José Paulo Fafe
José Paulo Fafe 11 de julho de 2017 às 00:01

A importância do controlo da agenda

Perguntam-me como, na minha opinião, o primeiro-ministro poderá (ou deverá) lidar com a fase menos boa que aparentemente o governo atravessa em termos de imagem. Para mim já está a fazê-lo – e como sempre, para quem conheça António Costa, de forma hábil e subtil.
A inopinada atitude de três secretários de Estado ao demitirem-se, invocando motivos éticos, a propósito de um "caso" ocorrido há um ano, que a própria oposição, distraída e "aos papéis", tinha pura e simplesmente deixado cair no esquecimento, foi a primeira resposta que Costa deu a quem, no PSD e no CDS, tem gerido desastradamente "dossiers" sensíveis como os da tragédia de Pedrógão Grande ou do assalto ao paiol de Tancos. A oposição pedia as cabeças de um par de ministros? O primeiro-ministro "ofereceu-lhe" as de um trio de secretários de Estado. Assim, de repente, como quem desfere um violento uppercut no queixo do adversário, sem deixar grande tempo e espaço para a reação. Ainda para mais estabelecendo o que, para ele, significa a diferença entre "responsabilidade pessoal" e "responsabilidade política", puxando o debate para a questão ética.

O chefe do governo sabe tão bem como ninguém que um dos "segredos" da arte de fazer política é manter a condução da agenda, marcando-a, liderando-a e imprimindo-lhe o ritmo que convém - neste caso a quem está no poder. É isso que ele tem feito no último quase ano e meio e foi exatamente isso que, através da demissão dos três secretários de Estado, fez no domingo passado. E é isso que Costa se prepara para fazer no debate sobre o Estado da Nação da próxima quarta-feira, onde não pode, nem por um minuto, deixar de ter a iniciativa, obrigando a oposição a "dançar ao som da sua própria música", ou seja colocando-a, antes de mais, a debater um caso onde, em termos de ética republicana, o governo inquestionavelmente marcou pontos.

Obrigar o adversário a refugiar-se numa posição meramente reativa condiciona qualquer debate ou discussão, inquina-o à partida. E se é verdade que será muito difícil a Costa escapar a discutir Pedrógão ou Tancos, também não é menos verdade que a opinião pública lida sempre mal com aproveitamentos políticos de tragédias, tal como alguma oposição tem caído na tentação de fazer relativamente ao caso da morte de 64 pessoas.

Por tudo isto, sou dos que pensa que o primeiro-ministro não está assim em tão maus lençóis como alguns querem fazer crer. Talvez o "caso Tancos" seja, esse sim, o elo mais fraco das últimas semanas, mas mesmo aí as questiúnculas internas das cúpulas de um Exército fraco mais entretido em digladiar-se entra elas do que propriamente em apurar as responsabilidades que lhes cabem, podem servir como "tábua de salvação" para Costa e a prazo para um ministro que definitivamente não foi uma escolha feliz para aquela pasta.

Rematando: não me espantaria ainda se, no final do debate do estado da Nação da próxima quarta-feira, fosse a ministra da Administração Interna a encerrá-lo em nome do governo. Se me pedissem a opinião, seria o que eu aconselharia...