Os caminhos para Portugal

Três perspectivas do caminho que Portugal deve seguir. Patrique Fernandes, advisor lead partner da PwC diz que é importante reduzir a carga fiscal. O professor universitário Alberto Castro avisa para não se embarcar em "entusiasmos imediatistas". Madalena Cascais Tomé, CEO da SIBS, pede um programa de crescimento estruturado.
Os caminhos para Portugal
Patrique Fernandes sublinha a necessidade do país ter técnicos e quadros qualificados.
Filipe S. Fernandes 06 de junho de 2017 às 12:26
Patrique Fernandes advisory lead partner da PwC

Portugal, os próximos cinco anos

Após a saída do Programa de Ajustamento económico em 2014 e a recente saída do Procedimento por Défice Excessivo, nos próximos 5 anos é preciso afastar as principais ameaças que pairam sobre a economia portuguesa.

A taxa de crescimento do PIB do primeiro trimestre de 2017 (2,8%, de acordo com o INE, é um bom indicador e um grande passo para criar uma dinâmica positiva, mas é importante que este crescimento seja sustentado. Para reduzir o endividamento do Estado e do sector privado para níveis confortáveis, e assim potenciar um aumento da confiança dos empresários portugueses e estrangeiros, é imperativo que o crescimento de longo prazo do PIB seja superior ao da média da EU, em simultâneo com a adopção de uma política fiscal responsável. Enquanto o endividamento não for reduzido de forma substancial, o nosso país continuará mais sujeito do que outros à conjuntura financeira do momento e às políticas de quantitative easing do Banco Central Europeu.

Um crescimento do PIB sustentável requer investimento, e nos últimos anos (2011 a 2015) o investimento público e privado em Portugal atingiu níveis muito inferiores aos da média da UE. Se esta tendência não se inverter no curto prazo, o crescimento da nossa economia estará necessariamente comprometido.

Por outro lado, a demografia portuguesa, caracterizada por um envelhecimento crescente e uma diminuição projectada da população ao longo das próximas décadas, representa uma ameaça para o crescimento da economia em geral e um factor adicional de desequilíbrio para as finanças públicas, na medida em que os trabalhadores activos serão cada vez menos numerosos para suportar as pensões da crescente população reformada.

Empresas como motores do crescimento

No contexto actual, as empresas precisam de desenvolver estratégias de aceleração das exportações, assentes em aumentos de produtividade potenciados por uma adaptação das suas estratégias ao contexto digital. A forma como as empresas se relacionam com os seus clientes está já a evoluir de forma acelerada, com a utilização crescente das redes sociais e plataformas móveis. Muito modelos de negócio precisam de ser adaptados ao novo contexto, tirando partido dos ganhos de produtividade que as novas tecnologias digitais permitem (cloud computing, inteligência artificial, data analytics, impressões 3D e Internet of Things).

O motor para o crescimento económico deverá passar por um aumento do valor acrescentado das nossas empresas, assente numa estratégia de crescimento das exportações. Em 2015, as exportações portuguesas correspondiam a 40.3% do PIB, de acordo com o Banco Mundial, o que apesar de representar um aumento expressivo face à década anterior, ainda fica ligeiramente abaixo da média da UE (42.9%) e muito abaixo da proporção das exportações no PIB de países como a Bélgica e a Holanda, que excede os 82%.

O sucesso que se ambiciona para as exportações deverá continuar a assentar em sectores como o turismo, bens de equipamento, refinados de petróleo e têxteis e calçado. Mas cada vez mais existe o potencial para que as empresas Portuguesas de base tecnológica contribuam decisivamente para um crescimento das exportações de software e de serviços. O empreendedorismo e a criatividade das start-ups, quando assentes em modelos de negócio sãos e sustentáveis, são factores críticos de sucesso para o desenvolvimento destas novas empresas viradas para a economia digital.

Recursos humanos e financeiros

Mas para sustentar um aumento da competitividade das empresas portuguesas, é crítico que exista um abastecimento de técnicos e quadros qualificados. As instituições de ensino profissional e as universidades por um lado, e as instituições de formação profissional por outro, têm vindo a desempenhar um papel fundamental para a capacitação dos nossos recursos humanos. Mas os desafios nesta área são enormes e verifica-se actualmente um défice (em quantidade) de profissionais qualificados em tecnologia, o que pode ameaçar a aceleração digital no nosso país.

Importa referir que a situação financeira de uma grande parte do tecido empresarial português é ainda débil. O endividamento das empresas é elevado, que vêm a sua sustentabilidade financeira particularmente exposta aos ciclos económicos e aos ciclos de concessão de crédito pela Banca.

A solidez financeira dos bancos continua a merecer uma particular atenção. Muito foi já feito para melhorar a solidez do sistema financeiro português, com intervenções por parte do Banco de Portugal, aumentos de capital e investimento directo estrangeiro. No entanto, a qualidade de alguns activos (crédito concedido a empresas) ainda é insuficiente. É necessário actuar de forma integrada ao nível das empresas devedoras em situação difícil, ao nível da estratégia e das operações, por forma a melhorar a rentabilidade e assegurar as condições de reembolso dos empréstimos à banca.

