Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 09 de agosto de 2018 às 20:19

Costa ganha com a encruzilhada do PSD 

O duro caminho das pedras da oposição está a desencadear uma das mais importantes encruzilhadas da sua história, com a anunciada cisão de Santana Lopes. Quem lucra com a luta fratricida entre os laranjas é o PS.

O PSD sempre foi um partido peculiar, uma amálgama ideológica desde o início, na qual convivem verdadeiros sociais-democratas com liberais empedernidos e democratas-cristãos. Com uma grande base de apoio e vocação de poder, verdadeiramente interclassista, o partido sempre viveu em ambiente de crispação, por vezes a raiar a guerra civil, quando está no caminho das pedras da oposição.

 

Até o líder mais amado do partido, Francisco Sá Carneiro, teve de gerir uma importante cisão de figuras destacadas, que fundaram a ASDI, parceiro de coligação do PS. Nesse combate, Sá Carneiro saiu vencedor, já que conquistou o poder, com a Aliança Democrática, enquanto os notáveis da ASDI ficaram do lado dos derrotados.

 

Mesmo no poder e com lideranças fracas, o partido viveu convulsões, como aconteceu após a tragédia de Camarate, que levou à saída do primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão.

 

Com Passos Coelho no governo, o PSD viveu a fase mais liberal. Mas o duro ajustamento da troika teve efeitos eleitorais, mesmo entre simpatizantes do partido. Apesar de ter ficado em primeiro nas legislativas de 2015, uma conjugação política inédita, para a qual também contribuiu a dureza e a forma autista de aplicação das medidas da troika, levaram a que António Costa passasse de derrotado nas eleições a primeiro-ministro de uma estranha aliança política de esquerda, que parecia contranatura e que graças à evolução económica, e aos bons ventos da política monetária do BCE, funcionou com sucesso. E como se viu nas últimas autárquicas, Costa ganhou eleitores com a liderança do Governo.

 

A sondagem da Aximage publicada no Correio da Manhã e no Jornal de Negócios indica que dificilmente o Partido Socialista com António Costa perderá as eleições. Nem tudo são rosas e a facilidade com que o fogo de Monchique lavrou durante dias, lembram as fragilidades deste pobre país.

 

Mas nos dados que realmente importam na hora do voto, a sorte sorri ao Governo. O desemprego está baixo, os juros das casas estão baratos.

 

Além deste cenário, que as pessoas sentem, ainda há a memória do ajustamento da troika sem dó nem piedade, que afasta milhares de eleitores do PSD, mesmo que Rui Rio não tenha tido qualquer culpa nesse cartório.

 

Já seria difícil nestas circunstâncias o PSD disputar com grandes possibilidades de vitória as próximas legislativas. A cisão anunciada de Santana Lopes agravará a situação. Santana tirará votos ao PSD e CDS. Facilitará a vida de Costa.

 

Saldo positivo: baixa do desemprego

 

A melhor notícia da economia portuguesa dos últimos anos tem sido a redução substancial da taxa de desemprego. Cada emprego criado é um drama social resolvido. Em alguns sectores assiste-se mesmo ao pleno emprego, havendo falta manifesta de profissionais. É curioso que a quebra do desemprego esteja a ter um ritmo mais vigoroso do que o crescimento do PIB, havendo aqui um aparente paradoxo. Mas estes dados também indicam que se o emprego aumenta, a produtividade mantém-se em níveis modestos.

 

Saldo negativo: défice comercial

 

A retoma portuguesa está a provocar um efeito no comércio externo já muito conhecido. O aumento dos gastos na economia faz-se comprando mais produtos no exterior, degradando a balança comercial. Assim, em Junho, as importações aceleraram com um aumento de 18,1%, enquanto as exportações também registaram um acréscimo (8,6%), o que significa cerca de metade das compras ao exterior. Esta evolução mensal significa agravamento do défice comercial para 1,68 mil milhões de euros.

 

Algo completamente diferente: a ineficácia pública no desastre de Monchique 

 

A serra de Monchique estava identificada como uma das áreas críticas de fogos florestais para este ano. Mesmo assim as chamas lavraram sem tréguas durante demasiados dias, obrigando a retirar pessoas. O cerco das chamas à vila de Monchique e à cidade de Silves mostram que o Estado voltou a falhar. Mas desta vez não foi por culpa de falta de meios. Havia muitos aviões, muitas viaturas e muitos homens destacados para o combate. Algo falhou na coordenação e na liderança operacional. A única lição com as tragédias do ano passado foi o resgate das populações, que evitou mortes. 

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