Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 11 de setembro de 2017 às 19:00

Autoeuropa: a geringonça em acção

Desde que o Governo iniciou funções que os socialistas nos dizem que não há qualquer problema em dar espaço político e institucional aos partidos da extrema-esquerda, como se o muro que sempre os separou fosse um pormenor, um detalhe, um obsoletismo, como se a voluntária dependência dos socialistas face a esses partidos fosse um berloque, um adorno, um detalhe.

Sucede que não é assim, nem poderia ser assim, porque nenhum desses partidos mudou a sua natureza e nenhum se aproximou do espaço político da moderação europeísta e da economia social de mercado que tem sido o do PS.

 

Na verdade, este arranjo governamental, que obriga o PS a depender do PCP e do Bloco, e que oferece a esses partidos uma institucionalização que sempre lhes faltou na sua condição de revolucionários (temos um revolucionário no Conselho de Estado, por exemplo, algo que parece não incomodar ninguém), foi alinhavado sem que PCP ou Bloco tivessem anunciado qualquer "aggiornamento", sem que tivessem aprovado novos documentos programáticos, sem que o PCP tivesse abjurado as ditaduras assassinas com que se relaciona, sem que o Bloco tivesse revisto qualquer uma das suas posições sobre a Europa ou a economia de mercado.

 

Esta institucionalização não é por isso um detalhe, uma coisa de somenos, porque abre espaço à legitimação política de ideias, processos e técnicas, que combatem, ferem, querem destruir, o modelo democrático ocidental que temos e ambicionamos desde Abril. Para que assim não fosse, a extrema-esquerda teria de deixar de ser extrema, algo que esta, com toda a legitimidade, e porque ninguém lho pediu, não quer deixar de ser.

 

Quer isto dizer que o PS deixou de ser quem era, que abraçou ideais revolucionários e que dele se espera que passe a louvar regimes antidemocráticos? Nada disso.

 

Quer isto dizer que o PS desvalorizou, e de forma irresponsável, o impacto desta abertura à extrema-esquerda, como que julgando, com soberba, que meteria aqueles partidos no bolso, que bastariam umas cedências aqui ou acolá, que tudo não passaria de um acordo inconsequente de distribuição de benesses e satisfação de clientelas.

 

Esta ingenuidade dos socialistas vai sair-nos, está a sair-nos, cara, e o caso da Autoeuropa é apenas o último exemplo, embora o mais paradigmático.

 

O que está a passar-se na Autoeuropa, empresa que viveu décadas com uma paz social que evitou a sua deslocalização e que compensou os custos de contexto que aqui encontra, não resulta de outra coisa que não da natureza do sindicalismo comunista, que defende as políticas do PCP e não os direitos e as preocupações dos trabalhadores, e do combate fratricida, publicamente muito escondido e desvalorizado, entre PCP e Bloco, agora agravado no seio de uma coligação de apoio ao Governo.

 

E o que é que o PS tem que ver com isto?

 

Ao colocar-se sob dependência destes partidos, e depois de dois anos a tratá-los como se fossem partidos comuns, como se nada de estrutural nos separasse deles, o PS perde o espaço político e mediático que teria para impedir, para travar, a luta fratricida que se vive na empresa e que põe em causa milhares de postos de trabalho e uma parte do nosso crescimento económico.

 

É por isso que Ana Catarina Mendes se limita a dizer-se chocada com o que se passa na empresa: não pode dizer nem fazer muito mais quando a destruição da empresa está a ser levada a cabo por parceiros seus de governação, que o PS legitimou e abraçou, e de quem depende para governar.

 

Em vez de agir, para salvar a empresa, o PS choca-se. E é isto.

 

De cada vez que o PS nos disser que a geringonça foi um avanço, um arranjo histórico e fabuloso, olhem para o que está a passar-se na Autoeuropa.


Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

Advogado

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