Baptista Bastos
Baptista Bastos 12 de Julho de 2012 às 23:30

Acusado de doutor na forma tentada

Este assunto do ministro Miguel Relvas querer ser doutor na forma tentada, dá vontade de rir, mas obedece à cultura pacóvia (não só apanágio dos portugueses, diga-se) que foi zurzida pelo Eça e pelo Camilo, e, também, pelo Fialho e pelo padre Agostinho de Macedo.
Está-nos na massa do sangue este gosto pela reverência que a palavra "doutor" suscita. Não é preciso sê-lo, basta parecê-lo, em muitos casos, como é vertente em Relvas. Relvas é um político em miniatura. Não o fosse e teria outra dimensão e a grandeza de ser, apenas, o que é, pouco ou muito. O homem sabe mover-se na engrenagem da política, desta política, que exige muito mais astúcia e malícia do que conhecimentos e espírito de decência.

No fundo, é isso mesmo que está em questão: a decência. Não os saberes. Porque esses, por tão poucos e superficiais, qualquer um, com manha e despudor, os adquire empiricamente. O empirismo é um valor: a experiência vale ouro e, no estrangeiro, em muitos países, atribuem-se títulos académicos pelos "doutos saberes." Claro que, neste caso, é preciso ter uso de muitas disciplinas do conhecimento. Obtém-se o conhecimento nos livros, na rodagem da vida, nos encontros e correspondências com outros, de outro gabarito.

Não recuso o título de "doutor" a Miguel Relvas. Cabe a ele aceitá-lo ou recusá-lo. Mas não faz grande diferença ao mundo o ministro ouvir-se chamar: dr. Miguel Relvas. E esta pequena aldrabice, porque de aldrabice se trata, põe em causa a permanência dele no Governo? A decência, aqui, não é uninominal: Pedro Passos Coelho tem uma palavra a dizer. Assim como, noutro campo, o ministro Nuno Crato não pode continuar calado. Que tem a dizer acerca do caso pessoal e do caso mais delicado que envolve uma universidade? Crato, sorridente, julgou despejar o problema para o caixote do lixo, alegando que não comenta matéria dos seus colegas de Governo.

O descaramento, aqui, assume idênticas proporções, pela evasiva e pelo indecoro, ao provocado pela licenciatura Relvas. A cumplicidade no silêncio nada tem a ver com lealdade. E lealdade não é nunca fidelidade. Fidelidade é própria dos cães. Lealdade tem a ver com carácter. E Nuno Crato deve-nos lealdade, a nós, portugueses, e não, exclusivamente, ao seu "colega de Governo." Aliás, mais a nós do que ao "colega", e esse peso de responsabilidade devia ter sido tomado em conta.

Todas estas pequenas realidades pertencem aos territórios da moral e da ética, comportamentos hoje muito tripudiados por quem prefere o êxito a todo o preço, e a "visibilidade" a troco de tudo.

É pior o ministro Relvas ser acusado de doutor em forma tentada do que o procedimento que teve no caso com o "Público", ou um facto resulta do outro e ambos são farinha do mesmo saco? E Miguel Relvas, mais as trapalhadas envolventes serão banalidades, "um não-assunto", no extraordinário dizer de Pedro Passos Coelho, ou, realmente, algo de muito importante porque abrange uma universidade e o sistema de ensino, o alegado favoritismo e a ascendência do poder sobre instituições tão relevantes como aquela?

Os valores e os padrões deveriam ser, antes de tudo, as bandeiras do poder. Porém, a razão dominante impõe as emergências do dinheiro e das falsas aparências como méritos essenciais. Ser "doutor" é, certamente marcante, porque resultado de trabalho por vezes insano e incansável. Mas ser homem, ser pessoa, é, sem dúvida mais importante, essencial e indispensável.

Confesso não estar muito interessado em descortinar o destino de Miguel Relvas. Estas e outras coisas de igual jaez e semelhante estilo são rapidamente absorvidas por outras actualidades, e o esquecimento recuperará os seus domínios. Até que outro "escândalo" se substitua àquele e a comunicação social, afobada e muito enérgica, se dedique aos casos que as exigências da oportunidade exigirem.

Como dizia, há dias, numa das televisões, uma senhora de belo rosto cheio de rugas: "É como as águas do rio: abrem-se para receber uma pedra que lhes foi atirada, mas logo se fecham e tudo fica na mesma."

Tudo fica na mesma. É isso, sem tirar nem pôr.
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comentários mais recentes
rodrigo-costa 24.07.2012

... Na verdade, nunca acreditei que a Escola pudesse "fazer" homens, se eles, na sua génese, já não o fossem. Da mesma forma que não acredito nos alicerces e no futuro de nenhum escola, se não tiver sido fundada e não tiver, sustentando-lhe a actividade, homens que tenham nascidos homens e se tenham feito homens —como diz Baptista Bastos, ou eu infiro, uma licenciatura não passa de uma rosa na lapela de alguém que tomou banho.

