Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 29 de junho de 2017 às 20:30

Pedrógão teria acontecido com qualquer Governo

Afirmar esta conclusão não isenta quem governa hoje, mas ajuda a evitar o tiro a alvos fáceis apenas para aplacar a nossa fúria – nós precisamos dessa fúria para nos focarmos no essencial.

O que aconteceu em Pedrógão? O Governo diz-nos que temos de esperar por "todos os relatórios" - que divulgados um a um, sem filtro, vão cansando a opinião pública e os media - mas, na verdade, já sabemos muita coisa.

 

Sabemos das falhas do sistema de comunicações (SIRESP) usado por quem combate as chamas e orienta o apoio às populações. Sabemos que essas falhas eram conhecidas, seja por relatórios como o da KPMG ou reportagens como a da TVI. Sabemos que os dois carros móveis SIRESP com antenas-satélite estavam indisponíveis (o da GNR avariado, o da PSP na revisão). Sabemos que as pessoas cuja situação dramática era desconhecida (e em alguns casos conhecida) da Protecção Civil foram abandonadas à sua sorte nas aldeias durante e muito depois do incêndio; sabemos que a fatal N236, para onde algumas testemunhas dizem ter sido encaminhadas, tinha faixas de pinheiros coladas às bermas. 

 

Sabemos também da tradição política de substituir comandos operacionais meses antes da época de incêndios. Sabemos da dependência pública face a bombeiros voluntários. Sabemos da gestão negligente da pequena propriedade e da deficiente gestão pública florestal. Sabemos, sobre aquele dia, das condições extremas de calor e do fenómeno anormal que transformou o fogo num monstro rodopiante. Eu podia continuar. 

 

Perante o que sabemos é fácil observar que estas falhas revelam sobretudo problemas estruturais, o que equivale a dizer que, com uma ou outra diferença, a tragédia teria acontecido sob qualquer Governo. Esta constatação não desresponsabiliza quem hoje governa. Mas ajuda a filtrar o combate político que ferve sob a capa de debate civilizado - e serve para não exigirmos só saídas fáceis, como a demissão apressada de uma ministra, só para aplacarmos a nossa fúria. Nós precisamos dessa fúria, da angústia. Em "Heat", o tenente Vincent Hanna (Al Pacino) explica à mulher porquê: "Tenho de segurar a minha angústia. Preservo-a porque preciso dela. Mantém-me focado,  onde tenho de estar". Não podemos esbanjar a nossa angústia só numa demissão, numa "onda de solidariedade", no esgotamento do ciclo noticioso.

 

Temos de segurá-la para nos mantermos focados no essencial: primeiro, a responsabilização total, da base ao topo político (o que inclui a ministra), pelas muitas falhas no combate em Pedrógão, seguida das reformas incontornáveis nesta área; segundo, o longo trabalho para menorizar a tragédia sazonal dos incêndios - um trabalho de fundo que, numa cultura inconsequente e avessa ao planeamento, atrai pouca atenção pública fora da época dos incêndios. Seremos capazes?

 

Jornalista da revista Sábado

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