Jogo da bolsa: Gil Vicente, a bolsa, os investidores, o asno e o burro

Artigo de João Queiroz, Director da banca online do Banco Carregosa
Jogo da bolsa: Gil Vicente, a bolsa, os investidores, o asno e o burro
JOAQUIM NORTE DE SOUSA
João Queiroz 06 de novembro de 2017 às 11:37
Na Euronext Lisboa, junto dos emitentes, bancos de investimento, auditores e analistas que avaliam as empresas cotadas, todos deviam ler Gil Vicente. A "Farsa de Inês Pereira", de 1523, foi escrita a partir de um ditado, que continua popular quase 500 anos depois: "Antes asno que me carregue do que cavalo que me derrube." A peça vive da ideia de que "é melhor ter um homem feio que garanta o sustento da mulher do que homem bonito que a traia ou a deixe". É melhor ter uma coisa simples e certa do que sofisticada e incerta. E vem muito a propósito do "estranho caso das acções dos CTT".

Monopolista do serviço postal em Portugal, com uma história honrada e de boa memória, os CTT foram privatizados em 2013 e o seu capital disperso em bolsa. Fortes campanhas atraíram investidores particulares que aplicaram as suas poupanças em acções numa empresa que conheciam ao longo de toda a vida. As acções foram vendidas a 5,52€ a 5 de Dezembro de 2013.

Muito do sucesso da OPV deveu-se à promessa de pagamento de bons dividendos. A cotação subiu até ao máximo de 10,64 euros, em 14 de Abril de 2015. Os CTT tiveram um lucro de 72 milhões de euros em 2015 e de 62 milhões em 2016. Os resultados desciam, a distribuição de dividendos subia.

Todos os investidores gostam de receber dividendos. Mas os mais informados não gostam de receber dividendos mais altos do que o lucro. É um caminho eficaz para descapitalizar a empresa. Muito pior, se os dividendos forem superiores ao lucro.

Os lucros de 2017 devem rondar os 35 milhões de euros. E apesar da anunciada descida no dividendo (de 0,48 para 0,38€), a empresa quer distribuir 57 milhões de euros. São 160% dos lucros! A cotação dos CTT bateu na sexta-feira no mínimo de sempre, nos 3,55€ e sofreu várias recomendações que aconselham a saída do título.

Para os investidores particulares, será mais uma história a juntar a tantas outras: da Impresa à EDP, da EDP Renováveis à Pararede, da PT Multimédia à PT. A agora Pharol cota 75% abaixo do valor a que foi vendida bolsa em Junho de 1995!

Os grandes investidores são os primeiros a sair, deixando para trás pequenos investidores que têm mais dificuldade em entender os números, a informação da empresa e do mercado e as decisões das administrações. Essa informação também não é desenhada para que um cidadão médio a consiga entender.

Mas é pena. Uma bolsa com uma base de investidores particulares depende menos de grandes investidores estrangeiros. Os particulares são mais estáveis, a sua saída não provoca fortes quedas abruptas, apostam mais no longo prazo, não fogem do mercado mal o dividendo é pago e aceitam assumir algum risco perante uma remuneração razoável. Além disso, se realmente queremos que as empresas tenham menor dependência da banca, a solução é atrair o aforro dos particulares para o investimento em empresas.

Como na farsa de Gil Vicente: antes asno que me carregue do que cavalo que me derrube…