Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 24 de agosto de 2017 às 20:30

Os semideuses de Jackson Hole e a política portuguesa

Para perceber onde está o centro do poder portuguesa na política pós-crise global financeira convém não olhar só para o que acontece no parlamento, os gabinetes ministeriais ou o palácio do Presidente – tão ou mais importante do que isso é olhar para as montanhas do remoto estado norte-americano do Wyoming.

É lá, em Jackson Hole, que estão hoje reunidos os tecnocratas não-eleitos que evitaram uma catástrofe maior nos últimos anos, que definem o preço do dinheiro que usamos e que têm influência decisiva na política: os banqueiros centrais. 

 

Desde que a primeira pessoa que agiu como um banqueiro central mergulhou um reino no caos - o holandês Johan Palmstruch, na Suécia do século XVII - que se percebe o extraordinário poder inerente ao cargo. Mas nunca como hoje esse poder foi tão grande: o Banco Central Europeu, a Reserva Federal ou o Banco de Inglaterra, com uma invejável independência face ao poder político, conseguiram evitar uma depressão global e o colapso do euro.

 

No caminho erraram, mas atravessaram muitos rubicões, como escreve Neil Irwin no excelente "The Alchemists", uma viagem à história dos bancos centrais. Salvaram bancos nos EUA, ajudaram as finanças públicas dos países do euro, usaram soluções nunca antes testadas para evitar a repetição dos erros da década de 30 do século passado depois da crise financeira de 1929. Podemos apontar o dedo aos riscos destas políticas - o facto de o dinheiro ir menos para a economia real do que para a economia financeira, o consequente risco de formação de bolhas em certos mercados, etc. -, mas é difícil argumentar que estaríamos melhor sem a prestação de pessoas como Ben Bernanke, Mario Draghi ou Janet Yellen.

 

Este poder quase unipessoal - as decisões são colegiais mas a força intelectual e diplomática do líder do banco central é decisiva - foi sendo revelado, passo a passo, aos políticos cercados pela crise. Na zona euro foi o BCE que apeou Berlusconi, que impôs (sem que viesse logo a público) condições aos governos de Madrid e de Roma e que, a dada altura, estabilizou a zona euro com um arrojado programa de compra de activos. Em Portugal foi a acção do BCE que permitiu a saída do programa da troika e criou o contexto para a vitória da coligação PSD/CDS nas eleições - essa mesma acalmia imposta no mercado de dívida foi essencial para possibilitar os acordos entre o PS e o Bloco e o PCP e ajudar à estabilidade do governo.

 

No processo de salvar a economia os banqueiros centrais acabaram por aliviar o fardo dos políticos eleitos. Este tempo tem, contudo, um fim. Hoje em Jackson Hole o principal tema de discussão será, de novo, sobre como e quando retirar de forma significativa os estímulos. Como já referi nesta coluna (corrigindo uma opinião anterior), essa retirada arriscada, que vai sendo sinalizada e feita, não tem de ditar uma crise de finanças públicas para Portugal. Mas é seguro assumir que levará a uma subida dos custos de financiamento da República, limitando muito mais o raio de acção da política orçamental - ou seja, passando mais do fardo da política económica para os políticos eleitos.

 

Para a política portuguesa, se acontecer ainda nesta legislatura - o que é difícil de prever - será um teste potencialmente fatal à coesão do apoio parlamentar ao governo. Se for vislumbrável em cima das eleições terá influência no tipo de alianças que serão feitas. Seja como for, a inevitável mudança na acção dos banqueiros centrais, os semideuses que reúnem em Jackson Hole para debater as nossas vidas e pescar truta, parece ser incompatível com o actual status quo político português.  

 

Jornalista da revista Sábado

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