Francisco George: "Ter 100 anos será cada vez mais frequente"

O director-geral de Saúde, Francisco George, venceu o Prémio Personalidade e antecipa que dificilmente haverá uma cura para o cancro. Ainda assim, a tendência é vivermos cada vez mais anos.
Francisco George: "Ter 100 anos será cada vez mais frequente"
Bruno Simão
Bruno Simões 12 de outubro de 2017 às 15:04
Em 2080, a esperança média de vida deverá ultrapassar os 90 anos. A tendência da humanidade é viver mais anos, e vivê-los com qualidade é o principal desafio das autoridades de saúde, antecipa Francisco George. Mesmo que nunca se encontre uma cura para o cancro.

Estamos longe de encontrar a cura para o cancro?
O cancro provavelmente nunca terá cura, mas poderá ter tratamentos que o tornem numa doença de evolução prolongada, que não se morra devido ao cancro em si. A questão do cancro não tem uma solução única. Há cancros que têm uma origem infecciosa, até diria provocada por agentes vivos. Não necessariamente todos vivos, uns vírus, umas bactérias, protozoários. E esses têm solução. No fundo são esses agentes vivos que desorganizam a multiplicação celular. Uns têm uma origem comprovada, que é o caso dos agentes biológicos conhecidos, que é o caso do papiloma, do cancro do útero, caso do vírus da hepatite B, caso do fígado, caso de bactérias no cancro do estômago, é o caso de alguns cancros na bexiga.

Há outros cuja origem não se conhece.
Depois há causas desconhecidas que facilitam o aparecimento do início dessa desordem da multiplicação celular do cancro. E há muitos trabalhos nesta área. Portugal está na linha da frente destes trabalhos. Temos um bom programa e temos bons institutos que trabalham nesta área. Toda aquela equipa fantástica de Sobrinho Simões no Porto tem trabalhado muito esta área. Portanto, vamos ter inovação, tratamentos inovadores, controlo. Mas é um dos problemas, o cancro.

O cancro pode-se transformar um pouco no que aconteceu com a sida, que também era uma doença que matava?
Sim. Mas também é possível evitar, prevenir. Hoje sabemos que há sempre falta de intensificar a dimensão preventiva, que é fundamental. A exposição, no caso do aparelho respiratório, não só ao tabaco mas também à poluição, a alimentação correcta e mais uma vez o exercício físico. Parece simples, parece que é uma lengalenga mas é uma lengalenga verdadeira. A verdade é que o exercício físico também pode contribuir para a prevenção do cancro. É verdade que uma alimentação equilibrada previne o cancro. É verdade que não se deve estar exposto ao sol, [isso] previne o cancro da pele, o melanoma.

É a doença que mais teme, o cancro?
No plano pessoal ou no plano de gestor de saúde?

Em ambos.
Como gestor de administração de saúde é um problema, porque os medicamentos inovadores são caros e vão ser cada vez mais caros. Aí há um risco de sustentabilidade financeira do sistema. No campo pessoal não, estou mais preocupado com a continuidade da qualidade de vida, a elevação da qualidade de vida o mais possível. Com menos dependência possível.

Quando assumiu este cargo (2005), a esperança média de vida estava nos 76,4 anos, entretanto passou para os 80. Estamos preparados para lidar com uma população cada vez mais velha?
Temos que estar. É esse o conceito de sustentabilidade: as medidas decididas hoje, incluindo as políticas de hoje, não podem prejudicar aqueles que vão viver daqui a 20 anos ou 40, nas gerações seguintes. Há sempre que ter este cuidado.

Perfil

Uma vida no "pingue-pongue" da saúde

Durante a entrevista conduzida no seu gabinete, no topo da Alameda D. Afonso Henriques, Francisco George disse ser natural ser uma cara muito reconhecida. É que "não é possível fazer saúde pública sem comunicar". Por isso, quem "não comunique com facilidade não pode desempenhar este cargo". Nascido em Lisboa a 21 de Outubro de 1947, Francisco George licenciou-se em Medicina na Faculdade de Medicina da capital. Em 1980 foi trabalhar para a OMS. Chegou à DGS em 2001, como subdirector-geral, e tornou-se director-geral em 2005. Tem quatro netos  e é um apaixonado pelo Benfica. A sua falecida mulher era, aliás, filha do arquitecto do Estádio da Luz. É um grande fã de "pingue-pongue", ou ténis de mesa. "É muito bom, porque impõe atenção, concentração e depois esta coisa do movimento e apanhar a bola, é fantástico. Pingue-pongue é o paradigma do desporto de adultos, para a 'middle age"'.


As projecções do INE apontam para que em 2080 as mulheres cheguem, em média, aos 92 anos. O que significa que quem nascer hoje poderá com grande probabilidade chegar aos 100 anos.
Sim, e isso é um problema que tem que ser equacionado, por isso fazemos um grande esforço, no sentido de prevenir as doenças crónicas, que têm todas elas um denominador comum, ligada à exposição ao tabaco - que tem que se reduzir, ao exercício físico - que tem que se aumentar, e à alimentação. Se nós resolvermos esta questão, a morte prematura, que se verifica antes dos 70 anos, é diferida, e teremos mais pessoas com mais idade e menos pessoas a morrer antes dos 70 anos. Isto vai impor medidas sobretudo no âmbito dos serviços sociais.

O nosso corpo está preparado para viver tantos anos?
Sim. Há quem diga, com base em estudos de viabilidade das células, que podemos ter uma vida que ultrapasse largamente os 100 anos. Os chamados centenários. É isto que vai acontecer num futuro muito próximo: os que têm 100 ou mais anos vão ser cada vez mais frequentes. Neste momento devemos ter em Portugal cinco mil portugueses com essa idade, mas vão aumentar. E isso vai implicar maiores cuidados, não só de saúde nesta fase de prevenção das doenças crónicas, em particular diabetes, cancro e doenças cardiovasculares, que são as três grandes áreas de mortalidade, mas também vai mobilizar outros meios, sobretudo nas questões ligadas à Segurança Social e aos apoios sociais.

Gostava de viver até aos 100 anos?
Gostava de viver com qualidade e independência o mais possível, desde que não sobrecarregue, em termos de falta de independência, outros. E devo dizer que gostava de morrer subitamente. A morte súbita, então durante a noite, é como dizem os portugueses…

Uma paz.
Uma paz, é a paz total. Todos caminhamos para aí, o pior que pode acontecer em termos individuais e familiares é as pessoas terem sucessivos AVC, ficarem cada vez mais dependentes de outros, e as pessoas que estão acamadas, que não podem comer, não se podem levantar… têm direito a ser cuidadas, mas naturalmente em termos individuais ninguém deseja isso.

Não deseja sofrer.
Nem fazer sofrer outros..

Dicas rápidas de saúde

Sal
"Metade do sal que ingerimos temos de o substituir. Não é acabar com o sal, é substituir metade do sal da alimentação por ervas aromáticas".

Açúcar
"Uma vez que a insulina só é necessária quando ingerimos açúcares, temos que ingerir menos açúcar, para pouparmos insulina".

Álcool
"Não somos contra, somos pela moderação da ingestão do álcool. Um copo [às refeições] é aceitável, depende da graduação do vinho".

Tabaco
"O tabaco não é uma questão de moderação. O tabaco é eliminar. Não é aceitável".




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