Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 16 de outubro de 2017 às 20:31

O país arde e volta a encontrar-se com o Governo e com o Estado que temos

Uma ministra incapaz de assegurar a segurança que o país necessita, de explicar as opções tomadas, de informar as populações, de ser um garante, queixando-se das férias que não teve.

É como se não existisse, ou existisse apenas para provar que António Costa, por capricho, não remodela a pedido, por gritante incapacidade.  

 

Um secretário de Estado preocupado em mostrar que a culpa de tudo isto é de toda a gente menos do Governo, identificando responsáveis aos primeiros momentos de aflição, ele eram as populações, os pastores, as queimadas, apostado em encontrar culpados para que se não falasse das falhas dos serviços por ele tutelados. É como se a sua única função fosse encontrar terceiros responsáveis, um raio, uma árvore, um fenómeno, algo que lhe permita manter o lugar enquanto outros perdem tudo.

 

Um primeiro-ministro, responsável primeiro e máximo pela organização e sistema de proteção civil, que não só diz que tudo isto vai voltar a acontecer, falando de reformas da floresta às 3 da manhã de uma noite fatídica, como ainda responde, displicente, irritado com a sindicância, "minha senhora, não me faça rir a esta hora", à jornalista que lhe perguntava que medidas estavam a ser tomadas. É como se o Governo não existisse para reagir, para proteger, para defender, como se fosse uma ousadia, um topete, confrontar o primeiro-ministro com o fracasso das suas políticas e a inépcia dos seus comandos, como se fosse normal dizer que tudo isto vai acontecer mais vezes quando acabam de morrer dezenas de pessoas.

 

Este é o retrato do nosso Governo e do Estado face a uma catástrofe em que morrem dezenas de pessoas, tudo resumido numa lapidar ideia do secretário de Estado, que o primeiro-ministro se apressou a corroborar: "Temos de nos autoproteger", porque não podemos "ficar à espera dos bombeiros e dos aviões". Nem o mais furioso liberal se lembraria de uma coisa assim.

 

Se o Estado, que consome metade da riqueza produzida, não serve para isto, serve para quê? Que titular de pasta de soberania é este que decreta o cada um por si, salve-se quem puder? E que primeiro-ministro é este que corrobora um Estado tão mínimo que não serve para a segurança das populações? Então serve para quê? Que confiança podemos ter quando tudo se desmorona? Seria cómico se não tivesse morrido gente assim, precisamente, a autoproteger-se, a tentar salvar-se e aos seus bens por não poder ficar à espera de bombeiros.

 

Este é o retrato do nosso Governo e do Estado face a uma catástrofe em que morrem dezenas de pessoas, um grupo de pessoas que não se responsabiliza por nada, não aceita ser sindicado por nada, não vê necessidade de pedir desculpa, de se retratar, de mudar, de assumir, é o deixar andar, populações à sua sorte.

 

Bastou ver a forma como a ministra e o primeiro-ministro apresentaram, sem ler, sem querer saber, desvalorizando, passando por cima, o relatório que demonstrou as sucessivas falhas na coordenação em Pedrógão, e que caiu em saco roto apesar de demonstrar que Pedrógão não foi uma conjugação cabalística de azares, o que aliás se confirmou neste domingo.

 

Não, o Governo não é responsável pelos incêndios. Mas é responsável, isso sim, seja quem for o ministro, de esquerda ou não, pela proteção civil, pela reação, pelo combate, pela organização, pelo socorro. Falhou o Governo e falhou o Estado e falhou a decência, porque não é possível, perante o que se passou, não assumir uma única responsabilidade. E não, a demissão da ministra não basta. Já há muito que passámos essa fase porque há muito que ela deixou de ser ministra. É toda a sobranceria do Governo que tem de ser abandonada. Para se dar ao respeito. E por respeito.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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