João Costa Pinto
João Costa Pinto 19 de junho de 2017 às 20:44

A banca cooperativa e mutualista - (XCVIII)

As soluções institucionais, organizativas, regulamentares e de supervisão, adoptadas no âmbito da União Bancária, estão a ser deliberadamente colocadas ao serviço de um movimento de concentração bancária.

1. Referi em artigo anterior que, apesar das transformações por que está a passar a intermediação financeira, permanecia convencido de que continuava a haver lugar para um movimento cooperativo e mutualista, com as características do Crédito Agrícola. Considero mesmo que este pode consolidar a sua posição no nosso mercado e dar um contributo único para o desenvolvimento económico e social de muitas comunidades, em particular em regiões onde a banca comercial tem vindo a reduzir a sua presença. Para o conseguir tem, no entanto, de ajustar ao "mundo de hoje" o modelo de negócio e de intermediação bancária que sempre praticou - uma "banca de proximidade", suportada e alimentada pelas raízes e pelos princípios cooperativos/mutualistas que têm enquadrado a actividade do Crédito Agrícola desde a sua origem. A importância desta questão decorre das dificuldades que o processo de transformação dos mercados bancários está a colocar aos bancos e grupos de pequena dimensão. Dificuldades que se vão acentuar. Para o compreender basta ter presente que as soluções institucionais, organizativas, regulamentares e de supervisão, adoptadas no âmbito da União Bancária, estão a ser deliberadamente colocadas ao serviço de um movimento de concentração bancária. O objectivo é abertamente defendido pela tecnocracia europeia: reorganizar os mercados bancários em torno de um núcleo de megabancos, com presença pan-europeia. A situação de fragilidade em que a crise deixou muitos bancos criou uma janela de oportunidade que os defensores desta evolução estão a aproveitar. Mostra-o a absorção do Popular pelo Santander - que está claramente a especializar-se em "bons negócios". A análise dos riscos e das complexas implicações desta evolução, sobre o movimento de integração financeira da Europa do euro, fica para outro dia. Aqui chamo apenas a atenção para o impacto sobre os bancos menores - num contexto de taxas de juro historicamente baixas e de uma União Bancária incompleta. Ou se abrigam em áreas do mercado onde desenvolvem vantagens competitivas - com um serviço de elevada qualidade, suportado por plataformas tecnológicas e técnico-operacionais de elevada eficiência - ou são empurrados para fora dos segmentos rentáveis. Para o Crédito Agrícola, a "banca de proximidade" em que se especializou constitui o "nicho de mercado" de que depende o seu futuro. Desde que opere a partir de uma plataforma que garanta adequados níveis de eficiência e qualidade.

 

2. Esta convicção não deve, no entanto, levar a subavaliar a complexidade dos desafios hoje colocados no caminho do Crédito Agrícola. Afirmar que a "banca de proximidade" vai continuar a ser a "arma" de que depende o seu futuro equivale a dizer que este depende sobretudo da capacidade de adaptação das Caixas Agrícolas e de um modelo de organização do grupo capaz de as enquadrar técnica e operacionalmente, de modo a potenciar a sua capacidade competitiva e a sua acção comercial. Tudo sem prejuízo dos princípios e da cultura que reflectem a sua natureza e origens. O que, por sua vez, depende fortemente quer do modelo de governo do grupo quer do papel e do modelo de negócio da Caixa Central. Questões críticas, num momento em que é inevitável o "render da guarda" de alguns dirigentes históricos que, nas últimas décadas, conduziram Caixas "chave". A continuar outro dia.

 

Economista

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