Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 06 de novembro de 2017 às 19:11

Dos que fingiram não ver 

Não podemos comparar culpas, mas não podemos ignorar os que quiseram ignorar - porque era impossível ignorar.

Não é de hoje que as explicações de José Sócrates parecem contraditórias, inverosímeis, quase infantis; que a prepotência de José Sócrates parece evidente, manifesta, quase ofensiva; que os ataques de José Sócrates a quem o confronta parecem indignos, impróprios, quase totalitários.

 

Nada do que hoje sabemos ou vemos sobre o José Sócrates político é novidade. Falo da prática política e deixo os alegados crimes de fora, que são irrelevantes para o que aqui descrevo: a forma de lidar com os adversários, a mentira recorrente, o desligamento da realidade, o entrincheiramento, a incapacidade de lidar com as críticas, a recusa da sindicância, os blogues anónimos, os condicionamentos.

 

Não é possível fingir que não se sabia de nada disto. Sabia-se, via-se, sentia-se. Poupemo-nos por isso ao espanto, choque, como se só agora aquelas explicações e expressões e encenações fossem ridículas: elas estiveram sempre lá e foram sempre ridículas.

 

Como foi isto possível? Como pôde um Estado de direito, em pleno século XXI, tolerar, conviver, permitir, uma governação assim, práticas destas? Como pôde isto suceder num sistema que se esperava que tivesse os seus mecanismos de equilíbrio, a tal boa moeda a expulsar a má?

 

Isto sucedeu porque a esmagadora maioria do nosso sistema, da esquerda à direita, preferiu fingir que não via, calou-se. Ministros que aceitaram não governar, apenas obedecer, que julgaram que governar era malhar na oposição, alimentar blogues anónimos. Jornalistas e magistraturas que aceitaram não investigar, apenas obedecer, que julgaram que fazer perguntas era ofender, incomodar. Históricas elites que aceitaram não pensar, apenas obedecer, que julgaram que o seu papel era esconder, ignorar. Tudo isto sucedeu porque nem o bardo apareceu a resistir ou a dizer que não: no PS, ninguém, ou quase ninguém, apareceu a resistir, e os que apareceram foram gozados e humilhados. Lembram-se de como eram tratados os que duvidavam e os que ousavam perguntar? Eram humilhados sob gáudio e aplauso geral, porque quem se mete com o PS leva.

 

Tudo isto foi possível porque muita gente, tanta gente, deixou, quis, aceitou. Não podemos comparar culpas, mas não podemos ignorar os que quiseram ignorar - porque era impossível ignorar. Há sempre espaço para os ingénuos ou para os que estão demasiado perto para ver, claro. Desses, que tantas vezes foram os primeiros a participar no espetáculo da humilhação, malhando nos que se perguntavam, esperava-se, sempre tão lestos a sentenciar sobre terceiros, alguma humildade, que assumissem o triste papel a que se prestaram, que pensassem duas vezes antes de fazerem barricada.

 

Mas não eram todos ingénuos, não. Foi uma opção. E continuam por cá, esses, os que optaram, alinharam, se divertiram, os que acharam que assim é que era. Seria bom que nos dispensassem a sobranceria que ainda usam perante os que fazem perguntas, recusando a sindicância, alimentando a tese do "aproveitamento político"; seria bom que estivessem prontos a reconhecer o seu papel condicionador, a assumir que, se tivesse dependido deles, nada disto se saberia. Sim, com todas as letras: se dependesse dessas pessoas, nada disto se saberia porque todas as perguntas eram ilegítimas.

 

O que hoje nos parece uma caricatura foi possível porque muita gente deixou. E essa muita gente está por cá, pronta para ficar, para fazer o que for necessário para continuar, fingindo que nada se passou, disponível para que algo assim volte a passar-se. José Sócrates pode não voltar, mas eles ficam, e, com eles, o modo de fazer política que convictamente apoiaram e alimentaram.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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