O desafio de tornar a indústria sexy

Apesar de a indústria ser de longe o sector que mais contribui para as exportações, há sinais preocupantes no horizonte: há uma enorme falta de mão-de- obra qualificada.
O desafio de tornar a indústria sexy
Inês Lourenço
Bruno Simões 21 de dezembro de 2017 às 16:55
O crescimento das exportações tem sido notório ao longo dos últimos anos, mas a indústria, que representa mais de metade das vendas ao exterior, ainda sofre de um problema de afirmação junto dos jovens, que continuam a olhar para os serviços como porta de entrada no mercado de trabalho. É necessário inverter esse percurso e aumentar a atractividade da indústria, que ainda "não é tão sexy" como poderia, qualificou Carlos Palhares, CEO da Mecwide, empresa metalomecânica de Barcelos.

"O grande desafio é tentar inovar e tornar mais agradável trabalhar na nossa indústria; hoje um jovem quando começa a trabalhar" pensa nas caixas de um supermercado e não na indústria. "Temos que ter pessoas permanentemente a iniciar a sua formação" nesta área, afirmou o empresário. Porque actualmente "não existem quadros técnicos intermédios" e é necessário apostar neles para contornar a "falta de mão-de-obra qualificada".

O professor Alberto Castro, um dos jurados dos Prémios Exportação e Internacionalização, reconhece os problemas, mas prefere ver o copo meio cheio. "Portugal nunca teve tantos alunos do secundário a optarem pela via profissional", o que mostra que existe "uma mudança; a indústria tem potencial que vai ter de saber explorar". Pelo meio, recados aos patrões. "A CIP tem obrigação de, de algum modo, mostrar que a indústria acaba por ser uma actividade sexy, até por comparação".


43,5%
Ensino profissional
No ano lectivo 2014/2015, era esta a percentagem de estudantes portugueses que estava no ensino profissional.


Isto porque "criaram-se certos estigmas que levam a que a indústria" seja mais mal vista junto dos jovens, que pensam, em primeiro lugar, na "caixa de um supermercado" para trabalhar. E essa é uma profissão "mais pesada e incerta" do que a indústria, onde existem perspectivas de evolução e de valorização remuneratória.

Pedro Pereira, presidente da Berd, concorda que é também necessário colocar as universidades a dar "formação estratégica integrada" para a exportação. Na Faculdade de Economia do Porto "existem valências extraordinárias mas grande parte da universidade não está a ser preparada para esse desafio". Adicionalmente, embora haja "algum trabalho" dos ministérios, podia "ser feito muito mais no sentido de formar para a exportação".

Por outro lado, Gonçalo Lobo Xavier diz que é importante que exista uma parceria entre a indústria tradicional e as start-ups, que tradicionalmente são mais atractivas para os jovens. "É preciso aproveitar o 'know-how' e a capacidade de intervenção na economia na alteração de uma economia linear para circular", e "há muito a ganhar com a ligação entre indústria e start-ups", que "estão a ajudar em novos sistemas de produção e novas formas de venda".





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