Pneus usados para agir sobre a comunidade

Para o futuro a Casa da Esquina, espera reunir meios para conseguir construir um projecto-piloto que torne mais amplo o movimento dos sofás de pneus usados.
Pneus usados para agir sobre a comunidade
A Casa da Esquina tem trabalhado no espaço público como local de intervenção social e cultural.
Cristina Rufino
Filipe S. Fernandes 27 de dezembro de 2017 às 10:07
Pneus revestidos a tecido e entrelaçados podem ser sofás no espaço urbano mas também podem ser uma forma de "reclamar o espaço público e agir sobre ele" como referiu Filipa Alves da Casa da Esquina, uma associação cultural conimbricense. Foi assim que surgiu o projecto Pontos de Encontro a partir de uma proposta da Casa da Esquina para a Semana Cultural da Universidade de Coimbra em Abril de 2015.

"O objectivo era criar salas de estar ao ar livre em vários espaços da cidade de Coimbra, programando-os durante esse período com conversas, concertos, e também com programação proposta pelos cidadãos e cidadãs da cidade, havendo um espaço à disposição de quem quisesse aportar sugestões de actividades ou actividades concretas" relembra Filipa Alves da Casa da Esquina. Acrescenta que "estes espaços estrategicamente colocados serviram também para usufruir do património da cidade, principalmente em espaços do património em que esse tipo de equipamento não existia".

O pneu apareceu por inspiração do projecto Basurama, que faz intervenção no espaço público através da reutilização de lixo, mas também porque "é um material adequado para estar na rua, possuído a resistência e durabilidade suficientes para aguentar cerca de um ano" diz Filipa Alves. Por sua vez o tecido veio do Café Costura da Casa da Esquina, aproveitando-se os restos de tecidos feito na arte dos talegos ou das rodilhas. A ideia teve o apoio da Universidade, da Valorpneu, de donativos em tecido e de muitos voluntários que contribuíram para que o projecto seguisse em frente.

Meios de acção

Para Filipa Alves "foi um teste para saber se podíamos concretizar este projecto numa escala mais vasta". A adesão foi significativa e "uma das principais dificuldades foi manter todos os sofás até ao final do projecto, uma vez que alguns foram desaparecendo dos espaços e era necessário substitui-los regularmente. Outra dificuldade foi dizer que não a muitas solicitações de sofás que fomos tendo e às quais não podíamos dar resposta".

Para o futuro a Casa da Esquina, espera reunir meios para conseguir construir um projecto-piloto, "preferencialmente replicável em qualquer outro sítio do país com características idênticas, mas que seja um trabalho da Casa com a comunidade, a qual decidirá sobre a forma, o alojamento e a disposição das salas de estar ao ar livre de forma a conseguirmos passar a mensagem de que o espaço público é de todos e existe para ser usado".

Desde a sua génese que a Casa da Esquina tem vindo a trabalhar na ideia do uso do espaço público como local de intervenção cultural e social. "Na realidade interessa-nos promover fóruns de discussão que permitam incentivar a ocupação do espaço público pelos cidadãos e cidadãs e a sua participação na gestão dos mesmos. Reclamar o espaço público e agir sobre ele é um dos nossos objectivos" referiu Filipa Alves.

Novos materiais feitos de resíduos

O projecto necessita de ser completado a nível laboratorial e demonstrado a nível piloto. Só depois de se demonstrar a viabilidade técnica e económica da ideia se poderá passar para a escala industrial.

O projecto RoBUst tem como mote a "Valorização material e química de borracha de pneus" é uma parceria entre o LAQV-Requimte, Faculdade de Ciências e Tecnologia (FCT), Universidade Nova de Lisboa (UNL), e o CESAM da Universidade de Aveiro (UA).

A ideia do projecto, valorização material e química de borracha de pneus, como explica Nuno Lapa, "corresponde à evolução de trabalhos anteriores que o consórcio desenvolveu na área da valorização material e química de borracha de pneus e de outros resíduos de biomassa, no âmbito de um projecto nacional que foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia". A par disso, esteve na origem ao doutoramento de Maria Bernardo, que integra o consórcio, como pós-doc do LAQV-REQUIMTE (Laboratório Associado para a Química Verde).

Na base do interesse na valorização da borracha de pneus estão dois factores importantes. Por um lado, os pneus usados são produzidos anualmente em quantitativos muito elevados, o que torna complexa a sua gestão e uma das dificuldades é valorização e a reutilização desse contingente. Por outro lado, a borracha de pneus é constituída por uma grande diversidade de compostos químicos que podem dar origem a novos materiais e a novas substâncias com interesse para a indústria química e petroquímica. "O escoamento da borracha de pneus usados para a produção de novos materiais e produtos químicos pode garantir uma percentagem de escoamento importante destes resíduos, através de processos termoquímicos sustentáveis" explica Nuno Lapa.

O consórcio pretende continuar a procurar parceiros industriais que queiram/possam estar directamente envolvidos no desenvolvimento do projecto mas a principal dificuldade está "na identificação de parceiros industriais que possam estar envolvidos no consórcio".

No entanto, como assinala Nuno Lapa, "o projecto necessita de ser completado a nível laboratorial e de ser demonstrado a nível piloto. Só depois destas duas fases cumpridas e de se demonstrar a viabilidade técnica e económica da ideia se poderá passar para a escala industrial".