Uma última palavra para a elevada carga fiscal em Portugal, sobre os particulares e sobre as empresas. À medida que a execução orçamental o venha a permitir, é importante dar um sinal aos agentes económicos de estímulo, reduzindo as taxas de imposto.



Alberto Castro professor de economia


Política. Gestão

No último ano, a economia teve um trajecto em crescendo. Teremos preparado a nossa estrutura económica para não voltar a descer de divisão?

Há um ano, o Arouca festejava um histórico 5º lugar que lhe permitia participar na Liga Europa. No domingo, desceu de divisão, repetindo o sucedido a vários "pequenos clubes". A euforia deu lugar à realidade: competir em várias frentes, representa um novo patamar para o qual são precisas novas competências e estruturas. Como dizem os economistas, "não há almoços grátis".

No último ano, a economia portuguesa teve um trajecto em crescendo, culminado com o crescimento de 2,8% no 1º trimestre deste ano e na saída do procedimento por défice excessivo. Estamos de volta à Champions! Teremos preparado a nossa estratégia e estrutura económica para não voltar a descer de divisão? Tal como no futebol, é necessário não embarcar em entusiasmos imediatistas. No curto-prazo é fundamental aproveitar o potencial já existente, melhorando o desempenho: um desafio para a gestão privada e pública, incluindo o empenhamento na mitigação dos obstáculos de contexto, internos e externos, que condicionam este propósito. Contudo, por mais bem gerida que seja, a actual estrutura não chega para os novos desafios. À míngua de disponibilidades financeiras, há que investir em cativar fora muito do capital e dos "jogadores" que nos faltam. Em paralelo, prepare-se, e vá-se fazendo, a mudança. Uns acenam com alterações radicais. Os exemplos mais bem-sucedidos, não seguem nem utopias, nem modas. Evolui-se. Mais e melhor. Novo e diferente. Ambição com os pés assentes na terra: construindo sobre as condições e competências existentes, investindo em novas. Subindo por adjacência, sem saltos impossíveis, porém colocando-nos, em permanência, novos desafios. Priorizando objectivos e optando (não dá para "ir a todas"), progredindo para um novo patamar de sofisticação e complexidade que nos permita entrar, e ficar, numa liga onde só cabem os melhores. Objectivos, prioridades, escolhas. Política. Gestão.



Madalena Cascais Tomé presidente executiva da SIBS


Desígnio nacional de crescimento depende das empresas

O caminho passa pela definição e execução de um programa estratégico de crescimento económico sustentável. Só um programa sistemático e mobilizador, será capaz de nos fazer atingir o nível de crescimento necessário e sustentado.

O caminho para Portugal passa pela definição e execução de um programa estratégico de crescimento económico sustentável. O mercado está em permanente mudança e Portugal tem de evoluir por forma a estimular a economia e manter-se relevante no contexto europeu, num entorno competitivo e tecnológico cada vez mais intenso.

Os desafios são grandes, sobretudo num contexto dinâmico e competitivo, em que a concorrência é cada vez mais global, e a evolução tecnológica e digital está a alterar os paradigmas e modelos de negócio de vários sectores e mercados.

Só um Programa nacional, sistemático e mobilizador, será capaz de nos fazer atingir o nível de crescimento necessário e sustentado.

1) Definição de uma ambição e uma estratégia que tire partido dos factores diferenciadores nacionais.

Portugal tem um potencial forte que resulta da combinação da sua capacidade tecnológica de vanguarda, recursos e infraestruturas. Para reforçar a sua competitividade deverá existir um reforço da oferta de produtos de valor acrescentado adaptados à realidade dos clientes e dos mercados onde as empresas nacionais operam / podem operar.

2) Concretização de um plano de acção com responsabilidades, objectivos e prazos claros para os vários intervenientes.

Este deverá contribuir para melhorar temas como i) previsibilidade do enquadramento fiscal e regulatório, que deverá acompanhar o desenvolvimento dos modelos de negócio e o quadro regulamentar europeu; ii) combate à fraude, informalidade e evasão fiscal, eliminando distorções competitivas; iii) eficácia no funcionamento do sistema judicial e na resolução de litígios, com contributo directo para a confiança dos agentes económicos; e iv) flexibilização da regulação e condições de trabalho, com impacto directo em aumento da produtividade.

3) Articulação e acompanhamento permanente e estruturado da sua execução, monitorização dos resultados e introdução de medidas de mitigação de desvios

Um Programa de Crescimento estruturado, com objectivos bem definidos, assente na capacidade tecnológica e de inovação dos portugueses, e o foco e resiliência de todos (empresas, indivíduos e Estado) na sua execução, serão o caminho para o crescimento continuado da economia nacional, a um ritmo ambicioso, mas exequível, e para um Portugal sustentável e competitivo no mercado global. As empresas têm um papel preponderante para qualquer desígnio nacional de crescimento.





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