Poupança em mínimos. Devemos estar preocupados?

A poupança das famílias portuguesas afundou para 5% do seu rendimento disponível. É o valor mais baixo desde que existem dados para este indicador. Será isso motivo de preocupação para o futuro da economia nacional?
Poupança em mínimos. Devemos estar preocupados?
Bloomberg
Nuno Aguiar 29 de outubro de 2015 às 23:25
A taxa de poupança já não é uma fonte de boas notícias. Os últimos trimestres trouxeram quedas sucessivas deste indicador que já está no valor mais baixo de sempre, pelo menos desde que o INE começou a publicar dados (1999). Quando ela tinha atingido mínimos em meados de 2008, a preocupação foi muita. Devemos agora temer as consequências ou os sinais que a poupança nos está a dar?

Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) para o ano terminado no segundo trimestre, em média, os portugueses poupam apenas um em cada vinte euros do seu rendimento. Isto é, observa-se uma taxa de poupança de 5%, abaixo dos 5,9% do trimestre anterior. O anterior mínimo tinha sido registado entre Abril e Junho de 2008, quando atingiu os 5,3% do rendimento disponível.

Por trás desta evolução está o facto de as famílias estarem mais confiantes sem que os seus rendimentos estejam a reflectir esse maior optimismo. "A redução da taxa de poupança explica-se pelo aumento mais acentuado do consumo do que do rendimento disponível", refere Paula Carvalho, economista-chefe do BPI. "O comportamento das famílias, na gestão do seu rendimento disponível acaba por estar em linha com a evolução dos indicadores de confiança e de sentimento que têm traduzido uma apreciação mais favorável em relação às perspectivas no mercado de trabalho, situação do agregado familiar e mesmo a situação económica global."

Filipe Garcia, da IMF, faz a mesma avaliação, notando que "a evolução recente da taxa de poupança terá como alicerces o aumento da confiança e do crédito disponível". "Haverá uma quantidade nada irrelevante de famílias que não têm hoje capacidade de poupar, como já não tinham antes. Nessas, nada se alterou. É nas famílias com mais rendimentos que estas flutuações se verificam", acrescenta.

O INE explicava que a redução da poupança resultou de um aumento do consumo (variação de 1%) substancialmente superior à evolução dos rendimentos (0,1%). De referir que, durante alguns dos períodos mais graves da crise, aconteceu o contrário: o consumo afundou mais do que o rendimento.

Em 2012, o primeiro-ministro queixou-se da poupança excessiva dos portugueses ter provocado uma recessão mais forte da economia portuguesa. Hoje, a narrativa virou-se ao contrário. Está na altura de começarmos a ficar preocupados com valores tão baixos de taxa de poupança? "Se continuar, sim é preocupante num país em que a taxa de investimento está em valores mínimos históricos, em que o crescimento potencial é muito baixo e quando os níveis de endividamento são ainda muito elevados, de empresas, famílias e do país como um todo face ao exterior", responde Paula Carvalho que, no entanto, antecipa que a queda da poupança será interrompida, devido à incerteza da conjuntura externa e a uma maior instabilidade política.

Para algumas famílias pouco mudou, aponta Filipe Garcia. Os muitos que não tinham margem para poupar continuam na mesma situação. Quanto aos efeitos na actividade, o economista da IMF sublinha que "há uma parte muito importante do consumo privado que é satisfeita através de importações, gerando défice comercial". Logo, mesmo sendo atractivo "mostrar" mais consumo no futuro, se ele for feito assentando no endividamento externo, parece-me ser um caminho perigoso e que nos levou ao resgate em 2011", conclui.






A sua opinião10
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
mais votado AJMNunesdaSilva 30.10.2015

O aumento de consumo será das famílias portuguesas ou de turistas?
Será que é alarmante um desempregado não aforrar?
São perguntas que me parecem pertinentes pois não consta ter havido aumento de salários e pensões, a estatística diz ter havido redução de empregos e muitos dos que há são a salário mínimo!

comentários mais recentes
PCarlos2015 03.11.2015

É evidente que a poupança dos portugueses, só pode estar em mínimos. Devido sobretudo, a estas duas medidas aplicadas por este governo, desincentivando à poupança, aplicou uma brutal carga fiscal sobre os portugueses e aumentou a taxa IRS aplicada sobre os rendimentos dos depósitos bancários para 28% (um erro muito grave!). A isto ainda somamos, as taxas juro oferecidas pelos bancos, que são quase zero. Valerá a pena amealhar poupanças em Portugal?

DantasPt 01.11.2015

A taxa de consumo permance na mesma, significa que a poupança não se dá por motivos do consumo, mas porque o 1 ministro decretou a miséria, e na miséria a poupança é impossível

Anónimo 31.10.2015

Detesto estes números. Deveriam mostrar, a média, mediana, desvio padrão e moda. Sem isto, apenas com a média, a mais falaciosa de todas as métricas, nada dá para analisar.

Jorge Alves 30.10.2015

Poupança e a Segurança Social...cuidado, muito cuidado. Estão a matar tudo!

ver mais comentários
pub
pub
pub