado, 4.5 euros/mês já com impostos incluídos. A yield da aplicação do Sr. Vitz levou de imediato por tabela: 1.77%. Apenas mais um "detalhe", para garantir a subscrição o Sr. Vitz teria que deixar, desde logo, um depósito em numerário no valor total a subscrever, ou seja, 10,000 euros.

A ordem de subscrição, apesar de tudo, ficou efectivada: convenhamos que 1.77% ainda era interessante face a outras alternativas.

Mas o pior ainda estava para vir.

Vinte e cinco dias depois o Sr. Vitz recebeu a efectivação da sua ordem de subscrição. Como a procura tinha sido muito superior à oferta, procedeu-se ao rateio de obrigações. Lamentavelmente, o Sr. Vitz foi contemplado somente com 200 obrigações (1,000 euros). Ora, dados os elevados custos (fixos e variáveis) enunciados, a rendibilidade efectiva anual do investimento fixava-se em -6.641%. "Que está a dizer???", gritava desesperadamente o Sr. Vitz ao acordar.

Ufffa, que alívio! Afinal tudo não passou de um pesadelo. "Já agora", perguntou o Sr Vitz aos seus botões "qual seria o número de obrigações correspondente a uma yield nula?", "696", respondeu prontamente a BMI Scientific Calc 3.2. "Então, porque razão me atribuíram apenas 200?", questionava para consigo, ainda desconsolado, o Sr. Marcos Vitz.







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Sem dúvida um artigo do JN. deveriam todos ler, parabéns a este jornal

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