Ora, sendo verdade que nem só em Portugal a vida se tornou um negócio, mentiria, se dissesse não ser aqui que a "coisa" mais se sente. Porque, como costumo dizer, as terras que mais abomino são as que ficam entre a aldeia e a cidade e que, por isso mesmo, não chegam a ser uma coisa nem outra; e é delas que são provenientes os verdadeiros parolos.

Na sequência, se entendermos o Mundo como um país, facilmente perceberemos que Portugal não sendo uma daquelas "aldeias" das quais a informação e a tecnologia ficam, ainda, a uma distância, aparentemente, insuperável, também não é —por todas as razões, e mais uma que referirei, à frente— comparável a nenhuma das "cidades", verdadeiramente, desenvolvidas.

Pode, toda a gente, continuar a evocar Salazar, o Estado Novo e seus derivados, como causa de todos estes efeitos... Podem, mas sem fundamento, porque, em 2014, completar-se-ão 40 anos passados, depois da "revolução", e pouco ou nada foi alterado, na medida em que o fundamental, a mentalidade, permanece. E percebe-se, definitivamente, que Salazar não era único; com defeitos e virtudes, terá sido, de entre todos os "salazares" que têm dado à costa, o único com envergadura.

40 anos seria muito tempo, tempo suficiente para que se sentisse alterações profundas; para que as pessoas, na generalidade, alterassem tendências, hábitos; para que alterassem padrões e referências... O que é que as impediu e as tem impedido?... Salazar?!!! Não, outra vez, não!

O impedimento é o chico-espertismo —era esta a razão a que me referia, atrás— de que não se desfazem; a tendência para procurar os atalhos, tendo-se a consciência de que as sínteses não são mera subtracção à perífrase; são a condensação legível e inteligível do que pode ser dito com menos palavras. Porém, como os "revolucionários" não tinham projecto para o dia seguinte, o que "Abril" fez foi abrir caminhos e escuridão à praga de "ratos" que estavam contidos e escondidos; e, à libertinagem, decidiram crismá-la e reformular-lhe o nome: liberdade. Pouco, muito pouco, como se pode ver.

Passagens administrativas; a igualização entre alunos e professores, entre pais e filhos —de tal modo que, em muitos lares, hoje e de há muito, são os filhos os chefe de família—; a apologia desenfreada da juventude e a segregação da idade com experiência...

Um chorrilho de anormalidades que nunca visaram o desenvolvimento, a actualização de um País que se manterá atrasado, porque a solução "democrática" é a eleição por voto e não por competência e por experiência.Todas estas medidas têm favorecido interesses particulares e levaram, veja-se —a Vida é de uma tremenda inteligência— à "debacle" colectiva.

Evocando Salazar, os seus programas, os seus acólitos e os seus desmandos... ei-los, os partidos, como fórmulas, covardes, da Mocidade Portuguesa. Eles assemelham-se a infantários, berçários de gente que tem sido e há-de continuara ser viciada na podridão; os antros onde decorrem treinos para garantia de sucessão e manutenção; onde são preparados muitos homens pequenos, incapazes de existirem e de se expressarem sozinhos...

E aí está, o chico-Relvas, o produto acabado e padrónico do Português-tipo, porque nunca ninguém o ensinou a ser homem, mas a ser "rato", capaz de, politicamente, ser o pai do primeiro-Ministro, um homem que se percebe em dificuldades, porque não passa de um "água-morna" a que alguém tem que mudar as fraldas.

E aí está, um Presidente da República, que, para mim, de facto, não é; o presidente é a mulher, ele é que foi a votos...

O País tornou-se um infantário, gerido por crianças que já nascem destituídas e más... Talvez, más, por destituídas; porque as frustrações matam mais do que as maleitas...

www.rodrigo-costa.net

Anónimo 17.07.2012

são pessoas como este Senhor que nos levam a ler opiniões de autor...já sei escrutinar quem devo ler e quem não devo..quem me dera que muitos de nós, responsáveis por passar palavra falada e por vezes escrita fossem inteligentes, bastava isso e seriamos todos melhores

Anónimo 16.07.2012

Esta gente que se tem aboberado no maceirão da política, são a desgraça de nós POVO

Anónimo 15.07.2012

Há muito tempo que sabemos que a substituição dos valores (VALORES) judaico.cristãos da nossa Cultura, por outros "valores"zinhos importados nem se sabe de onde, ia dar nisto... Há Princípios (muitos) e há ainda a Declaração Universal dos Direitos Humanos que tem sido muito arredada da nossa (será ainda e à letra - o primeiro mundo?)civilização dita Civilização!

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