Braga pisca “olho preguiçoso” às escolas

Do “sonho” de Sandra Guimarães resultou o diagnóstico universal, gratuito e em tempo útil da ambliopia, principal causa de perda de visão. O Pimpolho já poupou milhares de euros e chegou a 170 escolas de seis concelhos.
Braga pisca “olho preguiçoso” às escolas
Sandra Guimarães, 45 anos, foi a mentora e é a responsável pelo projecto Pimpolho, que até Junho de 2017 já viu um total de 3.150 crianças.
Pedro Trindade
António Larguesa 29 de setembro de 2017 às 11:09
Na época escolar, as quartas à tarde e quintas de manhã são de animação especial no Hospital de Braga e trazem a "felicidade crónica" a um local "mais habituado a lidar com a dor", na ilustração do presidente da comissão executiva, João Ferreira. Em cada um desses dias, cerca de 30 crianças da região, entre os três e os quatro anos, chegam em formato de passeio escolar e "fora do circuito dos doentes", ocupam uma área para brincadeiras e um anfiteatro onde assistem a filmes, enquanto aguardam a sua vez de fazer a avaliação oftalmológica.


15%
Diagnósticos
Além dos 2,4% de casos de ambliopia, o Pimpolho permitiu detectar problemas oftalmológicos em 15% das crianças.


O entusiasmo das crianças é partilhado pela médica oftalmologista Sandra Guimarães, que há 15 anos teve este "sonho" do diagnóstico universal e em tempo útil da ambliopia, "a principal causa de falta de visão" e uma perda permanente se não for tratada até aos cinco anos, idade a partir da qual diminui a eficácia do tratamento. A concretização do Pimpolho surgiu em 2014 numa parceria com a Câmara de Braga, que faz o convite às escolas e garante o transporte gratuito. Há um ano, o serviço foi alargado a cinco concelhos: Amares, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Vieira do Minho e Vila Verde.

Isto é o meu sonho. Sonhei com isto há 15 anos e não é mau ter conseguido concretizar 12 anos depois. [Risos]. A grande mais-valia deste projecto, além da elevada taxa de adesão, é a equidade social. Conseguimos que todas as crianças venham de facto ver os olhinhos sem os pais faltarem ao trabalho.  SANDRA GUIMARÃES
Médica oftalmologista pediátrica e responsável pelo projecto Pimpolho 

Mais de 170 escolas estão envolvidas no projecto e a taxa de participação ascende a 83%, subindo para 96% se consideradas só as públicas. A esta percentagem, Sandra Guimarães soma como destaque "a equidade social, ao garantir-se que todas as crianças vêm de facto ver os olhinhos, sem os pais faltarem ao trabalho". "Isto é fazer com mais eficiência - os custos directos e indirectos são menores e nenhum rastreio voluntário tem esta taxa de adesão. Por outro lado, em termos de eficácia, os miúdos são diagnosticados e tratados a tempo, com uma taxa de sucesso muito grande. Isto marca a diferença", acrescenta o director do serviço de oftalmologia, Fernando Vaz.
Gabriel Alves foi um dos casos diagnosticados no rastreio, que tem a particularidade de ter o transporte assegurado pelas autarquias.
Gabriel Alves foi um dos casos diagnosticados no rastreio, que tem a particularidade de ter o transporte assegurado pelas autarquias.
Pedro Trindade
Se não fosse o Pimpolho, o pequeno Gabriel "podia estar cego e a gente nem dava por ela", angustia-se Helena Alves. "E continuava cego sem a gente dar por ela porque ele não se queixava", reforça a mãe, que há dois anos soube, após este diagnóstico, que o filho tinha menos de 10% de visão num dos olhos e de ser operado a uma catarata do desenvolvimento. "Ficámos todos muito admirados. Como ele seguia sempre os olhinhos, um e outro, nunca ninguém reparou. Nem ele se queixou de nada", completa a bracarense.

