Ana García Cebrian: "A saúde deve ser vista como um investimento"

Perguntas a Ana García Cebrian Directora-geral da Sanofi Portugal
Wilson Ledo 03 de outubro de 2017 às 10:57
Ana García Cebrian é directora-geral da Sanofi Portugal desde Abril de 2017, mas já estava no país há cerca de ano e meio, onde notou "um certo dinamismo" no sector da saúde.


Que mudanças tem notado no sector da saúde?
O sector da saúde tem apresentado um certo dinamismo. Na área do medicamento, as mudanças procuram introduzir maior eficiência e transparência no sistema e ir ao encontro da estratégia definida de melhorar o acesso à inovação, sem colocar em causa o rigor orçamental. Estamos alinhados com estes princípios. Mas as constantes alterações e imprevisibilidade do sector podem condicionar a nossa procura de maior captação de investimento para Portugal.

A saúde em Portugal está mais sustentável?
A universalidade de um sistema como o que existe em Portugal é uma garantia constitucional fundamental. Assim, a sustentabilidade da saúde aliada à equidade é certamente um ponto crucial para qualquer decisor político, sendo fundamental que se passe a analisar os gastos em saúde também numa perspectiva de investimento prioritário. Quando comparamos a relação entre a despesa e os resultados obtidos em saúde entre os países da União Europeia a 15, Portugal posiciona-se acima da média e a indústria farmacêutica tem tido um papel importante na diminuição da despesa. No entanto, a projeção do crescimento económico não é compatível com a expectativa da evolução dos custos em saúde face aos actuais desafios demográficos e sociais.

Quais permanecem os grandes desafios para o sector?
Prefiro encará-los como áreas de oportunidade para o estabelecimento de consensos entre todos os intervenientes no sector. É exemplo a implementação de medidas organizacionais já identificadas, como o reforço dos cuidados de saúde e a reforma hospitalar. Depois, o contínuo investimento em infra-estruturas tecnológicas que permitam uma maior monitorização do sistema e o aumento da eficiência do processo de gestão. Por fim, uma aposta clara na prevenção e na educação para a saúde, permitindo que o doente seja visto como o ponto central do sistema e parte integrante na decisão. Na área do medicamento, continuamos com desafios importantes como a constante pressão para a redução dos preços, os prazos de aprovação de terapêuticas inovadoras, a instabilidade legislativa que nos leva a cenários de alguma imprevisibilidade e o aumento crescente das dívidas hospitalares.

Aproxima-se o Orçamento do Estado para 2018. Que propostas gostaria de deixar?
Segundo a OCDE, Portugal foi o segundo país da Europa com menor crescimento da despesa em saúde 'per capita' nos últimos anos. Perante os desafios anteriores e o consensual subfinanciamento da saúde, penso que seria importante que neste Orçamento se fizesse um esforço de correcção. A área da saúde deve ser vista como um investimento fundamental para o desenvolvimento económico do país, onde a indústria pode ter um papel mais interventivo, com a criação de parcerias que contribuam para uma maior sustentabilidade financeira e para um sistema mais eficiente e equitativo, centrado na saúde e no bem-estar do doente.





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