Rita Costa: "O equilíbrio técnico de alguns seguros não se encontra ainda assegurado"

"O mercado segurador português tem-se revelado historicamente resiliente" refere Rita Costa, partner de Advisory Financial Services da EY, e que conta com quase 20 anos na consultoria da gestão de risco, tendo passado pela Accenture e pela KPMG. Nos desafios salienta os que decorrem da legislação e da regulação, o digital, a adaptação às novas necessidades dos clientes e o "big data".
Rita Costa: "O equilíbrio técnico de alguns seguros não se encontra ainda assegurado"
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Filipe S. Fernandes 14 de março de 2017 às 12:10
Qual é a análise que faz à situação actual do sector segurador em Portugal?
O mercado segurador português tem-se revelado historicamente resiliente, mesmo na conjuntura macroeconómica adversa, à escala nacional e internacional, que se tem verificado nos últimos anos.

Começa a consolidar-se a recuperação de níveis de crescimento na produção dos ramos Não Vida. No ramo Vida verifica-se um decréscimo da produção que resulta da manutenção do ambiente de baixas taxas de juro, aliado à deterioração da capacidade de poupança e de investimento das famílias e das empresas nacionais.

Os níveis de solvência de 2016 só serão publicados em Maio. A posição de abertura do regime Solvência II revelou rácios globais de cobertura do requisito de capital de solvência de 126%.

Quais são as principais dificuldades do negócio segurador?
A manutenção do actual ambiente de baixas taxas de juro por um período tão prolongado é um desafio para as seguradoras Vida. O recente teste de stress realizado na Europa pela EIOPA veio revelar que para além das empresas nacionais participantes estarem expostas àquele cenário, estão também expostas ao cenário de "double hit", correspondente a choques nos activos em simultâneo com descida na taxa de juro sem risco. O panorama agrava-se se não forem tomadas em consideração as medidas de longo prazo ou a medida transitória prevista pelo regime de solvência.

Para as Seguradoras Não Vida destaco o equilíbrio técnico de alguns seguros que não se encontra ainda assegurado, não obstante que se tenham verificado alguns ajustamentos tarifários.

Quais são os principais desafios para o futuro?
Para além dos desafios decorrentes da entrada em vigor do Solvência II, a futura transposição da Directiva da Distribuição, a implementação da IFRS 17 (anteriormente designada de IFRS 4 fase 2), os PRIIPs (pacotes de produtos de investimento de retalho) e o Regulamento Geral sobre a Protecção de Dados, gostaria de destacar os aspectos relacionados com o digital, a adaptação às novas necessidades dos clientes e o "big data".

Na era digital, as seguradoras procuram redefinir as suas estratégias de distribuição e parcerias. A crescente dinâmica do digital no dia-a-dia dos consumidores, em particular das novas gerações, tem vindo a impulsionar também o sector dos seguros, a transformar o seu modelo de negócio, que tem apostado cada vez mais na inovação tecnológica. Uma das principais conclusões do recente survey da EY - "The agent of the future" - revela que o mediador do futuro está a surgir como um conselheiro proactivo num mundo digital.

A adaptação do modelo de negócio às novas necessidades dos clientes, em particular dos "millennials", é outro desafio. Ouvimos já falar em modelos de seguro "on-demand", adaptados às necessidades específicas de cada cliente, ou modelos de seguro de "pay as you live", que recompensam estilos de vida mais saudáveis. Importa saber como o sector irá conseguir adaptar-se e antecipar as necessidades de um cliente cada vez mais exigente, informado, solicitando modelos mais simplificados e ágeis, mas sem assumir riscos que não tenham sido correctamente avaliados, mantendo a sua qualidade de serviço e a sua reputação.

As potencialidades do "big data" e da capacidade de análise de volumes de informação cada vez maiores, extraindo daí elementos de decisão relevantes e precisos, em tempo útil, constituem também um dos principais desafios - e oportunidades - para o mercado segurador.




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