Jogo da Bolsa: Reviver o passado e a falácia do atirador do Texas

Artigo de Marco António Oliveira, Administrador do Caldeirão de Bolsa
Jogo da Bolsa: Reviver o passado e a falácia do atirador do Texas
Marco António Oliveira 03 de novembro de 2017 às 11:29
Vulgarmente conhecida como Texas Sharpshooter Fallacy, trata-se de uma falácia informal - ou seja, em traços rápidos, do tipo onde a conclusão que se retira não é devidamente suportada pelo argumento utilizado - consiste em realçar as semelhanças entre ocorrências que suportariam a tese enquanto se ignoram os dados que a contrariam. Assim como quem desenha o alvo depois de atirados os disparos, a metáfora que está na base do nome porque se tornou tão familiar. É que com esta metodologia... facilmente todos os tiros são certeiros.

Se dito assim parece comicamente óbvio, na prática a falácia é deveras frequente sem que os autores se apercebam que nela estão na verdade a incorrer. E, provavelmente, por razões de ordem psicológica - que a lógica subjacente essa é bastante acessível - difícil ainda de fazer com que o autor o reconheça. É particularmente frequente nos mercados financeiros, quando os investidores procuram identificar quais eram aquelas condições que se teriam reunido antes de determinada ocorrência, por exemplo, antes de uma inversão forte nos mercados. Como se encontravam os indicadores técnicos, os fundamentais ou o sentimento de mercado? Ou quando, ainda a um nível mais elementar, se conclui que "se estava mesmo a ver", que "obviamente estava barato". Ou caro. Ou que ia falir.

O erro está, é claro, em não verificar quantas vezes as condições se reuniram - ou quando se começaram a reunir - sem que a tal ocorrência se desse. Desde quando os fundamentais ou os indicadores apontavam para a inversão? Pois que não basta que se verifiquem quando a inversão se dá ou imediatamente antes. Quando é que se teria julgado que estava "barato"? Quando é que isso começou a ser "óbvio"?

Em boa verdade, este "óbvio" é um óbvio a posteriori. Nos mercados financeiros há poucos óbvios, especialmente óbvios do tipo que dão dinheiro. Trata-se pois de uma dificuldade em reviver o passado, visualizar o que se teria sentido se vivêssemos o momento de novo pela primeira vez. Por forma a retirarmos as conclusões adequadas ou não investirmos de seguida de forma incauta com base em falsos pressupostos.






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