Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 20 de julho de 2017 às 20:30

Direita, esquerda e o "politicamente correcto"

A confusão hábil e deliberada que os conservadores fazem entre os valores hoje considerados apropriados e a imposição desses mesmos valores é um mau serviço a toda a sociedade.

O termo "politicamente correcto" começou a ser usado nos anos 60 pelo meio intelectual de esquerda nos Estados Unidos para criticar o que considerava ser a excessiva ortodoxia conservadora à data. A partir do final dos anos 80 - após uma série de livros e de artigos influentes - os conservadores norte-americanos adoptaram a expressão como sua. Essa transferência manteve-se até hoje e alastrou-se a qualquer lugar em que progressistas e conservadores - nem sempre distribuídos rigorosamente entre esquerda e direita, veja-se o conservadorismo do PCP em matéria de orientação sexual - batalham pela predominância dos seus conceitos de sociedade.

 

A apropriação do termo por parte dos conservadores não aconteceu por acaso. O domínio que tinham sobre o padrão do "normal" - do "apropriado" - estava a ser desafiado nas universidades norte-americanas. Foi assim porque, entre outros aspectos, a demografia nessas universidades estava a mudar: diminuía o peso do "homem branco", aumentava o das mulheres e o de pessoas de outras raças. Da academia aos media foi um passo e as causas que antes estavam fora do cânone definido pela ortodoxia foram, gradualmente, ganhando predominância nos currículos universitários e nas páginas da imprensa. A batalha começara a virar a favor dos progressistas - e os conservadores inverteram o uso do chavão.       

 

Esta apropriação reflecte um aspecto interessante. O "politicamente correcto" - a luta pelo cânone - não é tanto sobre as palavras ou o direito à opinião, como brande hoje a direita conservadora. É sobre política. É sobre quem tem o poder para chamar X ou Y a alguém baseado em aspectos da sua identidade (género, orientação sexual, raça) e para influenciar as políticas públicas para a família, para as mulheres, para todos os não brancos, para os "gays", etc. Neste sentido, o que cai dentro do "politicamente correcto" varia consoante o equilíbrio de poderes entre progressistas e conservadores - nada está definitivamente ganho ou perdido para nenhum dos lados.

 

Até aqui falei das ideias que formam o que é "politicamente correcto". Mas a prática do "politicamente correcto" é outra coisa: significa, para usar a definição da Merriam Webster, "conformar à crença de que a linguagem e as práticas que podem ofender sensibilidades políticas (como em assuntos de raça ou sexo) devem ser eliminadas". Quem diz a linguagem pode dizer o pensamento. Esta prática é perigosa pelo precedente de limitação à liberdade que abre, pela dificuldade em traçar a linha entre aquilo que "ofende" (conceito vago) e o que é "aceitável".

 

Distinguir a diferença entre o que está no cânone e a imposição desse cânone é muito importante para filtrar reacções à direita e à esquerda perante casos como o de Gentil Martins ou de André Ventura. Uma parte das reacções da direita mais conservadora nestas questões mistura habilmente as ideias que conseguiram entrar para o cânone com a imposição abusiva dessas ideias: o objectivo encapotado é inverter parte dos avanços (importantes, argumento eu) da agenda progressista. Os conservadores confundem deliberadamente o direito à indignação veemente - em temas que definem a identidade dos visados - com uma censura ao discurso que gostam de ouvir e proferir. Essa confusão não ajuda o público a perceber quando a esquerda está de facto a ceder à tentação de limitar o debate livre de ideias - um risco que em Portugal ainda não se materializou, mas a que temos de estar atentos. Já tivemos neste país uma ortodoxia conservadora asfixiante - seria bom não a substituirmos por outra.

 

Jornalista da revista Sábado

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surpreso Há 4 semanas

Quais valores,ou não tens tomates para falar claro?

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