Bem-Humanizar "serve" atenção no conforto do lar

A equipa de cuidados paliativos ao domicílio funciona 24 horas por dia e nos sete dias da semana, abrangendo os concelhos de Arcos de Valdevez e Ponte da Barca. O Provedor da Misericórdia destaca o serviço "em momentos difíceis para as famílias".
Bem-Humanizar "serve" atenção no conforto do lar
Paulo Duarte
António Larguesa 12 de outubro de 2017 às 11:51
Foto em cima: Vânia Afonso, responsável pela área de saúde da Misericórdia de Arcos de Valdevez, diz que a equipa tenta "dar resposta ao que a maioria dos utentes quer quando está em fase paliativa e terminal: ficar em casa e morrer em casa".

É possível prestar cuidados paliativos das 9h às 17h? Vânia Afonso é lesta a responder que o apoio aos doentes e às famílias não pode terminar no final da hora do expediente dos profissionais da equipa. "Porque é à noite que as pessoas têm mais dúvidas, é à noite que os utentes se descontrolam", justifica a coordenadora da área de saúde da Santa Casa da Misericórdia dos Arcos de Valdevez (SCMAV), garantindo que "se o telefone tocar às 2 da manhã, elas [enfermeiras] atendem sempre" e sublinhando que esse é o "carácter diferenciador" da Bem-Humanizar em relação a outros serviços do género existentes no país.

A equipa domiciliária de cuidados paliativos, criada em Dezembro de 2014 pela Misericórdia desta localidade do Alto Minho, funciona 24h por dia e nos sete dias da semana. Conta com dois médicos, duas enfermeiras, uma psicóloga, uma nutricionista e uma assistente social, que fazem o controlo sintomático, reduzem o sofrimento e dão qualidade até ao fim da vida dos utentes. Além disso, ajudam a satisfazer alguns dos derradeiros desejos e prestam apoio emocional à família, estendida depois à fase do luto, "para que se possa cumprir a vontade de estar o mais tempo possível em casa", que era comum à quase totalidade dos 380 beneficiários apoiados nos primeiros dois anos e meio de actividade.


380
Beneficiários
A equipa de cuidados paliativos ao domicílio apoiou um total de 380 pessoas nos primeiros dois anos e meio de actividade.


A referenciação pode ser feita por profissionais de saúde, por instituições de cuidados continuados ou pelo próprio doente e familiares. "Tivemos uma senhora que foi referenciada por um médico depois de numa semana ter ido 14 vezes à urgência. A partir do momento em que começámos a segui-la, e durante os oito meses em que a acompanhámos até falecer, ela não voltou a ir lá", exemplifica Andreia Cerqueira.

A enfermeira de 34 anos, que está neste projecto desde o início, detalha que uma das "exigências" é que haja um cuidador na família, que consiga gerir a terapêutica e até contactar a Bem-Humanizar em caso de necessidade. De um ponto de vista pessoal, confessa que, em dez anos de enfermagem, "nunca [se sentira antes] tão acarinhada e respeitada" como agora.
A doente oncológica Emília Silva (acompanhada pela filha e cuidadora Eva) é uma das utentes seguidas nos últimos meses pela equipa da Bem-Humanizar no concelho vizinho de Ponte da Barca.
A doente oncológica Emília Silva (acompanhada pela filha e cuidadora Eva) é uma das utentes seguidas nos últimos meses pela equipa da Bem-Humanizar no concelho vizinho de Ponte da Barca.
Paulo Duarte
Abrangendo Arcos de Valdevez e Ponte da Barca, muitos quilómetros quadrados e baixa densidade populacional - até à Peneda, no meio da serra, tardam duas horas no Inverno -, em média, visitam semanalmente 18 utentes, além de verem outros tantos nas instituições em que fazem consultoria. Porém, se numa situação estável e sem descontrolo sintomático basta uma visita por semana e alguns telefonemas, no caso de um doente ou família descompensada "é o que for necessário". E num único dia já chegaram a visitar cinco vezes o mesmo doente.

O visível mais o invisível

Francisco Araújo, provedor da SCMAV, sintetiza que esta equipa é "uma extensão da intervenção" da instituição, que conta com 280 colaboradores e à volta de 400 beneficiários directos nas várias valências, que vão da infância aos idosos. "Tem uma relevância ainda superior por ser uma intervenção que tem uma enorme aceitação, atendendo ao trabalho específico que é feito em momentos difíceis para as famílias", insistiu.
O provedor Francisco Araújo destaca os benefícios deste serviço para o sistema de saúde.
O provedor Francisco Araújo destaca os benefícios deste serviço para o sistema de saúde.
Paulo Duarte
Evitar idas às urgências e internamentos hospitalares são os resultados mais visíveis, a par dos alcançados em indicadores técnicos de bem-estar e diminuição da dor. "Ter as pessoas em casa junto da família, dando apoio através destas equipas, é muito menos oneroso para o Estado. E comporta também outro valor grande, que economicamente não é mensurável. Nestes meios e nesta altura difícil de partida, o estar perto das pessoas que nos são queridas e ter o apoio para uma morte com as condições que minimizam a dor e mantêm o conforto", relata o provedor Francisco Araújo.

Como fez mais com menos

Unir esforços e vontades com os parceiros

O lançamento da equipa domiciliária de cuidados paliativos Bem-Humanizar, no final de 2014, só foi possível numa conjugação de esforços com outras instituições, como a Fundação Calouste Gulbenkian, a Unidade Local de Saúde do Alto Minho e a Câmara de Arcos de Valdevez. Este serviço gratuito tem contado sobretudo com o apoio financeiro obtido no programa Saúde Inovar da fundação, cujo período de financiamento termina no final deste ano. Vânia Afonso quer manter a equipa nos mesmo moldes a partir de 2018, lançando um apelo também "à responsabilidade social das empresas para dar alguma sustentabilidade" a este projecto.

Pontos fortes

A enfermeira Diana Sequeira partilha a "folha de serviços" no apoio domiciliário, destacando as médias obtidas nos primeiros dois anos e meio no terreno.

Intervir rápido e de forma eficaz

A Bem-Humanizar demora apenas 0,6 dias para fazer a primeira avaliação a um novo caso referenciado e, em média, o nível de dor é reduzido para metade nas primeiras 48 horas. Os dados recolhidos pela equipa da Santa Casa da Misericórdia de Arcos de Valdevez atestam também uma diminuição dos tempos de internamento e o planeamento mais eficaz das altas hospitalares, assim como apontam para uma taxa de agudização "extremamente reduzida", com apenas 35 dos 380 doentes seguidos a terem de recorrer às urgências.




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