É quase como os aplausos num espectáculo, não precisamos de mais. E vemos os próprios profissionais felizes por saberem que estão a fazer a diferença.  João Ferreira
Presidente da comissão executiva do Hospital de Braga

Hoje com cinco anos, o menino do Colégio de São Pedro de Lomar já recuperou a visão até 70%, usa óculos e todos os dias ainda tapa o "olho bom" com um penso para que o cérebro estimule o olho "preguiçoso" - o nome por que até é mais conhecida esta doença.

Contas e aplausos

Até Junho de 2017, o Pimpolho já tinha avaliado 3.150 crianças. E os dados das primeiras 2.300, vistas até Dezembro do ano passado, dão a estimativa de que na população cerca de 4% das crianças têm ou tiveram ambliopia. Algumas situações já tinham sido tratadas, pelo que este rastreio serviu para diagnosticar 2,4% de casos moderados a graves, que precisam de ser tratados em tempo útil. "Numa turma, quase sempre um dos meninos tem alguma coisa", resume Sandra Guimarães, notando que há situações simples que são tratadas em poucos meses e outras que se arrastam mais no tempo.
O programa criado em 2014 é classificado como
O programa criado em 2014 é classificado como "win-win" pelo gestor João Ferreira.
Pedro Trindade
Um estudo da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho analisou as vantagens deste modelo centralizado e que não obriga os pais a faltar ao trabalho e deslocar-se individualmente ao hospital, subtraindo o gasto camarário, e contabilizou um ganho de 21,59 euros por criança. Extrapolando o modelo para o país, considerando que em 2012 nasceram 89.841 crianças, o "benefício para a sociedade" ascenderia a quase dois milhões de euros só pelo efeito laboral e das deslocações, sem incluir os ganhos na saúde pelo diagnóstico precoce.

Se não fosse isto, ele não vinha [fazer o rastreio]. Neste momento podia estar cego e a gente nem dava por ela. E continuava cego sem a gente dar por ela porque não se queixava. Helena Alves
Mãe de Gabriel, com ambliopia diagnosticado no âmbito do projecto Pimpolho

João Ferreira fala de um projecto "win-win", já que também evita visitas desnecessárias ao hospital, mas diz preferir o "reconhecimento público" que o Pimpolho traz à unidade pública gerida pela José de Mello Saúde. "É quase como os aplausos num espectáculo, não precisamos de mais. E vemos os próprios profissionais felizes por saberem que estão a fazer a diferença", conclui o gestor.


Caso de inovação

Ligação municipal

"Inovação é pensarmos fora da caixa, em vez de dizermos: 'todas as crianças precisam de ser vistas aos 3 - 4 anos, portanto, paizinhos, estamos aqui de portas abertas, tragam cá os meninos'. Não, fizemos diferente. Se eles estão na escola, vamos facilitar a vida a toda a gente e vamos lá buscá-los. Isto é a nossa inovação". Sandra Guimarães é lesta a dar resposta sobre qual o factor mais inovador do projecto Pimpolho. Esse acordo com as Câmaras Municipais, que garantem o transporte e assim reduzem o custo "para as famílias e para a sociedade", é também o destaque do director de serviço. "Isso é que faz com que 96% das escolas venham cá, caso contrário viriam 20%, se tanto", arrisca Fernando Vaz.

A figura

Fernando Vaz
Director da oftamologia

Fernando Vaz não foi o mentor do Pimpolho, mas foi o "veículo" sempre disponível para levar o "sonho" de Sandra Guimarães à administração do hospital e ajudar a desbloquear um processo que, para funcionar, precisava que várias outras peças se encaixassem - do sistema educativo ao autárquico. Nascido em Braga há 55 anos, estudou na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e trabalhava no hospital de Santo António, na Invicta, até ser desafiado para chefiar este serviço de oftalmologia em 2010, ainda no antigo hospital de S. Marcos. Esse foi outro "empurrão" indirecto que deu ao Pimpolho, pois só após responder ao "básico" e aumentar a eficiência é que foi viável libertar recursos para o projecto.





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comentários mais recentes
Camponio da beira Há 3 semanas

Há que louvar a atitude e ideia genial desta senhora.

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