Cumieira "encaixa" solução para falhas nos medicamentos

A farmácia de Fafe criou um serviço para auxiliar na correcta administração dos medicamentos, na melhoria da adesão à terapêutica e na diminuição dos problemas relacionados com a medicação, que hospitalizam 43 mil portugueses por ano.
Cumieira "encaixa" solução para falhas nos medicamentos
Olga Baptista, directora técnica e uma das proprietárias da Farmácia da Cumieira, impulsionou o lançamento deste serviço em 2011.
Pedro Trindade
António Larguesa 12 de outubro de 2017 às 12:36
De olhos azuis e robustez minhota, Manuela Mendes não se cansa de repetir que a Preparação Individualizada da Terapêutica, um serviço da Farmácia da Cumieira que prepara a medicação para toda a semana, distribuída pelos vários momentos do dia, "é mesmo um descanso" para toda a família de Manuel Fernandes Mendes, 72 anos, que há três sofreu um AVC e passou a ter de tomar mais de uma dezena de medicamentos.
A fafense Manuela Mendes é uma das utilizadoras do sistema, que prepara a medicação do pai desde que sofreu o AVC.
A fafense Manuela Mendes é uma das utilizadoras do sistema, que prepara a medicação do pai desde que sofreu o AVC.
Pedro Trindade
"A que toma de manhã, ao almoço, ao lanche e à noite. A minha mãe pode ir onde quiser - ela adora ver concertos - e os quatro filhos podem ficar com ele à vontade porque a medicação está preparada. Mais importante ainda é ver também se a minha mãe não se esquece de lhe dar os remédios", resume esta funcionária de um laboratório de análises clinicas, que ouviu falar do serviço quando o pai estava prestes a sair da unidade de cuidados continuados de Nespereira.


2011
Ano de lançamento
O serviço começou a ser prestado no ano de entrada da troika em Portugal e ajudou a manter os postos de trabalho nesta farmácia de Fafe.


A instituição de Guimarães foi a primeira a testar este projecto pensado para idosos polimedicados e pessoas com doenças crónicas ("não têm aquela percepção da melhoria e acabam por facilitar", aponta a directora técnica e uma das proprietárias da farmácia) e que, desde meados de 2011, auxilia na correcta administração dos medicamentos, na melhoria da adesão à terapêutica e na diminuição dos problemas relacionados com a medicação.


Olga Baptista reclama mesmo que este serviço farmacêutico ajuda a dar resposta a uma "questão de saúde pública". É que os motivos podem ser vários - esquecimento, falta de dinheiro, descrença na eficácia, receio dos efeitos secundários, confusão entre marcas e genéricos ou duplicação da adesão terapêutica -, mas a problemática está bem identificada. Segundo os cálculos da Organização Mundial de Saúde, cerca de 50% dos doentes não tomam os medicamentos de forma correcta.

"Só os farmacêuticos têm o conhecimento do medicamento, mais nenhum profissional [de Saúde] o tem. Se não formos nós a responder ao que está em falta, mais ninguém o vai fazer. Nem o médico, nem o enfermeiro. Temos de saber para que serve, que interacções existem, se tem indicação correcta para aquele problema de saúde. Temos obrigatoriamente de estar implicados em todo este processo", sustenta Magda Gonçalves, 30 anos, natural de Angra do Heroísmo, nos Açores, e formada em Farmácia na Universidade do Porto.

Poupanças à vista

O sistema personalizado de dispensa de medicamentos custa 15 euros por mês e começa com uma avaliação do perfil fármaco-terapêutico do utente. Prossegue com a elaboração de um mapa terapêutico e materializa-se com a preparação do blister semanal que "arruma" a medicação.
A Striknowledge, liderada por Nuno Cardoso, ajudou a digitalizar todo o processo, até aos pedidos de receitas.
A Striknowledge, liderada por Nuno Cardoso, ajudou a digitalizar todo o processo, até aos pedidos de receitas.
Pedro Trindade
Desde 2015, com o surgimento da plataforma digital MEDS ("Medication Made Easy"), criada pela empresa bracarense Striknowledge, liderada por Nuno Cardoso, docente e investigador da Universidade do Minho, o processo deixou de ser manual, desde os mapas terapêuticos aos pedidos de receituário. Uma inovação que veio facilitar a comunicação entre todos os intervenientes, ajudar na preparação dos blisters e também na gestão de stocks, contribuindo para o controlo da despesa.

A Farmácia da Cumieira, que emprega sete funcionários numa vivenda localizada na rua com o mesmo nome, que liga o centro de Fafe à zona industrial, chegou a ter 250 utilizadores deste sistema, que baixaram entretanto para a centena e meia. E que incluem os chamados utentes de balcão, a quem o serviço foi alargado há dois anos e que são agora o foco de Olga Baptista, até por serem mais fáceis de fidelizar. A gestora, 41 anos, defende ainda a comparticipação do Estado na adesão a este serviço, que deveria ser prescrito pelo médico se entender que pode haver um problema na adesão terapêutica e na continuidade na medicação.

É que, justifica e enumera, os benefícios para o sistema de saúde são vários. Terapêutica mais efectiva, gastos mais reduzidos com a comparticipação de medicamentos, menos consultas e exames complementares de diagnóstico e menos casos de hospitalização, estimando que todos os anos 43 mil doentes sejam admitidos nos hospitais portugueses em consequência de situações evitáveis relacionadas com medicamentos.


Como fez mais com menos

Aumentar receitas com esforço colectivo

A Preparação Individualizada da Terapêutica foi também uma resposta da Farmácia da Cumieira à crise que começou a sentir ainda antes da chegada da troika. Essa "porta de entrada" em vários clientes institucionais, admitiu a proprietária, ajudou a equilibrar as vendas e contribuiu para que "não [tivesse] de despedir nenhum funcionário". Embora haja figuras mais ligadas a este serviço - como a farmacêutica Magda Gonçalves, 30 anos, que acompanhou todos os aspectos neste projecto, incluindo até o espaço físico e a logística -, nunca houve uma pessoa alocada só a ele, sendo prestado por vários elementos da equipa da farmácia, hoje com sete pessoas.

Pontos fortes

A toma dos medicamentos é mais efectiva com este serviço, mostrou um inquérito de satisfação, que valorizou ainda o acesso dos doentes a mais e melhor informação.

Satisfação e informação

Um inquérito realizado este ano pela Farmácia da Cumieira mostrou que a generalidade dos utentes está satisfeita ou muito satisfeita com este sistema, que acha "útil e prático", e que neste período aumentou o nível de adesão terapêutica nestes utilizadores. Olga Baptista valoriza ainda a "segurança" de serem acompanhados por um profissional e não ficarem sozinhos. É que o serviço não é só a preparação da medicação, "mas todo o envolvimento do doente no processo da doença, da toma do medicamento e depois no controlo e acompanhamento".





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